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1 de set de 2012

UM TEMPO DA PALAVRA


Nada é tão poderoso quanto uma palavra quando seu tempo chegou!
Victor Hugo

O poder da palavra, o significado que ela tem, as apropriações que dela fazemos, as projeções que ela suporta, as marcas que nos deixam, os registros que com ela fazemos, os sons guturais que a registraram, o primeiro balbucio que nos conectou à mãe, o grito de dor na hora do desespero, a saudade na hora do abandono, o desejo de encontrar quando impossível, o aviso de perigo, o apito de limite, o trem que chega, a nota musical que enleva - sempre a palavra a dizer: cuidado, amo, odeio, desejo, não posso, não quero saber, fui, acabou. Foi bom pra vc? Ah, palavras poderosas!
Um dia me disseram: palavras? apenas ventos sem sentido, fonemas distraídos que seguem a esmo. No entanto, palavras dão poder ou não se temeria a imprensa, a voz de comando: atire!
Delete. Tão simples o fim! Como se um afeto de sua vida fosse sumir tão simplesmente. Tão sem reconhecimento. Tão sem história. Deletar um amor de sua vida tem a ver com palavra grifada, carimbada e bordada na pele.
Afirma Jorge Alberto Salton que cuidar de alguém é colocá-lo em nossa biografia. É quando nos permitimos ser marcados a fogo! Nunca mais os mesmos.
Estar com a palavra no tempo certo é ter sentido. A palavra sou eu! A palavra é você dentro de mim! A palavra é nós, aqui, na tela do monitor, na folha de papel, na voz que fica em nossa memória, assim como a caligrafia nas cartas que hoje sumiram de nossas gavetas. Como guardar SMS, e-mails, textos que dependem da energia para existirem? E se a luz for desligada?
Ah, o tempo de matéria afetiva concreta, poemas num guardanapo de papel, bilhetes apaixonados, um tempo que se foi? Restos mortais de homens, palavras tem um tempo, vivem seu tempo. E o nosso? é volátil, curto e pretencioso, facilmente manipulável pelo outro. A palavra passou a ter domínio comum. Nada mais pertence a mim nem a você. Tudo é meu e tudo é nosso. Sem bordas, sem limites. A palavra encontrou um tempo democrático, a falta de território, o todo espaço até a profundidade do esgotamento? O cansaço mental toma conta de muitas pessoas.  Mãos e movimentos neuronais será alterados para melhor ou pior? O futuro dirá.
Palavra é afirmação de vida ou confirmação da morte. Só dependerá do tempo da palavra. Um momento da primeira golfada de ar, um segundo para a última. O vir-a-ser expectativas, o devir impossibilidades.
 
Já a idoneidade, permanente acompanhamento do caráter, é atemporal.
 
Enquanto isso, pilhas de livros enlouquecem meu olhar sempre ávido e além do que pode suportar, um olhar de quem acredita que estão ali - nos livros empilhados - os meus melhores e futuros pensamentos. Todos me aguardando, todos dizendo "coma-me!", todos convidando "saboreie". Todos aguardando o tempo de chegar! E ele existirá?
 
Palavras emendadas são novelos buscando alinho, mas pode ficar enosadas.
Palavras, na hora errada, são como garatujas, sem fluidez, são rompimento; na hora certa, enlaces. 
 
Marilice Costi
Editora-chefe
 01h29 - 01/09/2012 - Porto Alegre/RS

Memórias de Marilice: AS MÚSICAS QUE FIZERAM SUA CABEÇA

As músicas que fizeram sua cabeça deste sábado entrevista a arquiteta, arteterapeuta e editora da Revista O Cuidador, Marilice Costi. Premiada com o Açorianos de 2006 pela obra de poesia Ressurgimento, Marilice acaba de lançar um novo livro: Gatilho das Palavras, seu segundo trabalho de ficção.
Maria Maria de Milton Nascimento, My Way com Frank Sinatra e Parins em Colère com Mireille Mathieu, são algumas das composições que marcaram sua trajetória.

O programa é apresentado por Ivette Brandalise e produzido por Jaqueline Chala.
FM Cultura 107,7
Ouça online: http://www.fmcultura.com.br
sábado, 2/06, às 12h
Reprise na terça, 5/06, às 22h

CUIDAR E SER CUIDADA

TVE RS - Ivette Brandalise entrevista MARILICE COSTI 04/08/2012