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24 de mai de 2013

Memórias de Marilice: INSISTÊNCIA DÁ NISSO...

Todos têm uma história sobre por que "desisti de ler". Não tenho dinheiro, ler demais não faz bem, não tenho paciência, não tenho tempo, não enxergo bem e muitas falas mais. Tenho a minha.

Ao voltar da escola e almoçar, eu ia ao meu quarto e deitava na cama para ler. Meu pai se aborrecia por me ver com livros que ele não entendia (Dialética da libertação, o que é isso? filosofia? Sartre? Os deuses eram astronautas?). Eu tinha 14 anos. E ele dizia, não me preocupe, minha filha. Você lê demais, Mari. Não é bom ler tanto!
Preocupado com o meu futuro, muito mais ainda com o meu pensar, papai tentava me controlar.. Estávamos na ditadura. Mas não faltava dinheiro para livros, enciclopédias, dicionários, revistas (exceto as Cruzeiro e Manchete que, se apareciam, tinham as páginas das mulheres pouco vestidas arrancadas. O nosso imaginário totalmente controlados pela minha mãe, As revistas Castigo? Ele & Ela? Nem pensar!

Havia gente que dizia: Aquele? Enlouqueceu de tanto ler! - era a fala corrente ao vermos passar um homem delirante pela rua em Passo Fundo. Aquele homem delirava em sua esquizofrenia!
Era sempre a mesma conversa pela cidade.

Vais enfraquecer os olhos, Mari.  Muitos cuidados comigo. O controle.

E hoje, a Mari! É bom não ser dentro da casinha, apesar de muitos sobressaltos do caminho. Quem lê pensa. E a postura tem que ser cuidada... Gosto de andar sem lenço e sem documentos. Nas letras especialmente. Com os livros a me olharem, enquanto aguardam que eu penetre no mundo insondável das palavras, sou tão mais feliz!

Marilice Costi (24/05/2013)





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