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13 de out de 2013

Memórias de Marilice: CHUCAS, MINHA POMBA

C hucas era a minha pomba! Minha mãe ficava furiosa quando ela bebia na minha boca.  "Vais pegar doença, Mari!"  Eu nem me importava com seus conselhos. Eu lhe dava minha saliva como água e pronto! Ela já sabia e buscava meus lábios quando estava perto de mim... Sabia pedir.
Minhas irmãs sabem bem desta história, pois estavam junto comigo na caminhonete que nos levava  para a praia de Atlântida. Eu a escondera em uma caixinha de papelão perto de meus pés. Meus pais só descobriram bem adiante de casa, quando ela acordou e começou a gritar. Estranhou e tinha fome. Era ainda um filhote, cheio de canudinhos pendurados na pele, aguardando o momento de romper e plumar.
Chucas ficou sendo nossa. E passeou no balneário e fez cocô aqui e acolá, no soalho, na sacada e na areia. Eu me divertia, pois eu ainda era um arremesso de moça e não possuía turma de amigos. Eu apenas colava e descolava dos primos da capital. Chucas cresceu naqueles dois meses de férias e retornou conosco sem saber dos seus.
As aulas no Colégio Notre Dame começaram. Saíamos muito cedo para poder chegar à escola às sete e meia. Ao voltar, eu corria para a área que dava para o quintal. Antes de ela ser reformada para se transformar em um estar com fogãozinho à lenha de uso no inverno, havia ali uma mesa onde eu fazia minhas lições. Eu largava a pasta, abria a basculante e gritava: Chucas! Seu nome era devido ao topete na cabeça. Ela vinha, debatia-se um pouco no vidro e eu a ajudava entrar. Ficava o tempo todo comigo e acomodava-se encolhendo as perninhas e chegava a cochilar.
Um dia, levei-a escondida para a escola e foi um estardalhaço. As aulas ficaram comprometidas com os seus voos.
Foi por causa dela que eu pude me aproximar das minhas mais de vinte pombas e circular entre elas, que comiam próximo a meus pés. Era o máximo que eu conseguia. Vir comigo, só a minha Chucas.
No jardim de nossa casa havia um laguinho curvo adivinhando o futuro de nossa arquitetura em Brasília. Ali eu cuidava de minhas rãs. O marceneiro da fábrica fazia casinhas com restos de madeira, com portinha e tudo para elas!  Meu pai reclamava: Não os tire do serviço, Mari! Havia também dois balanços, um cactus, rosas, cravos, onze horas e outra flor cujas pétalas laranjadas eram do formato de unhas. Brincávamos de ser mocinha, colocando-as sobre as unhas. Esmalte para menina-moça? Nem pensar, nem papai nem mamãe permitia. No máximo eu poderia ler Polyana moça,  um livro chato e arrastado que ensinava sobre a menstruação e gravidez. O que eu queria mesmo era ler ELE & ELA, Capricho, coisas de moça.
 
 
Havia no jardim o lugar para um pinheiro, que foi plantado por minha mãe quando eu já estava me casando (bem jovem) e que seria decepado como tudo naquele lugar depois que a casa fosse vendida. A cercaviva escondia os muros no interior e não do exterior como são hoje. Faziam limite entre a passagem de carros e a área onde as crianças corriam, sempre um cuidado para proteger de acidentes. Tinham muito medo que se machucassem. A bougainville, vulgar três-marias, cresceu e estava sempre florida perto do Natal, quando Alice a enfeitava com lâmpadas coloridas, marcando o acesso principal.

Havia a Dona Lídia, nossa vizinha, que fazia pão e sempre dava um bem grande para nossa família, alcançando-o por cima do muro. Recordo também do formato, da cor dourada, e da casca lisa e brilhante. Coberto por uma pequena toalha branca alvíssima, numa época que não se usava hipoclorito. Era de um capricho só! O aroma de pão italiano se espalhava pelo caminho dando água na boca.  O forno dela era de adobe, o que dava um sabor a mais. O tempo em que vizinhos trocavam delicadezas. Do outro lado do terreno, havia uma pensão e cães perdigueiros usados para caça. Ali eu não me arriscava ir.  Ali tinha também o cipreste de onde a minha mãe tirava varetas para dar em nossas pernas quando queria nos punir. O estranho é que lembro dela correndo atrás de nós, mas não da dor ou marcas nas pernas. Lembro mesmo é de chineladas que ganhei sem ter culpa nenhuma. Lembro da cor amarelada, eram do meu pai, de couro natural e que sempre estavam no banheiro esperando que ele chegasse do trabalho. Era eu que lhe alcançava, ajudava-o tirar as meias e levava os sapatos para a área. Papai sempre recomendava que eu lavasse as mãos logo a seguir.
 
Chucas era  um pombo e desejou namorar e eu? Continuei a caminho da adolescência. Ela não tinha medo dos animais como deveria, facilmente os gatos a rodeavam. Meu pai me alertava... mas eu não tinha o que fazer. E por ficar com as demais aves, em bando, eu não me preocupava tanto. Era agora ave adulta e andava atrás de um par. Foi tão lindo ver a sua dança da conquista... Eu já conhecia o movimento dos pombos, mas ver "minha Chucas" tinha um algo a mais. Era o pressentimento de que ela se despediria logo de mim. Ou que eu me despediria dela.

Nossos caminhos se bifurcaram mas teriam que mudar de rota.

Eu observava como um pombo perseguia a pomba, arrulhava forte e ela, a fêmea, dava voltas e voltas no meio das outras aves tentando escapar, voava e ele ia atrás, descia ao solo e ele vinha novamente e a cercava até que ela não tinha mais alternativa - acho que era quando eles se olhavam nos olhos! - então ele saltava sobre ela e pronto! Ela se abaixava e ele se acomodava abrindo as asas para se equilibrar. "Precoce". Era tão rápido que me dava a sensação de que o macho sempre machucava a fêmea com as suas garras e com o bico pinicando na cabeça dela.

Chucas e a sua pomba, acasalou! Era uma qualquer que não me pertencia e que não era tão bonita como ele. Eles então  fizeram ninho no pombal vizinho. Suas vindas passaram a rarear muito mais. Pombos fazem ninhos recolhendo gravetinhos e folhinhas pelo chão e depois, quando os ovinhos descascam, cuidam muito de seus filhotes.  E eu crescia e cada vez tinha mais coisas a fazer. Estudava piano, inglês, italiano e ainda tinha a escola. Suas vindas passaram a rarear tanto que passei até a esquecer-me dela e não mais a chamava na vinda da escola. Eu passava a me interessar por bichos bem mais complicados que ela. E a viver uma repressão horrível de minha mãe.
E o tempo passou mais um tanto.
Meus pais nunca sabiam como me contar a morte, pois a perda de qualquer bicho minúsculo ou peludo me desesperava. Eu era capaz de passar o dia inteiro chorando sem parar. Então, eles pensavam muito como me dizer essas coisas de final da vida. Numa tardinha, papai - que me ajudava a cuidar dela e a alimentá-la com grãos de trigo - chegou cabisbaixo. Cheio de dedos, suspirando, ele perguntou se eu tinha visto "a Chucas". Segurando com uma das mãos o casaco atirado atrás do ombro direito, como fazia sempre ao voltar do trabalho, soltou-o sobre a cadeira e disse: "Os gatos devem tê-la comido. Achei apenas as penas." Sabe-se lá o que ele sabia! O que um pai é capaz de dizer para não fazer os filhos sofrerem!

Fiquei triste, mas não lembro de ter chorado como chorei anteriormente com a morte de outros animais. Acho que os surpreendi - Mari está ficando uma mocinha deve ter dito minha mãe, aliviados porque não precisavam mais se preocupar com meus desesperos. Chucas me abandonara bem antes, quando havia decidido ir viver com outra em outro território.
 
E agora eu passaria a me interessar muito mais por animais racionais. Se é que se pode dizer que as paixões adolescentes o são.

12.10.2013
Marilice Costi

AGUARDEM A CONTINUAÇÃO DESTA HISTÓRIA
em Meu livro de memórias.
 

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