Marilice Costi


ARTETERAPIA * POESIA * CONTOS * CRÔNICAS * PERCEPÇÃO AMBIENTAL * CRIATIVIDADE * CUIDADOS * SOCIALIZAÇÃO * SINGULARIDADE

AGUARDE: OFICINA ARTETERAPÊUTICA PARA CUIDADORES DE PORTADORES DE SOFRIMENTO PSÍQUICO - cadastre-se no portal - www.ocuidador.com.br (uma p/mês/gratuitas)

AGENDE: palestras, cursos, workshops, oficinas (in company). Projetos especiais de acordo com sua necessidade.

EM 2011 - Oficinas presenciais e pela internet - 51- 96542097 - 30287667

Descubra seu processo criativo ! Melhore a autoestima! Desbloqueie emoções! Desenvolva a criatividade e a percepção.

SANAARTE Produtos Culturais e Serviços Ltda. é a editora da revista O CUIDADOR. Acesse o portal da sua revista http://www.ocuidador.com.br/
_________________________________________________________________________________________



22/01/2012

AMIGOS DE SEMPRE

laços que enlaçam
trançam e traçam
novas linhas
em nosso sorriso

Marilice Costi
encontro na casa de Patrícia Cordeiro e Renan Corá

09/01/2012

um caso perdido...

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade. Deixa que eu conto. São Paulo: Ática, 2003

02/09/2011

DOS DESEJOS

Quero aquele olhar além da espiada!
Ser digital muito além do polegar
de mão silenciosa a aguardar fuzilamento?
Gritar com a concha das mãos!


Brincadeira com hora certa de acabar?
Voar de calças curtas? Cuidar
para não chorar coqueluche de arquibancada.
Para não arrancar o sorriso da face.

Não cabe despedir-se da infância! Tão bom que é?
E não há respostas a perguntas não feitas.
Porque tudo pode ser poção mágica.
Fôlego contido.

Não jogar a pré-saudade fora.
Ela pode ser cozida em fogo lento?


A vida brinca com a vida
como se não conhecesse a morte.


Transformação impondo migração?
A luz está onde a linguagem se estrutura.

Marilice Costi - julho 2011

* Este poema foi criado após a leitura do livro de poesia: A linha do cerol. As metáforas estão lá. Autor: João Scortecci.

BATE-BOLA - Marilice Costi

Poetas preferidos?
Elisa Lucinda, Afonso Romano Sant´Anna, Leminski, Mario de Barros, Adélia Prado, Fernando Pessoa.
Escritores Brasileiros?
Josué Guimarães, Flávio Gikovate, Marina Colasanti, Sérgio Faracco, Fernando Neubarth.
Escritores estrangeiros?
Saramago, Ítalo Calvino, Dan Brown, Isabel Allende, Garcia Marques.
O Livro?

Ensaio sobre a cegueira.
Livros inesquecíveis?

A Casa dos Espíritos, O visconde partido ao meio, Cidades Invisíveis, Cem anos de solidão.
Pessoas importantes na sua vida?
Meus Pais. Alda Rodriguez Leite. Professores. Quem amei. Meus amigos.
Cores?
Azul ultramar, azul petróleo, azul mar, ocre, branco.
Signo?

 Gêmeos. Nasci em 10 de junho às 10 horas da manhã. Nevava. Passo Fundo.
Animais?
Gato, papagaio, calopsita, Leão.
Algum bicho que você não gosta?

Aranhas. Escorpiões. Cobras.
Comidas?

Polenta com galinha (Alice), Risoto (Clarinda), Churrasco (filhos), Peixe (irmãs), Filet mignon(Thys), doces (Suzel), la cousine (Maria de Lourdes), salada (Ângela), Queijo, Macarrão, Molho branco, Chocolate, Saladas criativas, Frutas, Sorvete.
Esportes?
Musculação, caminhada, vôlei.
Bebidas?
Vinho. Chás.
   Países?
Brasil, Itália, França, Grécia.
Cidades?

Porto Alegre, Roma, Paris, Buenos Aires.
Um lugar que tenha mexido com você?
Rio Grande do Sul: casas dos imigrantes italianos.
Do que você gosta?
Escrever, ler, pintar, fazer amor, arteterapia, romper paradigmas, artes, gente, computador, internet, redes sociais, pitoresco, acordar, comer para viver, fotografia, sapato macio, música clássica, italiana e MPB, filme italiano, chuva em telhado de zinco, lua cheia, sol após a chuva, perfume próprio, praia, ensinar/aprender, cheiro de mato, miado de saudade, ouvir o mar, desodorante s/cheiro, dançar, silêncio, luz suave. Abraço sempre.
O que você admira nas pessoas?
Delicadeza, respeito, pontualidade, cavalheirismo, a luta pela vida. 
Uma paixão?
A próxima.
Do que você não gosta?
  
Queixas, gente descuidada, aperto de mão que machuca, bêbado, grude, comida gordurosa, mau humor, perfume adocicado, falta de autoestima, desrespeito, ser preterida por quem amo, irritação, ironia, gente sem caráter, preconceito, de ver publicado o que deveria ter posto no lixo, som alto, agressividade.
O seu maior defeito?

O pensamento rápido. A impulsividade. Trabalhar demais.
Cantores?
Maria Rita, Fito Paez, Andrea Bocelli, Barbra Streisand, Elis Regina, Mireille Matieu, Beatles, Tom Jobin, Zizi Possi, Sara Breitmann.
Atores?

Selton Mello, Paulo Autran, Jack Nicholson, Sean Connery, Abujarama.
Atrizes?
Cher, Meryl Streep, Fernanda Torres, Lília Cabral, Fernanda Montenegro, Sofia Loren.
 
Homens bonitos?
Sean Connery, Roberto D´Ávila, Warren Beaty, Robert Reedford.
Filmes
Cinema Paradiso, A origem, Chá com Mussolini, A árvore dos tamancos, A Sociedade dos  Poetas Mortos, Esperando Forestier, Paris está em chamas.
Avião, Carro, Navio, ou Trem?
Trem e avião. Não gosto de dirigir.
Maior mico?
Escorregar em casca de banana em frente ao meu prédio. Pensar uma coisa e dizer outra. Ser chique para quem é fútil. Dizer o nome errado à pessoa certa.
Pessoas que marcaram a sua vida?
Carlos Appel, Martha Medeiros, Antonio Holtfeldt, Sandra Fagundes, Osvaldo Pontalti.
Alegria?
Cheiro de café e mesa pronta, a chegada, sopa e vinho tinto no inverno, a primavera em POA, um olhar de tesão, texto revisado, a revista vinda da gráfica, e-mail de cuidadores, colo de mãe, abraço amigo, beijo inesperado, vaga no estacionamento público, ver arte com filhos.  Encerrar compras.
Filho com saudade. Esperar quem amo.
Tristeza?
Morte do meu pai. Falência da fábrica. Ter sido demitida em 2004. Máquina pública. Meus filhos na incubadora. Violência. Falta de solidariedade. Gritos. Cobrança afetiva. Morte de amigos. A corrupção.
Jornais?
Coojornal. Pasquim.
Revistas?

O CUIDADOR - Orgulho de Ser.
Escola de Samba?

Mangueira.
Partido Político?
Sou heclética mas tenho meu preferido. Voto na ética. Acredito no poder das pessoas e não nas pessoas com poder. Tenho orgulho por ter votado em uma mulher para Presidente.
Momentos difíceis?
Quando descobri a doença mental. Impotência e hospital psiquiátrico. A falta de acolhimento aos deficientes e seus cuidadores. Meus bebês na incubadora. Distâncias.
Religião?
Sou batizada e crismada pela igreja católica. Espiritualista. Respeito religiões. Acredito em energias. Apometria. Fé.
Medo da Morte?
Não. Medo da dor, da dependência, do abandono, da solidão, de perder todos os amigos antes de me ir. De perder filho.
Um balanço de sua vida?
Infância e estudos no Notre Dame em Passo Fundo/RS (até 1969), a maioridade (sic) aos 16 anos, a repressão, a universidade desagregadora e o estresse  no trabalho público (até 1995), a autodemissão e o mestrado na UFRGS (2000). Outra Marilice após a especialização em Arteterapia! A realização profissional com a revista O CUIDADOR.
Uma festa?
Natal, sempre!
 
Você acredita em Deus?

Acredito em forças superiores e nas energias das pessoas, dos animais, das plantas, do universo. Sincronismo, sinergias, auras, conecções.
Um sonho?
Viajar sem preocupações. Viajar de navio.
 Pagar as contas com a escrita e a arte. Ler a pilha ao lado da cama.
O CUIDADOR voar pela América Latina.
O mundo justo!
Bate-bola - dica do poeta João Scortecci

29/08/2011

INFERNO ASTRAL

Gilberto Gouma

Não me consola saber-me assim. Uma felicidade em potencial que não se consolida. Meus ais se pronunciam com maior alvoroço do que os sorrisos que me congratulam. Há quem me considere ingrato para com tão promissor destino. Julgam que na cartada, levei ases e coringas em profusão. Mas me sinto um macaco numa jaula e as bananas estão do lado de fora. Parece-me que estou emaranhado em idéias que não me pertencem, acordado num pesadelo de doce futuro – amarga sujeição. Sem pedir-me licença, condenaram-me a viver desejos alheios. Lambuzaram-me com leite e mel, quando eu preferiria vinho e pimenta. Nasci com estética de príncipe e uma alma mendicante e só me atraem os plebeus. Meu avesso quer vir à tona e cobrar o que lhe foi usurpado. 

23/08/2011

I - COMUNHÃO DE SENTIPENSADORES

Celebración de las bodas de la razón y el corazón
Para qué escribe uno, si no es para juntar sus pedazos? Desde que entramos en la escuela o la iglesia, la educación nos descuartiza: nos enseña a divorciar el alma del cuerpo y la razón del corazón. Sabios doctores de Ética y Moral han de ser los pescadores de la costa colombiana, que inventaron la palabra sentipensante para definir al lenguaje que dice la verdad.


Celebração de bodas da razão com o coração

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade.

EDUARDO GALEANO (O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM,1997)

20/08/2011

OS LIVROS SÃO PERIGOSOS! - John Milton, 1644

Não nego que seja do maior interesse, tanto para a igreja como para a república, vigiar com muita atenção a conduta dos livros tal como a dos homens; e em seguida, retê-los, aprisioná-los e puni-los com o maior rigor, como a malfeitores. Porque os livros não são coisas absolutamente mortas; têm em si um princípio de vida tão ativo quanto a alma de que são provenientes; e até mesmo conservam, como em um frasco, a força e a essência mais puras da mente viva donde saíram. Sei que são tão cheios de vida e tão vigorosamente fecundos quanto os dentes do dragão da fábula: se forem semeados aqui e acolá, talvez saiam deles homens armados. Por outro lado, entretanto, a menos que isso seja feito com prudência, destruir um bom livro é quase matar um homem; e quem quer que mate um homem, mata uma criatura dotada de razão, ou seja, a imagem de Deus; mas quem quer que destrua um bom livro, mata a própria razão, mata a imagem de Deus, como quem dá um golpe num olho. A vida de muitos homens é uma carga para a terra; mas um bom livro é o sangue precioso do espírito superior, embalsamado e cuidadosamente conservado para uma vida além da vida. Para dizer a verdade, não há século capaz de restaurar uma vida cujo desaparecimento não constitui, talvez, grande perda; e, na sucessão das idades, é raro ter sido reparada a perda duma verdade rejeitada, cuja ausência é prejudicial a nações inteiras. Deveríamos, pois, mostrar maior prudência em nossas críticas em relação aos trabalhos vivos dos homens públicos; em nossa maneira de dissipar esse suco vital da experiência humana, que é conservado e armazenado nos livros, porque vemos que se pode cometer assim uma espécie de homicídio, expor ao martírio e, em se tratando da totalidade de exemplares impressos, chegar a uma espécie de massacre, cujo efeito não é destruir uma vida elementar, mas que fere essa quintessência etérea, o sopro da própria razão, e que aniquila, mais do que uma existência, uma imortalidade.

Trecho retirado de um discurso feito em 1644 por John Milton, autor de Paraíso Perdido, para a Suprema Corte Inglesa. O texto é considerado um dos fundamentos da liberdade de expressão no ocidente .
Vide: Areopagitica, um discurso pela liberdade de imprensa.
 
Colaboração: Dênia Palmira

10/08/2011

Há semanas escrevi isto:

Caráter. Respeito. Credibilidade. Amorosidade. Ser! A grande questão?
Simples a vida. Complicado é suportar o desumano.

07/07/2011

O QUE CARREGAMOS DE SINGULAR?

Perfeição não existe. O que existe quando chegamos à maturidade? Ver nossos pais como seres humanos, aceitá-los com seus erros e acertos como todos nós. O que existiu na minha família foi muita luta, desde o início. Nada fácil. Muita economia. Tudo feito em casa. Roupas, sabão, chimias, sucos. Galinheiro, horta, pomar. Houve um tempo em que só havia água de poço, manivela, balde e corda... A água vinha respingando nos tijolos... Quantas vezes olhei para dentro, aquele fundão. Cuidado menina, sai de perto! Você pode cair dentro. Tempos depois papai instalou uma bomba. Graças a Deus! Mas quando faltava luz... era de novo a manivela. Em nossa casa ,choveu dentro durante muitos anos, molhava todos os livros, piano... Parava de chover na rua, dentro varríamos a água. Eu nem tanto, porque havia empregadas para atender tanta gente... Mas mamãe lastimava as paredes pintadas com cores que ela criava, as cortinas que tinha feito, os livros que grudavam as folhas e ela colocava no sol, punha talco... Papai tinha que reformar todo o telhado e protelava... Primeiro a fábrica... depois a casa... coisas de empreendedor. Tudo longe: escola, farmácia, igreja, amigos, hospital... Dependíamos de alguém que nos levasse na casa dos amigos. Raramente ou nunca vinham me visitar se não os fossem buscar... Cada um com suas coisas, que marcaram nossas vidas e relações para sempre. A casa cheia de filhos, de netos, de representantes, de padres, de freiras, de bispo, de parentes. Achavam que éramos ricos, mas controlava-se tudo, água, energia, nunca o alimento. Tanta gente para alimentar. Mas não havia consumismo, era só o necessário. Não faltou nada. Havia cuidado na família e cuidado na comunidade. Quanta riqueza!
Atualmente, ninguém está satisfeito com o que tem. O consumo daquela época era sustentável... mas havia contaminação no solo e no ar... O curtume largava cromo, mas quem sabia que isso era prejudicial na década de cinquenta? Ali foram curtidos os primeiros couros cor de cardeal, verde limão, roxo, amarelo... coisas inventadas pela minha mãe. Que nunca teve salário pelo trabalho social que desempenhou na empresa. Era ela quem mobilizada as pessoas para festas de São João, dia do trabalhador, Natal, Páscoa... As festas na Igreja, sempre com apoio de papai. Quanta salsinha era doada para as festas das freiras, dos padres, do grupo escolar municipal. Um amigo há poucos anos me disse: quanto mais damos, mais ganhamos. Dê!
O mundo mudou. A informática, os planos econômicos, as mudanças sociais. Poucos descendentes de italianos souberam construir e continuar seus negócios acreditando nas filhas. Elas não deviam rir muito porque pareceriam loucas, não deveriam falar muito porque não seriam confiáveis. Daí, melhor escrever, pois o abecedário escorre pela mente... cascata, enxurrada...
As relações, todas, mudaram. Sociais, de trabalho, as familiares. Muita gente nasceu. Naqueles tempos, conseguia-se ajudar os pobres verdadeiramente. Hoje, carregamos a impotência e a culpa pela incapacidade de mudar o mundo. Acreditávamos que éramos capazes. As utopias. O amor livre e independente de convenções sociais e de heranças. Evoluimos em muitas coisas. Mas cansamos de ver a violência, não queremos mais ver, cansamos de esperar mudanças, ainda nos surpreendemos com quem elegemos pelas mentiras que nos passam antes das eleições, somos sobrecarregados de informações, excesso de comunicação. Falta o vazio, o espaço de sentir, o espaço de viver o hoje que escorre entre nossos dedos, mas marca inevitavelmente nosso rosto com rugas que não são mais de expressão. Perdemos muito em humanidade. O medo de chegar perto do outro. O medo de perder a vida, o medo de perder os documentos, a falta de privacidade. Já não molhamos os olhos com a desgraça dos outros, desligamos a televisão, porque não temos mais espaço dentro de nós para acollher tanta dor que jogam em nosso colo. Por isto tudo, o valor da vida, que é única, inquestionavelmente, solitária? Pertencendo a cada um de nós. Somos sós e somos o outro, somos nós e somos o todo. Somos singularidade e somos apenas um número na multidão. Somos. Estamos vivos, por isso posso registrar em um blog o que penso seja a minha verdade. Mas pode não ser. Posso estar contaminada com o entorno. Somos o que vivemos e o entorno nem sempre é sadio. A sociedade adoeceu, mas de dentro dela, nascerá o novo. Que saudade dos meus tempos de dialética! 

02/03/2011

MINHA TERRA NAS ENTRANHAS

Desenrodilhados?
não andamos mais
nas mesmas águas

Fios sobrepõem opostos
complexo desmodulado
tecido de afeto ao destecer dores

Não sou mais capaz de viver
movimento que desconstrói
tempo sem metas
porta que não abre-se em frestas
leveza que não acende o caminho
corpos que não incendeiam
e nem se aninham

Luzeiro, facho, candela
estrela sem lúmen
não vivo sem

Um laço de esperança
em linhas a sair do enquadre
na base que me sustenta
a palavra e o papel



Buenos Aires, 16/11/2007
Congresso Sul-Americano de Arteterapia

09/01/2011

RICOLETA A PQP

Há mais certeza no trilhar novos caminhos
no ouvir que exorta o singular do ser?
Lamber carinhos em aromas mergulhados
transforma rejeição no ato de empreender.

A nitroglicerina em fios de telefone,
polaridades em resmungos sem tesão
encanto que acabou, clichê desalinhado,
desnudam um amor, a sentinela em vão.

Você articulava em pronta sedução
no abrir e fechar portas, múltipla explosão!
O estar distante fácil não compôs carinhos
mas mortos escondidos em certeiro chão.

Insanas em você as palavras profanadas
e doces as agruras que sem tino emanou
ao fraturar cristais de vida consagrados
entrecortadas sílabas, um mote vomitou.

Ao esconder meu pranto é num vão
o que vai-se em profusão. Então você
inquieto ser - contínuo e interno pendular
encerra o jogo num tablado e tem razão.

Homem distante num moinho andante,
de pavio  feito pra queimar os dedos
em notas tais que mais parecem ser torpedos
em frágeis passos de andarilho, medo amante.

Você a rejuntar e ao dar acabamento
a um tipo cadafalso, frigorífico de trincas.
Desbravador de amor rompido no alongar do voo
compactou no ventre um ser que não habita.

Você foi rendilhado em colorida fita
descortinado ser que perdeu tanto poder

com dor e raiva, falo falha fula pílula
no colo de quem acolheu as sobras no sorver.

Incapaz de amar e de cumprir natais
ao refazer a vida um descuidar demais
de quem despiu-se escancarando o próprio couro
jogando fora, desvaloriza o que era ouro.

Impaciências em você talvez reverterão
em sabedorias, se não forem munição;
se autoestima não partir de grande esforço
ao preparar o próprio pão, virá desgosto.

Você, um corpo machucado no viver,
compõe entalhes e relevos no criar
é gota a gota a respingar na vertical
na escadaria sem degrau nem patamar.

Você foi louca compreensão ao ser amado.
Um laço ao decompor ardor em raro ninho
rasgou o afeto e ao rastejar não tem sapatos
e ao sangrar será bordô, coalhado, impuro vinho.

Há féretro que aporta de um navio advento?
Guerra sem armas fermentou o tudo? é nada.
No cais ao desfraldar a caravela ao vento
cumpriu um ciclo a mais de abandonado alento.

Bandeira brasileira em corpo embalsamado
tem cores do Rio Grande em meio a lambrequins
envoltos nesse pano, cupins de antepassados
enterraram a dor de um doce amor em mim.

- Ah, metida abelha em noturnos vendavais
tentando remover coturnos e metais!
Bendiga o rumo ao recompor-se em tempos tais
desapareça – é águia – pra que dizer dos ais?

Marilice Costi - 2010

19/12/2010

Pé no chão e pá de cal

Conseguiria falar nele sem doer-lhe as entranhas, olhar para o que sentira por aquele homem sedutor e abandonador e dizer a si mesma, pá de cal? Ela lembrou o livro dos homens que não sabem amar. Tanto dele ali, capítulos e capítulos. O tudo e o nada. O sim e o não. O sair de perto quando o momento era de contrato. O enfiar a cara no uísque para esquecer a dor. O estar eufórico e viver a vida como se não tivesse amanhã. O não compromissar-se.
O lago em frente, plácido, a tarde quente, o lanche que sobrou que levaria para jantar com a nova mulher. A paisagem era como a necessidade deles, que a vida tranquilizasse o coração. Ele falou, falou e falou. Tantas intimidades. Sentimentos atuais, a preocupação com o futuro. Novidades vindas daquele senhor de meia idade, que parecia um guri ao sorrir.  Ela ouviu, ouviu e ouviu. Entre eles, o sentimento de sempre e inexplicável.
Quase no final da conversa, ele disse que para o homem era suficiente ter em quem escarrar. Mas que o sexo para a mulher era diferente. Ela quis ponderar, mas ele insistiu. Ela pensou, não vale a pena perder tempo com isso.
Na despedida, o abraço foi caloroso, mas descolaram-se rapidamente (seria o  medo de tocar interiores?). Foi breve o afastamento e logo um outro abraço, como que a conter aqueles corpos num só. Coisa de segundos. E de novo, o inexplicável.
Nela, a lembrança do perfume que ele tinha entre as pernas e o prazer de esfregar-se como uma gata ao cheirar seus genitais. Adocicadamente seco. O Capim Cheiroso que ele lhe dera há décadas, ali. E nele? Jamais saberia. Passariam quantas décadas para talvez saber?
Nesse dia, ela acreditou no que ele dissera, mais do que em todo o tempo de parceria que haviam tido há muitos meses.  O tudo e o nada num ínfimo contato. O antes se esvaindo nos corpos lado a lado sem ponto de fuga na linha do horizonte. Então ela leu nas entrelinhas.
Ele encontrara a sua mulher ideal. Agora tinha onde escarrar.

Marilice Costi - miniconto - 18 dez 2010.

12/12/2010

DAS ENCRENCAS 2

Horrivel de ler aquela resposta no meio do texto do e-mail que enviei... A escrita curta. A falta de tempo. Quando enxugo minha escrita, nem sempre as pessoas entendem. Quando me alongo, reclamam. Síntese é
o masculino. Então, mais homens deveriam ser  poetas? A lógica. A filosofia...isto logo aquilo... Seria bom se a vida realmente fosse assim racional. Quando afirmo que talvez devesse ser mais masculina, é disto que falo: da comunicação direta, sem metáforas, sem surpresas. Apenas a frase: não quero mais você. Sem explicações ou delongas. Limpa como "acabou".

A vida é isto? Fulano ama siclano, que ama fulana, que ama beltrano, que gosta de siclano. Todos sozinhos e sem problemas de relacionamento. Vale? A vida tem sentido quando se tem paixão, pode ser por um poste, mas se tem. E quando se pode sentir saudade "de matar" e matá-la.

Ser feliz, é simples. Coisas pequenas e delicadas, momentos intensos, de tempo pouco. Segurança de afeto. Colo. Ganhar é bom. Estimula o dar. Qualquer coisa: um beijo, um olhar, um abraço, uma flor, um pps, um orgasmo. A ordem importa? Sempre primeiro e último, o abraço.

Memórias... Coisas valiosas que dão energia para os momentos de dor. Não é a dor que nos torna fortes, é o sair dela e olhar o que passou. Sentir que sobreviveu a hecatombes. É autoperceber-se forte também ao olhar do outro. Mesmo que não nos sintamos assim.

Amor é coisa grande e perder dói.
Matamos pedaços de nossa vida pensando em um amor que não vingou? Não se morre disso.

Privilégios: lucidez, alimento, casa, afetividade, amigos, criatividade. Tudo vale a pena se a alma não é pequena. - clichê. Tudo vale? Como é bom sentir a alma gorda! De poesia que é a alma da sociedade. Bendita seja ela! A alma. Que seja obesa de alegria! O corpo... o corpo... o corpo... a alma... a alma... a alma... o corpo! Interdependências...
E deixa pra lá! O corpo? Nosso veículo de transporte.
Em e-mails sem voz, sem corpo, sem consistência, se nos entremeios não há entrega, a comunicação é de alto risco. Porque projetar no texto do outro aquilo que sentimos é comum. Muito comum.
Quem não se dá conta, se trumbica.

08/12/2010

Nietzsche, Barthes e Adelia Prado

"Dizia ele [Nietzsche]: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar'. Sherazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava com uma boa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: 'Eu te amo, eu te amo...'


Barthes advertia: 'Passada a primeira confissão, eu te amo não quer dizer mais nada'. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: 'Erótica é a alma.'

(desconheço o autor)

06/12/2010

DEPOIS DAS CINZAS

Quando eu morrer, quero uma varredura nas minhas fotos. Queimar todas as que eu estiver séria. Sou da alegria... A dor fica sob do travesseiro ou no entremeio do dicionário.

21/11/2010

CORA CORALINA

Poeta é ser ambicioso, insatisfeito, procurando no jogo das palavras, no imprevisto do texto, atingir a perfeição inalcansável.

O poeta e a poesia (Vintém de cobre)

16/11/2010

DOS CUIDADORES 1

Todo mundo achava que a avó não ia viver muito depois daquela internação. A família acreditou que não passaria o próximo inverno. O que entristeceu a todos. Foi quando os filhos decidiram dividir tudo que havia no apartamento dela. A partilha já estaria feita.
Mas ela, firme e forte e com desejo de viver, continuou no território do filho, não tão jovem a ter que administrar os cuidadores, talvez tivesse coisas a resgatar ao conviver com a mãe.
Uma das netas lhe deu mais um bisneto, passava da dúzia e ela ali frágil mas muito feliz com a prole.
O cuidar "uns dos outros" era comum naquele grupo. Uns com os outros?  Não.
Ser cuidador era muito cansativo.

29/10/2010

QUE DEMOCRACIA QUEREMOS?

Dos textos que li, este toca entranhas. Traz nossa base histórica - onde a memória falha - faz pensar o micro e macro ao entremeiar as nossas miudezas, os nossos amores, os nossos medos e a nossa necessidade de criar e de viver como individuo no coletivo. Brilhante Ana Lucia Vilela! Sua escrita dá norte para pensarmos que democracia queremos e por que temos tanto medo dela. Importa é a coragem de arriscar para tentar ser feliz. (clique no título desta postagem e acesse o texto de Ana).

16/10/2010

No Museu da Língua Portguesa

IX Congresso Brasileiro de Arteterapia - São Paulo - out 2010

Só se pode viver parte do outro
e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio
se a gente tem amor.
Qualquer amor é um pouquinho de saúde,
um descanso da loucura.
João Guimarães Rosa

São Paulo, e a necessidade de estar comigo mesma, foi um tempo de ficar  o maior tempo com muitas pessoas. Na rua, no congresso, no hotel, nos bares. Tudo o que eu não necessitava era estar com muitas pessoas, tamanha a necessidade de me tornar um ovo. Assim como quem não quer nada e aparecer no mundo só o depois,  sem história de antes. Tão bom os recomeços de qualquer coisa: a vida, o amor, o tornar-se mulher, o usar o primeiro soutien, o publicar o primeiro livro, o primeiro beijo, o primeiro orgasmo. 
Estar vivo é um grande milagre, o permanecer nesse universo com noção de finitude e cumprimento do "para que viemos".  Mesmo meio a dores corporais ou mentais.
A arte é o que permite enlouquecer e ter saúde.
A arteterapia é um lugar que deveria ser comum a todas as pessoas. A criação, assim como nascimento, é o que existe de mais precioso. Até a criação de um vínculo, a permanência da amizade, a validez de um beijo roubado, criado assim a esmo, roubado até como um gerâneo oferecido assim como quem oferece um futuro numa noite qualquer.
Viver é para quem tem dom de comprometimento consigo e com o outro.
É quando somos Mario de Barros, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, grandiosos pequenos pedaços de frases, palavras reescritas, vidas reconectadas, novos encontros.
A nossa língua na boca, na boca, na boca. A nossa língua no papel, no papel, no papel. A nossa língua no alimento, no alimento, no alimento.
Boca, papel, estranhamento. A alma na palavra, a palavra na alma. Os suportes e os amigos, o acolhimento.
No meio de muitos na capital paulista; no meio de muitos em mim, sou Porto Alegre. Dias quentes, outros frios, espaço de meu sustento e dos amigos onde me alimento, sou porto feliz.

A arte é para ser de todos. Para ti, pra mim, para conosco, pra convosco. Tal era a comunhão dos dias de domingo, deveria ser sagrada em qualquer dia. A arte. A terapia. O autoconhecer-se vivo e com sentido. Os sentidos. Sem ressentimentos, mesmo com tantos abandonos.
Viver é uma possibilidade de festa ali, ao lado dos outros. E mesmo assim sozinha. Ou sozinha repleta de tantos acompanhamentos. As almas.
Porque a alma na palavra é muito e a palavra de nossa boca no ouvido do outro é lenimento.

Marilice Costi - noite de sábado-saudade

03/09/2010

CONTAMINE-SE

melhor que sucumbir no desânimo
é bater pernas com ânimo

25/08/2010

A ARTETERAPIA e A OFICINA DE CRIATIVIDADE (HPSP)

Os primeiros registros artísticos foram encontrados no interior das cavernas. A caverna é útero, abrigo, gruta, catacumba, porão, esconderijo, casa, interior. Todos precisamos de cavernas, lugar privado onde se pode tirar as máscaras tão exigidas e necessárias para sobreviver. Fruto do imaginário, marcas da memória sensível, a arte é capaz de resgatar a memória, limpar nosso winchester cheio, esvaziar, remover o incômodo, muitas vezes, desnecessário.

Dar esta sensação foi intencional em um dos últimos ambientes criados no segundo andar da Usina do Gasômetro para comemorar os 50 anos da RBS? O excesso de imagens podia dar náusea, enxaqueca, mal estar. Cinco décadas de vida e história, foi bom relembrar e foi terapêutico resgatar raízes, mas absorver tanta informação requer tempo.

Diferente foi a exposição Tapete VOA-DOR, na Oficina de Criatividade do Núcleo Nise da Silveira do Hospital Psiquiátrico São Pedro, onde 120 tapetes criativos voam dores nos varais, num espaço onde o vento movimenta o sensível. Impossível não se emocionar com

09/08/2010

JOSÉ SARAMAGO - Sentirei saudades!

"No entanto, ao longo de toda a fala de Tertuliano Máximo Afonso, apercebera-se de uma espécie de roce incómodo na sua voz, uma desarmonia que lhe distorcia em certos momentos a elocução, assim como o característico vibrato de uma vasilha rachada quando se lhe bate os dedos, que acuda alguém a ajudar Maria da Paz, a informá-la que justamente com aquele som que as palavras nos saem da boca quando a verdade que parecemos estar a dizer é a mentira que escondemos."

"O caos é uma ordem por decifrar."
"Diz a sabedoria popular que nunca se pode ter tudo, e não lhe falta razão, o balanço das vidas humanas joga constantemente sobre o ganho e o perdido, o problema está na impossibilidade, igualmente humana, de nos pormos de acordo sobre os méritos relativos do que se deveria perder e do que se deveria ganhar, por isso o mundo está no estado em que o vemos."

"Maria da Paz também pensa, mas, sendo mulher, portanto mais próxima das coisas elementares e essenciais, recorda a angústia que trazia na alma quando entrou nesta casa, a sua certeza de que se iria daqui vencida e humilhada, e afinal acontecera que em nenhum momento lhe tinha passado pela fantasia, estar na cama com o homem a quem amava, o que mostra quanto tem ainda de aprender esta mulher se ignora que muitas dramáticas discussões dos casais é ali que acabam e se resolvem, não porque os exercícios do sexo sejam a panacéia de todos os males físicos e morais, embora não falte quem assim pense, mas porque, esgotadas as forças dos corpos, os espíritos aproveitam para levantar timidamente o dedo e pedir autorização para entrar, perguntam se lhes permite fazer ouvir as suas razões, e se eles, corpos, estão preparados para lhes dar atenção. É então que o homem diz à mulher, ou a mulher diz ao homem, Que loucos somos, que estúpidos temos sido, e um deles, misericordiosamente, cala a resposta justa que seria. Tu, talvez, eu só tenho estado à sua espera. Ainda que pareça impossível, é este silêncio cheio de palavras não ditas que salva o que se julgava perdido, como uma jangada que avança do nevoeiro a pedir os seus marinheiros, com os seus remos e a sua bússola, a sua vela e a sua arca do pão."

SARAMAGO, José. O homem duplicado. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

07/08/2010

DO PENSAR AMOR E FAMILIA

Concluiu Quintana: Tenho medo de querer-te, por não entender nada de amor. O amor é tão amplo, profundo e caprichoso que, às vezes, tenho medo de não saber amar.
------------------------
A vida familiar é a melhor célula, com seus altos e baixos, a célula social verdadeira. Mesmo, porque resulta do que o amor fecundou. Nada supera o amor, mesmo com as suas incógnitas e suas surpresas. A vida familiar não é um mar de rosas, mas nela ocorre o melhor dos sentimentos que do coração verte até hoje.

As estrelas dessa constelação que me rondam na noite que se espreguiça louca, torce para que o sol apareça logo para poderem dormir, já que o amor passou de ronda, enquanto o sol dormia...

Antonio Frederico Knoll
Santa Maria/RS

03/08/2010

O livro de contos TEMPOS FRÁGEIS está no páreo! Confira a partida!

Aqui você conhece uma análise do livro feita em um torneio entre dois livros... por uma juíza... Bola na trave, gol... muito interessante.

A capa, o que ela imagina é o que é mesmo: vidraça quebrada e sangue na calçada.

http://gauchaodeliteratura.wordpress.com/2010/07/29/jogo-15-%e2%80%93-entre-facas-x-tempos-frageis/

24/07/2010

PRÊMIO AÇORIANOS - poesia

Composto por dois poemas distribuídos em 60 páginas, RESSURGIMENTO foi escrito quando morreu a calopsita da autora. Doente, a ave se erguia, quando a via passar. Logo após, sem forças nas patas, tombava. A ave fora sua companhia muitos meses, ao lado do computador, enquanto desenvolvia sua dissertação de mestrado. Resistente à morte, foi preciso sacrificá-la. Foi quando Sombras foi escrito. Semanas depois, a vida renasce em Aurora. Ambos poemas foram criados num fluxo contínuo.
A autora disponibiliza a maior parte do primeiro capítulo do livro RESSURGIMENTO, clique sobre o título da postagem e abra. Depois, leia em voz alta.
____________________________________________

18/07/2010

RESSURGIMENTO - Prêmio Açorianos 2006

Em 2005, a Academia Literária Feminina do RS brindou com o livro de sua Coleção Sempre Viva, o volume 3. De acabamento primoroso e delicado,
traz RESSURGIMENTO da poetisa e escritora, arquiteta e arteterapeuta Marilice Costi, que também é responsável pela criação gráfica.

Tendo como analogia, a vida e morte de uma calopsita, RESSURGIMENTO demonstra a trajetória entre sentimentos opostos: Sombras, etapa do sofrimento e Aurora, quando a poeta nasce como a luz cada manhã. De profundo humanismo, dominando a técnica da forma, da melodia e do lugar incomum, a autora instiga rompendo paradigmas. Morre-se e renasce-se no decorrer do poema. Marilice toca “nas feridas” e diz “abre-te sésamo”, sobreviveu “entre minas” e tem consciência de que abriu caminhos, pois foi “parte de um tempo rompidor”. Ela retorna à alegria da infância onde os amigos foram feitos, onde a felicidade pode ser encontrada e sustentada até a última morte, inevitável.
“Sou hoje um outro livro”, demonstrando um processo de maturação, o que é encontrado na sua escrita repleta de metáforas inovadoras, de vocábulos incomuns, de ricas melodias.
A autora leva o leitor a identificar-se com o sentimento universal e poético, expresso em versos pulsantes, num movimento lírico-dramático. Num fluxo contínuo, imprime um ritmo agitado e sem pausa, como necessária isomorfia ao tema, recurso fenomenológico denominado noese por Husserl. A inclusão do feminino está na natureza partícipe de vida e morte, berço e túmulo, útero e colo.
Dedica o livro aos amigos, que considera a dimensão exata do seu alívio, citando outro poema seu do livro Clichês domésticos.
Solicite aqui: sanaarte@sanaarte.com.br . R$ 15,00.

15/06/2010

aprisionados laços

enlace e trespasse
lágrima-enchente
que apaga a chama
do refogado amor

lançadeira a travar mentes
de nova tecitura torre abaixo
linhas remendos sorridentes
em trança salvadora

é drama que é trama
do próprio entender
é enlace que solta
ou laço que enforca?

linha que faz nó
no alinhavo
se alinhar faz nós
*
Marilice Costi

11/06/2010

NÃO PERCA! Escrita terapêutica: lugar de encontrar - oficina de arteterapia


O PODER TERAPÊUTICO DA PALAVRA ESCRITA em relatos de experiência, vivências individuais e em grupo, exercícios e leituras para a compreensão da singularidade, autoconhecimento através de conto, poesia, crônica.
Local: Rua Santana, 666/504 - Porto Alegre / RS Fácil Acesso -
Investimento: 3 x R $ 250,00 - (R $ 700,00 à vista)
Início: 29 de maio - Sábado (12 Encontros de 3 horas / aula)
Informações
(51) 30287667 - 96542097 - mailto:-sanaarte@sanaarte.com.br

Oficinas de Escrita na Internet (MSN) adicione: mari_costi@hotmail.com
Marilice Costi CV ª Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/8937478893624381
aos sábados, pela manhã.

06/06/2010

DAS POSSIBILIDADES

Mexer em nossas histórias. Buscar forças para mudar? Temos lá alegrias que dão energia. Raízes que nos sustentam. Sonhos impossíveis, utopias que acreditamos.
Estimular novos neurônios e sacudir os que estão adormecidos fazem bem. A memória, a criação, a contação de uma história. No compartilhar com os outros, a possibilidade de mudar o ponto de vista. Reinventar.
Somos o que conseguimos lembrar? O que conseguimos reconstruir apesar de. Porque não são todas as nossas lembranças que são boas. As ruins, se as aproveitarmos, podem nos fazer crescer.
As mudanças, quando as queremos, podem se sustentar em nossas histórias de vida. Mas é preciso coragem para olhá-las, pois só assim poderemos lhes dar um novo lugar. Porque somos capazes de construir novos cenários.
*
Marilice Costi

20/05/2010

O TEMPO de viver E DE IR

A questão do tempo: como medimos, como vivemos e como ele passa num sopro. Parece que foi ontem: eu caminhava na minha rua, grávida – não sabia o sexo – e conversava como se ele fosse um menino, o meu caçula. Meu pai morreu sem conhecer esse neto. E parece que foi ontem que sentei no seu colo, porque ainda sinto o cheiro de sua pele, o calor do seu abraço, sou capaz de reconhecer a sua voz, ver o seu olhar de aprovação e de desconforto.
O tempo - entre aquele momento, em que me questionei sobre o que eu estaria fazendo quando aquele bebê fosse um homem, onde eu andaria, o que teria construído, como pensaria e o hoje - parece um fio longo, vez ou outra enosado, que se juntou a outros.  Uma voz que encontrou sentido. Um risco no papel: onde a palavra vida ali está inscrita sobre tantas outras. Tantas coisas feitas. Tantas escritas.
Aquele sopro, aquele momento continua em mim... como estarei daqui a outros 22 anos? O que será de minha geografia?

*Marilce Costi

09/05/2010

I.R.

você ficou de ir embora
e eu te comendo com os olhos
entre papéis de imposto de renda
e as minhas rendas

e me rendi na tua pele
em teu corpo língua corpo
em teu aperto peito aberto
ficaste, leão

* Do livro CLICHÊS DOMÉSTICOS, Marilice Costi, Ed.Movimento, 1993.

08/05/2010

PIANÍSSIMO

Vânia me esquenta as pernas. Trocamos temperaturas. Sofro neste sul invernoso. Ela adora um colo, não importa a estação. Prefiro que nos aninhemos quando há frio ou estou carente. Ela defende com garra o nosso território dos estranhos. Semana passada, uma amiga trouxe um cão-bebê. As atenções mudaram de foco e o que nunca demonstrou em anos de convivência ecoou em meus ouvidos: um fortíssimo som de dor.
Conhece os meus amigos e, quando eles chegam, seu tom é de boas-vindas. Sente que pode ganhar outros colos.
Quando percebe que vou sair, olha-me lânguida, entristece. No meu retorno, é queixosa. Reclama muito. E dissonante, encontra-se afônica de tanto chorar. A saudade. O abandono.
Quando volto de viagem, ela é a própria fêmea ao me receber, esfrega-se. Mal consigo levar a mala pelo corredor porque nos enroscamos uma na outra até meu quarto, onde passamos a brincar com alegria e delicadeza. Ela me cheira desde o pé, parecendo querer saber por quais caminhos andei. Onde mal suporto que me toquem, ela eu permito e gosto. Ela acolhe o meu cansaço em qualquer santo dia. Merece meu colo. Mas não podemos avançar. Dever-se-ia? Tão curta a vida. Suavemente nos deliciaríamos em carícias, lambidas, esfregaços, arrepios, pequenas mordidas, grandes mordidas, tudo sem machucar. Marcas de amor.
Quase gente. Ela deve ser assim por causa do nome.


Marilice Costi - 2009

30/04/2010

DAR ESPAÇO AO NOVO É ARTETERAPÊUTICO

Proporcionar encontros para romper barreiras, reconhecer sentimentos que fazem empacar, dar um espaço para o lúdico... Parece complicado? Mas é como rir e coçar... basta começar! Dar tempo para as relações humanas, enriquece e no compartilhar com os demais, novas portas se abrem. Há tantos caminhos a seguir que podemos ficar confusos. Uma coisa de cada vez.
A sala pode ter um novo nome? Que tal sala para o encontro e a criação? Dar lugar para a criatividade é iniciar um movimento, que também é cerebral.
A idéia pode ocorrer aos poucos. Encheu o próprio “winchester”? Está provado que uma noite do sono ajuda a organizar e o sonho pode trazer soluções.
Mas é preciso coragem para romper paradigmas. É preciso querer compreender os sentimentos que circulam em nós e nos outros, universais: mágoa, raiva, a inveja, medo, prazer, tesão, alegria, amor. E mesmo assim, percebermos a singularidade. Acredite nas diferenças, ali está o belo.
Os seres humanos são criativos em potencial. Deixar de lado a visão pessoal e o olhar de superiores, é fácil? Estamos repletos de imagens de pais, religiosos, professores, parentes: limitadores a impor idéias e comportamentos. Limites são importantes, mas não podem ser bloqueadores da criação.
Liberar sentimentos faz com que se penetre também no coletivo: o movimento não é só em mim. Deixar a idéia criativa fluir é permitir-se coser uma bela colcha de retalhos – a vida não é feita de pequenos fragmentos? Faça com isto, seu novo design.
Para criar, gastamos energias que dão bem-estar. São as endorfinas a fazerem seu papel. E até tiram a dor! Descarregar tensões alavanca o processo criativo, porque esvazia o que antes era ocupado por sentimentos desorganizados. Espaço vazio, potência renovada. Idéias, trocas, leituras e incubação... é caminho para fiat lux!
*
Imagem do Frigorífico Z.D.Costi & Cia. Ltda. - acesso ao escritório - 2000 - arte gráfica Marilice Costi

24/04/2010

DAS (in)SANAS VOZES

Todas as mulheres são lindas, disse um sedutor, especialmente as quais me apaixonei. Serão sempre lindas...
Também afirmou que palavras eram meras palavras, iam e vinham e eu não tinha que dar tanto valor. O esbravejar, o expulsar, o  desvalorizar. Iguais ao construir, ao desejar, ao compartilhar, ao dar/ter prazer?
Palavras? respondi, há que ter cuidado com elas, porque contêm também nitroglicerina.
E foi assim que aquele amor terminou: o amor de atilho, o gatilho na voz.
Se meu interior sabia... por que não me contou?

Em tempos de internet, tão simples dizer maravilhas, tão simples deletar afetos, tão simples envolver e abandonar... As distâncias, as conexões instáveis, os cabos de aço que são fios dentais. O esforço em experimentos sem considerações finais. O aberto, o volátil, a fumaça. O medo na incerteza do amar.
Palavras? meu interior, meu ar, meu trabalho, minha sobrevivência, meu alimento. O respeito à construção nos outros e em mim.

Não tenho tempo de vida para guerras.

As verdades, as profundidades. O afeto? O real. O corpo e a alma.
Explosões? só se forem de amor.

Marilice Costi
*
*

16/04/2010

DOS HOMENS "NÃO ENCRENCA"

Fui olhar o link da psicóloga que lista os tipos de homem que são 'encrenca': os sarados, os superiores, os narcisistas... Pensei se, em meus caminhos, algum dos enganos de amor me encaixasse ali.
Faltam na lista os homens que se bastam, que acham que são capazes de se bastarem. Não existe ninguém capaz de se bastar. O ser humano é coletivo per si. Dar colo e receber colo faz parte da riqueza da vida. Das humanidades.
Há outras encrencas que ela não cita... Os homens que só tem disponibilidade para namorar se não for no final de semana. Desconfie. Eles já estão ocupados com outra.
Os que não são capazes de compartilhar sua dor e de aceitar o cuidado de alguém... (a solidão nem sempre é boa companheira)  e que preferem a mesa de um bar a se mostrarem frágeis para uma mulher. Talvez nem saibam se cuidar. Talvez não saibam cuidar de alguém. O bastar-se pode ter a ver com o sentir-se diminuido diante de fracassos. Mas não deveria dar a sensação de menos-valia. Isto é coisa da sociedade doente que vivemos. Que o sucesso e o poder valem mais que os vínculos de afeto. E nem todos os fracasssos são por falta de empenho pessoal.
Homens que trocam sua mulher pela sua mãe? A falta de partilha, a falta de diálogo. A falta de cumplicidade? Ninguém deve competir com a mãe dele. Ela é surreal, está num patamar inalcansável. Por isso, observar como ele se relaciona com ela é fundamental. Ele tem que ter perdoado as falhas que ela cometeu, tem que entendê-la como um ser humano, tem que saber dar limites quando ela invade sua vida, tem que ter uma relação de respeito e de aprendizagem no convívio com ela, ser ponte entre sua mulher e ela, nunca um precipício. Não se importar com coisas miúdas. Ter confiança. Amor de mãe é eterno porque filhos são para sempre. A isso se pode chamar maturidade.
E há outros mais: os que gritam coisas parecendo que atrás de nós, mulheres, há um gigante. E só temos a sombra. Talvez não queiram a nossa sombra. Talvez eles briguem com a nossa sombra. Ou não queiram ver a sua.
Homens que não são encrenca? Pois é, estou indo contra uma matéria que recém saiu na O CUIDADOR. Raízes do cuidado.
Cuidado com o movimento de mostrar sempre os defeitos. Por que não se escreve sobre o valor deles? O dos homens "não encrenca"?
Mea culpa. Prometo escrever sobre isso.

Marilice Costi
Agradeço o artista plástico Dilamar Santos pelo link. Valeu!

14/04/2010

ARTETERAPIA - cuidando com arte

TVCOM - Tânia Carvalho entrevista Marilice Costi
acesse no YOUTUBE

Solicite informações: eventos@sanaarte.com.br - 51 30287667

12/04/2010

Oficina para profissionais: O PODER TERAPÊUTICO DA PALAVRA

Objetivo: desenvolver potenciais e compreender o poder da palavra no processo terapêutico. Relatos de experiência. A literatura disparadora. Experiências pessoais na escrita e na construção da literatura.

Publico alvo: arteterapeutas, arteeducadores, pedagogos, psicopedagogos, psicólogos.

Início: maio - doze encontros. Dia e hora a confirmar.

Reservas mediante inscrição e matrícula: 51 30287667

13/03/2010

GÊNIO INDOMÁVEL

"Não sabes de perda, porque ela só ocorre quando se ama algo mais que a si próprio."

"Ela peidava dormindo e às vezes ela se acordava. Coisas maravilhosas e boas como esta: é disso que sinto mais falta. As pequenas idiossincrasias que só eu conhecia. Era o que a fazia minha mulher. Ela conhecia todos os meus pecadilhos. Chamam isto de imperfeição. Mas não. São as coisas boas."

"Nós escolhemos quem deixamos entrar nas nossas vidas."

"A questão é se vocês são perfeitos um para o outro. Este é o segredo. Isto é intimidade. Você pode saber muita coisa mas só vai descobrir tentando.”


do filme: Gênio Indomável - Good Will Hunting

Um desejo? Um cofre? Uma chave?

Para cativar é preciso surpreender com coisas que são aparentemente banais: uma flor roubada, um bilhete inesperado, um abraço caloroso, qualquer gesto de partilha. O quebrar rotinas. Dançar sem pressa por instantes num momento e num lugar qualquer. O tocar cúmplice na perna por debaixo da mesa. O olhar? De ternura. O de desejo? O sinal de tempo de preparo.
O corpo de ambos? Sacrário conectado com o próprio interior. As rugas? Marcas de história. Alisar almas. Tanto que o mundo exige de juventude e beleza!

As alegrias mesmo pequenas compartilhar para vibrar em uníssono.

A proteção. O observar e cuidar do outro. Dar confiança. Dificuldades? Os desafios! O aprendizado comum. A segurança que só o amor legítimo é capaz.

Um homem não tem que ser fortaleza o tempo inteiro. Nem a mulher. Viver humanidades para ser útil um ao outro.

A sensação de pertença? Não o exagero, porque viver o tempo todo dentro do outro é adoecedor. Mas o respeito à necessidade singular de território. O espaço afetivo e o físico. Não é simples, mas possível.

Os amigos? A partilha. A vida em comunidade. O apoio quando a solidão ocorrer.

Caráter e ética? Justiça nos julgamentos. A verdade no perdão.
Não magoar propositadamente, cobranças são dolorosas. Falar, explicar, exercitar a paciência, acolher. A complacência com os demais.

O toque? A mão na testa febril. O copo de água na hora da sede. O pão. As mãos dadas ao caminhar pelas calçadas. A mão na coxa. A mão na bunda. A mão na vida.

O olhar futuros? O seguir na mesma direção. Nos momentos de desespero? A escuta, o apoio e a fé para recomeçar.

Para amar, é preciso conhecer valores e defeitos, primeiro em si depois no outro. E estar inteiro dentro da própria casinha, primeiro.

E brincar. Muito. Rir das trapalhadas cotidianas, dos tropeços, das falas insanas.

Os limites respeitados. A franqueza. O diálogo. A voz. A empatia. A alteridade. A comunhão. O colo. Masculino também.

Muita coisa? Para ter a chave de alguém, é preciso sair também de si.

04/02/2010

SERES-PRESENÇA

acolhem


rotos tocos feridos

apontam

brotos, sinais, partidas

adubam ao pé do ouvido

com olhar, voz ou escrita

equilibram interiores

e dão colo



amigos repartem pão de vida

15/01/2010

DO POETAR

Ao se fazer poesia
filtra-se o ar, move-se o amar
onde o circular humano
move-se como o mar

Ao se fazer poesia
alimenta-se a vida
onde os amores insanos
não devem guardar lugar

Ao se fazer poesia
ergue-se sobre as ruínas
a agonia e a calma
dando alma ao falar

Ao se fazer poesia
pode-se rir ou chorar
há direito a rebolar
ao descobrir novo olhar

28/11/2009

Seeeentiiiido!

O aposto, após sujeitos postos
na boca, no ouvido.

O rir sem poder rir.
Nem ir. Nem vir.

Vida em travessuras cotidianas
noturno aproximar sentir

esfregas em coxas insanas
ritmo e parceria, sutis, conter


Volátil volver na noite
tal vinho sem stop aroma.


Contas em alta? a champagne
em lábios enganos do viver

o tempo. Picollo.
Sempre.

Copos a mais ou a menos
água com bolinhas
vazios a preencher

Quartos ao lado, sonos

distantes sonhos devir
porta fechada. Aberta?
desejos sem travessia


As letras. Na arte unem saber.

Caminhada em corpo distante
próxima-mente, se as mentes
transpassadas, trespassadas
almas seguissem em frente.

Cidade alegre do sol
grama e céu, prateado
Guaíba doido que dorme
cúmplice. O nadar ao nada.

O sorriso, a partilha, a mala
cruzados olhares e acesas
as velas na sala em oração
o desejo poderia?


Castanhos no verde - verdes no castanho
Uma valsa de Strauss? Ou rock.

On the rocks.

Escondido prazer solitário. Prokofiev.

Vivaldi? adormeceu no conto de fadas.

O beijo na boca, na boca, na boca?


Sem poder, a mordida no pescoço
foi o gerânio roubado
de trinta anos de perfume
de abraços suspensos em beirados

tal e qual lambrequins
menos falsos, menos falsos
aqueles eram originais?

Sob carvalhos lilases tapetes
há tempo devir
?
Sentidos afetos de muito
olhar a mesa posta

o comer-se pelo ar
há sabor?

Erros... O muito envelopado.
Aquela cena. Pena. Desatenta
ela, territórios a conter e a esvaziar
complexa mulher que se quer comum
e ainda ter que ser de Atenas!

Morada prenhe de antenas
e cuidados. A falta de.
O abandono.

Ele envidraçado.
Ela. Na corda bamba.

No proibido sentir,
o ser de si. Em si e por si.
Singular

apenas um.*

13/10/2009


TEMPOS FRÁGEIS

Marilice Costi mostra a nova etapa de uma escritora que vinha se dedicando à poesia e ao ensaio. A autora reinventa a realidade e vai além das aparências. Expõe, às vezes com real crueza, a inquieta vocação da literatura, que não é a apresentação de soluções, mas um inventário de questionamentos. Várias de suas histórias apresentam personagens em situações-limite.
Há quem acredite numa literatura feminina. Talvez, independente de autor ou da autora, o que há é uma sensibilidade aguda; esta sim pode ter um olhar, um viés, uma percepção peculiar que parece também caracterizar a poesia, as crônicas e, aqui, os seus contos.
Suas histórias revelam-se convincentes, contundentes e permanecem além da leitura. E possuem uma força de verossimilhança que só escritores ligados umbilicalmente à nossa aventura cotidiana parecem atingir. (Fernando Neubarth)

O Prefácio é de Deonisio da Silva e, nas abas, o parecer de Jane Tutikian.

MARILICE COSTI é passofundense. Vive em Porto Alegre desde a década de 70. Arquiteta e urbanista, é Mestre em Arquitetura, Especialista em Arteterapia, escritora e poetisa. Ministra oficinas de escrita desde 1996. Editora e capista de O cuidador (a revista dos cuidadores) e também do livro de contos. Recebeu o Prêmio Açorianos 2006 com Ressurgimento. É autora de: A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares(2001) e Como controlar os lobos?(2002). Mulher, ponto inicial, Clichês domésticos com o selo da Movimento. www.sanaarte.com.br

21/09/2009

SÍSIFO

(você encontra este mito na revista O CUIDADOR 7)

montanha que se avoluma
a minha revelia
meu fardo

carrego sementes
sem plantá-las

carrego música
mas todos estão surdos

carrego cores
e não há papel

carrego crias
que não vivem sem mel
sem um conto de reis
sem contos
e um monte de papéis

sou rastros de longa estrada
de gastos coturnos
e permanentes pesadelos noturnos

é cobra e borboleta
é corte e costura
é fogo e terra

outro Everest me chama!
quando serás colina?

carrego pedra e húmus
um mágico torto
o sacro perdido
e noites em claro
de perpétuo labor
entre detritos

o sino não toca
os galos não cantam
e a luz vomita

meu codinome
é retransformado mito
no dia-a-dia
corroídas entranhas
e olhos arregalados

Sísifo nunca dorme
e gasta sapatos
como eu

28/07/2009

PASSA TEMPO

compasso de espera

compasso de espera

compasso de espera

com qual passo?

passará?

*

04/06/2009

de Nise da Silveira


É melhor ser um lobo magro mas solto,
que um cachorro gordo na coleira.

30/05/2009

É VERO!

Um de meus filhos está sempre saudoso. Amoroso e ingenuo. Tem pernas longas mas seu andar é menino. Esse filho sempre tem saudade mesmo estando bem perto. Deve ser porque ele tem um amor enorme que, não cabendo dentro dele, preenche-o tanto que gera desconforto. Assim como um balão muito cheio prestes a estourar.
Palavras podem ser faróis quando iluminam caminhos de compreender a quem amamos. Por isto a importância daquele emêil do centro do Estado do RS, com a frase: Saudade é um amor que fica!

30/05/2009 - Marilice Costi

04/05/2009

REGISTRE A PRÓPRIA ALELUIA

Marilice Costi

O prazer nas palavras? Significados. Reconhecer-se ao redesenhar o próprio interior?

A palavra deveria brotar sempre em castelos de areia e de pedra. Um cavar até encontrar fluidez.

Novelos a querer movimento, fios de linha a enovelarem-se e a desatarem nós.

Com o tempo, agarrar o abecedário pelos fios e olhar-se no espelho. Senza paura.

A escrita vira produto? Outra história. Um trabalhão?

Quase sempre as luzes acendem.

*

29/03/2009

OFICINAS: TRANSGREDIR A ALMA

A oficina de escrita é um ambiente de troca de informações num movimento cognitivo e afetivo. O reconhecer-se, o aprender a técnica: forma, enxugamento, clareza, fluidez, concisão. É onde se descobre a própria singularidade.
Se para a comunicação são necessários emissores e receptores, em oficinas é preciso afeto. Não apenas entre as pessoas mas, especialmente, com a língua-mãe: a que nos dá o sentimento de pertencer a uma família, a um grupo social e a um país.
Despejar em uma folha de papel em branco é um ato de coragem. O início. Palavras sem nexo, complexas e sem clareza são comuns. O que o nosso cérebro permite registrar.
Sem medo, abrem-se portas para a criação.
Esse fato é maravilhoso e é preciso lhe dar o devido valor.
A pulsação, impulso criativo desorganizado, aos poucos, gera ordem mental.
Depois é a costura. Desligar-se da escrita no papel, aquele amado objeto, para mexer, riscar, tirar, colocar, subverter, enriquecer, modificar, melhorar, esclarecer. A limpeza textual apaziguará as emoções desordenadas. É quando mestre e aluno comungam na mesma direção. A escolha do aprendiz e o direito à expressão.

Para o ofício do escrever, é preciso amorosidade, especialmente com as palavras. Entupidoras de nossas mentes, dispostas sem ordem nem dicionário... e remexer no abecedário em busca do não-clichê.
Se ao balbuciarmos as primeiras palavras, estabelecemos o vínculo primevo e mais profundo, como podemos tratar a linguagem de forma dura e técnica, desconsiderando que, naquele movimento labial, houve o registro e início da nossa expressividade? O tesouro, a mente?Uma arca repleta de jóias.

A palavra precisa de colo e de elos. A técnica não pode machucar. Aprender percebendo motivos nas escolhas. Exigir técnica sem delicadeza, pode ocasionar sérios bloqueios nas pessoas. Por isto, ir devagar, descansando a mente ao deixar o texto dormir. Reler tempos depois. E não se exigir demais.

São muitas as pesquisas que vêm provando que o cérebro é reativado a cada estímulo criativo. Escrever, pintar, desenhar, esculpir, costurar, cozinhar, enfeitar um prato, mudar as coisas de lugar, experimentar. Enquanto capazes de se surpreender com vida, teremos saúde.

Regras engessam o processo. Dessa forma, não se voa para o fazer, mas para um “não fazer”. A palavra “não” traz um ranço preconceituoso, podador e autoritário. E isto também tem a ver com a poda que é feita durante a vida: a sociedade a moldar indivíduos.

A coragem de criar é o que possibilita a transgressão. E transgredir é fazer o novo sendo responsável por ele. Não é apenas um ato de revolta. Mas o sair do lugar comum é o que faz a diferença: cavar a liberdade, pois somos frutos de um tempo onde o sensível precisa rasgar espaço para sobreviver.
E cobrar disciplina? Impossível ser escritor sem o prazer de escrever. Quem escreve adquire a própria disciplina porque ama o que faz. Do contrário, é provação.


Morreria se não pudesse escrever? perguntou Rainier Maria Rilke. Se a resposta é afirmativa, és um escritor...Aquele que se enrosca em seu texto como um gato em um novelo. Sobra um "rolo" que lava a alma, palavras escovadas jorram confissão. Escrever penetrando na alma universal e singular, viver as polaridades e as sintetizar. Cúmplice ou narrador onisciente, a técnica se incorpora na tecitura do próprio escrever.
Daí, o voo passa a ser cúmplice dos amigos, dos revisores, dos editores.
Voo de asa delta.

A arte é o pôr-se-em-obra da verdade.

Martin Heidegger

MUTATIS MUTANTIS

Minha escrita é mutável. Processo criativo raramente pronto.
No decorrer dos dias, poderei lavar os textos ou mudarei o curso do rio,
encontrarei porto para a semântica,
versos alinhavarão tempos de ser tudo ou nada.
Bendita informática a permitir reconstruções.
Por isto, o publicado aqui poderá "alegrar" frequentes mutações.
Escrever, reescrever, avaliar, refazer, apagar, modificar, clarear, remover.
Até chegar ao ponto de bala.
O último será melhor, mesmo sentido um primeiro,
mais maduro ser.


Marilice Costi - POA, 15/09/2008

E VALE A PENA?

APENAS UM poema de acasos/de casos/de ocasos/de ocos/de socos/de cacas/de cocos/de sacos/de sacas/de sacar as cacas/as escaras/raras panquecas recheadas de muquecas/cuecas e munhecas/de petecas/de sonecas/de bonecas/de nenecas/de araras/de taras/de caras/de ecas. Hecatombes.
Um apenas. Poema de ocaso oco e raso.
Um caso de dor.

FÊMEA SUL-AMERICANA

transgressora menina
que não cala e embala
latino-americana
de mesma memória
de las Madres de Mayo
de filhos, de talhos
revolucionários

vive para o novo
em si, dentro e fora
hospeda na alma
aguerridas mulheres
homens de muitas pátrias

na marca dos dedos
perseguidas Anitas
todas digitais
fortes, carnais
compadecidas

mi sombrero es mi padre
desafiadora boina
o lenço é sangue
empreendedora

um porvir de colos a dar
onde os meninos?

no fundo do poço
vertentes
na teia do criar
sementes

Gaia, barro, argila
corpos a renascer
teto, caverna,matas,
pó de estrada

móvel morada de quimeras
de los defensores de la tierra
de los hombres de nueva mirada
de los espiritos del cielo y del mar,
del mar, de las viñas del amar

20/02/2009

CONSTRUÇÕES CRIATIVAS 1 - das palavras

Há palavras que não precisam ser ditas. Estão implícitas na voz, no gestual, na escrita. Outras, não devem ser ditas de tão gastas e sem sentido. A palavra amor parece que não deve ser pronunciada. Ela é exigente, precisa de tempo para ser construída entre dois seres, precisa de espaço de expansão de sentimentos dos mais variados tipos. Amar implica em permitir-se sentimentos ambíguos. E exige dedicação. Diferente da paixão avassaladora e com um fim determinado. A paixão não traz em si o ato de cuidar, mas o ato de conter, de prender, de consumir.O tempo de hoje faz com que as palavras ditas descuidadamente se tornem sem sentido. A palavra pode ser: acertos e combinações que ocorrerão, a expressão de um sentimento qualquer, os registros da vida, a literatura, os documentos, o trabalho, a bobagem, o lúdico, o importante no dizer sobre nossos afetos Se o hábito as deixou vazias, carecendo de sentido, há que encontrar seu rumo. Na distância, sobrevivem compondo colagem, tatuagem, aromas e memórias. Elas se perdem num sopro? As permanentes palavras são a linguagem que se torna impermanente se relacionada ao tempo de nosso viver. O hoje que deixou de ser, o desejo que ficou no ar, o futuro que só nos cabe sonhar e projetar utopias.Palavras podem adquirir um brilho próprio. Aquecem a alma, amalgamam carinhos quando sua temperatura de cor ressalta o tom exato do aconchego, o ponto certo do cuidado, o ouvido atento na acolhida.Tais palavras? Quem não as deseja ouvir?Valem mais, se inesperadas? Ato falho ou intencional, quando o sentimento perpassa sem querer querendo: pulmão, diafragma, garganta, cordas vocais e saltita reverberando na testa, entre os olhos, como se fosse apenas um simples acorde em ré menor, a voz. Pode ser um monossílabo da soprano no coral da Canção da Alegria de Beethoven ou da ópera Carmem, de Bizet. A musicalidade em sentimentos de amorosos instintos está no sentido de poder. de transpor limites e compor desejos.É quando os aromas, retidos nas histórias vividas, se apropriam do ser e fluídos ocupam seu lugar. É quando o corpo se umedece em natural preparo para o tocar e o ser tocado, no vir a ser de almas que se fundem, em novo devir. Muitas palavras não ditas tomam formas nas entranhas. A guiarem movimentos de viver. Bem viver. Alegria de viver. Saber das palavras que de tão benditas nem precisam ser ditas. Faz bem ouvi-las. Se o tom de voz contiver ternura, elas estarão todas ali, prontas para serem de ambos, pertença e prazer de conviver.

26/07/2008

SEGREDOS TECIDAS PELES

Marilice Costi

Camada de tinta, superfície das alvenarias, acabamentos pétreos, cerâmicos ou de madeira, detalhes nos rendilhados a emoldurar beirados. Tecido renda, grega, prenda.
O tecido urdido, tramado, trançado, tingido, lavado, alisado, amassado, dobrado, guardado, exposto, escondido, contém cheiros de peles gravados, comprometidos interiores alinhados em funções vitrine ou caverna.
Tecido pele, trama, drama, grama, pijama. Tecido cama e tecido dama, tecido clama prazer e extertor.
Impermeabilização? Tecido sem sentidos. Tecido cortado, rasgado, marcado a fogo, tatuado, costurado, colado em frágil painel. Tecido imagem, gobelein, roupagem, carruagem a conter corpos tecidos demais anormais.
O tecido cobre o que sustenta peso. Indefesa camada nobre, que encobre o imberbe amor que repele alma e que provoca dor. O tecido que muito protege é o mesmo que expõe ferida.
O tecido que amarra, que provoca tara, que escancara amor. O tecido menarca, que no gado fez marca, escrava.
O tecido recebe qualquer carga: a cor monarca, de papa, de cardeais. A cor da fome que tecido tem?
Tecer palavras em tecidos idos e vindos, tempos de registros em livros, cartas, manuscritos, virtuais escritos, passados gritos, tecidos cerebrais. Tecido esconderijo de suores, de clamores, de amálgamas, de umbigos, de enxovais, de pratas polidas, de cristais, de vinhos e de amores.
O tecido está em todos os ais. Está em mantilhas nos mortais. Tecido também mortalha. Cobre o santo e o canalha.
O tecido faz a forma e a deforma. Constrói e desconstrói. Faz vir e ver, faz ir e se perder. Faz renascer. Acompanha o crescer. Enfeita o renascer.
Tecidos necessários, proteção do vir-a-ser, também o são na morte, fim do tecer o próprio tecido tecida vida.

*