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8 de mai de 2016

Memórias de Marilice: AS BOLSAS DE MINHA MÃE

Alice Sana Costi recém terminara o curso de Corte e Costura quando casou com meu pai. Fez o próprio enxoval, exposto no dia da formatura. Exibia a foto com orgulho pelo tanto que tinha trabalhado e pelas coisas lindas que tinha inventado.
Era também professora primária, mas papai pediu que parasse de lecionar, pois ela seria muito necessária na administração da casa e na vida familiar futura. 


As costuras
Nossas roupas e as coisas com tecidos da casa eram feitas por Mamãe. Ela comprava todo necessário. As lojas ficavam longe da nossa casa e ela precisava de uma lista de itens porque não poderia voltar depois para trocar ou buscar algo que faltasse. Muitas vezes, estive junto no balcão da loja, o comércio de tecidos dos judeus no centro da cidade e a observava.
Quando ela escolhia o material, ela imaginava o que faria e havia prazer em seu olhar ao escolher a cor para combinar com os olhos da filha ou com o tipo mais alta ou mais baixa, mais magra ou mais gordinha. Percal para os lençóis, linho para roupas, lã, algodão, seda, cetim e o poliéster, que com o tempo se percebeu que era fácil para passar, mas que pegava uma asa... ninguém aguentava o fedor. E como era difícil retirar aquele encruado.
Em nossa casa nada era colocado fora. Não havia consumismo. Havia sustentabilidade sem que nunca tivéssemos dito esta palavra. Economizava-se em tudo. 
Alice poderia comprar vários metros e, vez ou outra, talvez a peça toda para regatear no preço. Às vezes, mudavam os planos. O tecido não era adequado para a pessoa ou para a utilidade que buscava. E o que era para ter sido lençol do casal, papai não quis. E assim o tecido ia para a prateleira das roupas a reformar. Logo a tesoura passaria por ali transformando lençol em chambres para as meninas e para ela.  
As roupas ficavam perfeitas durante muito tempo, pois eram cuidadas no lavar, não havia máquinas, raramente ficavam manchadas. Para criar novas peças havia um processo: desmanchar com cuidados todas as costuras, lavar e passar para assim utilizar ao máximo. E com as sobras, ela costurava calções para os netos e, finalmente, roupas para as bonecas das meninas. E assim, entre cortes novos e roupas desfeitas, ela seguia as suas artes. 
Eu acompanhava seu trabalho muitas vezes após os temas escolares e ficava ao seu redor pedindo que inventasse coisas para eu fazer, minha hiperatividade não permitia paradeiro. Em algumas tardes, ela ia descansar e me fazia dormir contando histórias. Outras, ela pedia que eu enrolasse os carretéis com linhas de muitas cores, organizasse as gavetas da máquina de costura.


Lembro-me de sua régua de costura, dos moldes em papel de pão, dos gizes e da tesoura de picotar, que ficou comigo após sua morte. Eu aprendi a selecionar cada coisa devido à sua importância e uso: agulhas, botões com seus tipos e tamanhos, linhas especiais, elásticos e a tesoura, que sempre deveria estar no mesmo lugar. Meus pais detestavam precisar dela e não encontrar rapidamente. Cada coisa precisava estar sempre em seu lugar! 
Os godês eram pra matar! A marcação das barras dos vestidos era uma tortura, pois eu tinha que interromper o que eu fazia para passar tempos intermináveis descalça sobre a mesa da sala a rodar lentamente. Ela media e media para marcar com muitos alfinetes em carreirinha a dar direção da dobra para a barra ser marcada, cortada proporcionalmente e receber o ponto certo de costura.

Trabalhos de Alice (manta) e casaco com apoio da costureira Délia.
Tudo tinha que ser perfeito. Se não estivesse dentro do seu nível de exigência, ela desmanchava e refazia. Diziam que a sua costura interna, a dos arremates, devia ser tão bem feita quanto a externa. Tanto que cuidava da qualidade dos seus pontos: mesmo tamanho, mesmo desenho, mesmo final com o nó correto para não descosturar. O arremate. E tudo sempre bem alinhavado para não errar a costura final.
Com três filhas meninas, mulher de empresário, precisavam todos estar sempre impecáveis. E na moda! Ainda mais na missa das dez de domingo.
Quando viajava a Porto Alegre, passava vistas às vitrines da Casa Louro e comprava burdas, que traziam a moda europeia de cortes firmes e marcados do estilo alemão ou outras revistas que comprava na Galeria Chaves, na revistaria ao descer a escadaria seguindo em direção à estação dos bondes na Praça XV, a do Chalé.

Ela organizava o quartinho da costura com certa frequência e sempre encontrava pilhas de roupas para reformar e os retalhos de tecidos grossos, sobras de roupas de inverno ou de pernas de calças jeans. Jeans era fácil, pois conseguia fazer shorts para os netos usarem na praia.

A sustentabilidade
As filhas casaram e os netos cresceram. As sobras passaram a lhe incomodar. Certo dia, uma nova invenção: sacolas para ir à feira. A utilidade era fundamental em suas artes. Naqueles tempos, não eram fornecidas as sacolas que passariam a ser um problema grave ambiental. Tudo era colocado em caixas ou embrulhado em papel Kraft. Sacolas de tecido seriam úteis para muitas coisas e também para buscar pão.
Mas com o tempo, as sacolas sobravam. Além disso, havia recortes de tecidos muito bons e que não poderiam ser usados dessa forma. Um dia, eu estava em sua casa e ela colocou os tais retalhos dos quais queria se livrar sobre o grosso oleado de proteção da mesa de refeições.

– Vou ter inventar alguma coisa com isto. Me incomoda encher os armários com coisas sem uso – e olhou para mim, sorridente e apreensiva... Era seu momento de prospecção... algo ocorreria. Começava riscando em qualquer papel e logo passava a mão na trena, fazia os moldes e começava a assobiar observando se o seio direito estava com os alfinetes que viria a precisar. 
Mamãe tirara o seio aos 37 anos e usava uma prótese de silicone que enchia o soutien, parece uma teta de verdade, ela dizia sorrindo. Papai mandara buscar na Alemanha substituindo um enchimento com meias de nylon furadas que ela fazia. A prótese para o soutien era sua almofada para por os alfinetes.
Então, Fiat lux!
 – Se eu fizer bolsas, tu usarias? – e olhou para mim aguardando resposta.
Eu parei para pensar um pouco...
– Depende, mãe, se não for muito esquisita para minha idade... – eu não gostava de coisas com “cara de adultos”... Naquele tempo, não se dizia a palavra idoso com a importância que se diz hoje.
Alice passou a se divertir compondo pedaços que combinavam entre si, degradês, muitos modos. E criou também diversas alças algumas de macramê. Ficaram lindas. Era moda usar tecidos, roupas de jeans, coisas diferentes.
As bolsas fizeram sucesso na família e com os amigos. E ela passou a presentear as pessoas. Eram realmente únicas!
Nós, as filhas, ficamos com as mais singelas, pois as melhores ficavam separadas para dar.


Seguimos nossas vidas sem nos darmos conta de tantos ensinamentos de Alice apenas no fazer aquelas bolsas.
Lembro especialmente hoje, no dia das mães. Não eram bolsas quaisquer. Eram as “bolsas da minha mãe”, uma mulher avançada em seu tempo, que tinha tudo para ser estilista de modas, uma empreendedora e nunca deixou de ser professora. Ensinava bordados, crochê, tricô, alinhavos, arremates a qualquer pessoa que quisesse aprender. Todas as pessoas que passaram pela nossa casa confirmarão isso. Bastava quererem aprender, que ela se dedicava.
Esses seus valores foram distribuídos entre seus descendentes.
Eu? Fiz apenas um vestido na década de 80, que não tenho coragem de me desfazer. Foi um trabalhão. Nem acredito que passei tantas horas fazendo tanta coisa à mão. Usei só uma vez em uma festa.



Só agora, sendo arteterapeuta, o vestido passou a ter novo sentido. Com capuz, com gregas com dourado, ele foi feito a bruxa das artes e dos cuidados... “Porque las brujas hay! Hay!” As bruxas da vida. As bruxas do cuidado. E isso tudo eu devo à minha mãe. 






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