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11 de ago de 2013

Homenagem ao meu pai

CASO PROIBIDO

Era um caso de amor profundo, uma questão de raízes, um tipo de sentimento infinito até. Trinta e três anos de paixão! Ele, a trezentos quilômetros de distância, seu esteio, exemplo, segurança. Ela, frágil, mas corajosa, débil e às vezes inconsequente pela vontade de viver e saltar barreiras que a idade impunha. Matilde o carregava em seu coração num desejo de posse avassalador. Ela amava o seu caminhar, o gesto dele pôr os braços para trás, o assopro quando perdia a paciência e ria-se dos impropérios que Lauro esbravejava em sua língua de origem. Ela desconhecia em parte os significados. Mas seus signos eram claros: queria tudo em ordem, a mesa servida no horário exato, a comida com tempero suave, o silêncio na hora da refeição, o cafezinho depois junto ao cigarro filado. No final do dia, somavam mais de um maço. O médico proibira, ele não comprava mais.
Quando Matilde estava passando um tempo com ele, ao escutar o apito da fábrica, ia buscá-lo. Cansado do trabalho, ele demonstrava alívio. Era um momento de êxtase para ela: o caminhar lento de quem lidara o dia inteiro, o modo de atirar o casaco sobre o ombro direito, as muitas chaves da fábrica no molho preso ao cinto, o ouvir o próprio ruído ecoando do soalho nos barrotes, o verificar portas e janelas, os conselhos dados ao vigilante na guarita e, antes de cruzar o portão de ferro, o “não se esqueça de alimentar e dar de beber aos cães”.

Eles continuavam pela calçada coberta de terra seca daqueles dias de verão que margeava a avenida de paralelepípedos que se perdia atrás da Brigada Militar. E viam o pôr-do-sol. Ele a olhava com cara marota de menino adolescente e sorrindo dava-lhe um sonoro beijo espichando os lábios para alcançar sua face. Chegavam em casa aos latidos do Duque. Havia o costume de limpar os pés na grama, antes de ultrapassar a soleira. O chimarrão os esperava após o banho, quando ele mostrava seu recato. Nunca se vestia na frente ela. Apenas quando ia ao sanitário, não fechava a porta. Ela ouvia o som de um jato e ficava imaginando como poderia acertar no escuro. O lugar nunca cheirava mal. Era muito cuidadoso, sempre lavava as mãos ao chegar. Depois da janta, ela aguardava o momento que seus olhos diziam: pode vir. Sentava no seu colo, então, lia o jornal em voz alta. Ele escutava e marcava as notícias para ela recortar depois. Era o que Matilde fazia enquanto durava a sesta. Lauro sempre descansava após as refeições, como descansa agora, naquela cadeira do papai, para sempre.
Conto publicado no livro: COSTI, Marilice. Tempos Frágeis. Porto Alegre: Movimento, 2009.

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