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30 de dez de 2013

O HOMEM QUE DESEJA SER PEDRA

 
Conheço um homem que quer ser pedra
Não aquela do sapato de alguém
Nem a que se tropeça e acerta o passo
Nem aquela que se mata passarinho
Nem aquela que se esculpe
Nem aquela que pavimenta
Quer ser pedra de museu
Dura, embalsamada, na vitrine
Marcada por um valor histórico
Com uma legenda embaixo
Com datas, memórias, registro de valor
Pedra
Pedra que construiu casa da palavra
Pedra que construiu império
Pedra que não foi pedra
Pedra que fica eterna
Meteorito
Pensa que ser pedra é não sentir
É desconstruir construindo
É ganhar blindagem dos sentidos
É adquirir resistência
Pedra, diz ele, onde ele se esconde
É inerte no sentir, firme, isola os corpos
Pedra aonde ele se aninha,
É forte, é obra, é engenharia
Este homem é sempre em construção
Não nega raízes e pedra, diz ele, faz isolamento
Pedra, ele afirma, é não ter impermanência
É trancar o espírito num inerte bloco
Pedra, pedra e pedra para fugir do pó.

Para ela, pedra é diamante, os carbonos
Multifacetada projeta-se em luzes, cores intermitentes
De brilho e possibilidades aos milhares
Joia, prisma, Newton, luz-cor
 
Transmutar-se através dela
 É dele o que ela espera
Que a pedra se rompa estraçalhando dores
E dela surja um arco-íris
E assim um dia ela poderá dizer:
Conheci um homem que quis ser pedra
E por ser tão especial
O amor não permitiu.
 
Marilice Costi – Porto Alegre, dez 2013 

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