texto abaixo do cabeçalho


29 de mai de 2016

Memórias de Marilice: MEU TIO DAVID (in memoriam)

Eu tinha medo de publicar meus primeiros poemas, entre eles, muitos considerados eróticos (era década de 80!), para familiares como ele. O que diriam de mim? E comentei com José Edil de Lima Alves, crítico literário, jurado no Concurso Nacional de Contos Mário Quintana, quando recebi o 1º lugar por um conto. Ao voltarmos do evento lá no Alegrete, numa viajem chuvosa de sete horas, também na companhia do poeta homenageado (fumante sem parar dentro de uma Kombi da Prefeitura de lá), José Edil me pediu se eu tinha mais textos e que gostaria de ler o que eu escrevera até então. Então lhe entreguei os poemas, depois de ter uma conversa sobre o trabalho que eu teria para ser escritora (os tais 95% de transpiração). Sua leitura cuidadosa me daria ânimo para publicar um primeiro livro, de poesia. Insegura na hora, comentei que não saberia enfrentar o olhar crítico de minha família. Naquele tempo não se publicava sobre erotismo como hoje. Edil me indicou a leitura da Bíblia, os poemas de Salomão no “Cântico dos Cânticos”. E com isso ganhei coragem. 

O livro “Mulher Ponto Inicial”  foi publicado pela Editora Movimento e recebi cartas de muitas pessoas, o que me causou surpresa, mas o surpreendente foi comparecerem 90 pessoas no lançamento, entre elas, tio David, que era tanto católico quanto futuro petista. Lia muito, pensava muito, argumentava com classe. Ele teve doze filhos com a parceira de vida, a querida tia Domingas. Companheiros, eles foram os primeiros a chegar na Casa de Portugal, local do lançamento.





Esse tio, irmão de minha avó materna, foi uma pessoa marcante em minha vida, meu cuidador. Era homeopata e olhava para as pessoas sempre sorrindo e, desta forma, penetrava em mim profundamente. Perguntava como eu me sentia, como ia a minha vida, o que andava fazendo, se andava irritada, deprimida, quais os meus alimentos preferidos e indesejados, os meus desejos e sentimentos. Então olhava aquele livrão de lá para cá e de cá para lá. E de repente, fechava aquele monstro pesado com o barulho dos livros dicionários e saia do consultório. Voltava pouco depois com suas poções mágicas. Pacotinhos muito pequenos com pozinhos brancos, que ele mesmo preparava: o meu medicamento homeopático.

Tio David comprou um exemplar do Mulher Ponto Inicial, escolheu um lugar para se acomodar entre os livros e ficou folheando o livro. Depois comprou mais dez. Fiquei feliz, mas muito curiosa. O que pensara sobre meus poemas? Ele conhecia a Bíblia onde lemos sobre os seios como taças para acolher o vinho... Passou o tempo todo sorrindo (o seu normal) e me observando. E nunca comentou meus poemas, apenas se fez presente em todos os demais lançamentos de meus livros (Clichês domésticos, Como controlar os lobos?) sempre adquirindo mais de um exemplar. 

Seu sorriso marcou a minha vida, talvez por isso eu me identifique tanto com ele, porque gosto muito de sorrir. Hoje ele estaria muito triste, indignado com a nossa política, mas teria algo a mais para me dizer, como por exemplo: estamos num outro ciclo, seria bom implodir o Congresso Nacional... no entanto... diria algo otimista... teria algum alento para mim.


Como era bom quando vinha me visitar! Sempre vestia terno e gravata, usava chapéu. Com os dentes sempre à mostra, ele trazia a alegria da aceitação dos caminhos. Eu, saudosa de meus pais, ficava com o coração amanhecido a pássaros. Tão raras as visitas de parentes atualmente...

Sua risada era marcante nos velórios. Isso mesmo! Risadas baixas e contidas muitas vezes. “Psiu! Estamos com o morto ao lado e ele poderá acordar! Hehehe...” Apesar de ter surdez, como outros irmãos, ele se fazia entender muito bem (e cursara Medicina após os 60 anos para continuar a exercer a Homeopatia). Eu tentava sempre ficar perto, considerava as conversas masculinas sobre filosofia e política, mais interessantes que as das mulheres de forno e fogão. “A morte encerra o período de convivência com aquele que está ali ao lado e nós estamos vivos”, dizia. Sempre valorizando a vida.

Meus lutos não costumam durar muito. Deve ser por aprender sobre a vida de quem fica e porque minha mãe, quando me via chorar desesperadamente pela morte de algum de meus animais de estimação, dava-me outro, não suportava meu desespero. Tive terapeutas que afirmavam que não eu não sabia lidar com as perdas. História! Nada disso! Aprendi a lidar com perdas sim! Aprendi que a vida continua e que é um ciclo. Por isso, falo da morte com tranquilidade e surpreendo com isso. Poderei chorar um dia inteiro de dor, mas sairei daquilo. Acho mais difícil administrar a dor física contínua do que a dor do nunca mais.
Os seus irmãos Mário e Ermínio juntavam-se a ele logo ao chegar ao cemitério. Tio Mário tratava de pessoas utilizando pêndulos e fotografias. E eu achava aquilo hilário. Ele se irritava com as minhas dúvidas quanto à sua seriedade, com as gozações do irmão David... Tio Ermínio ria junto. Entre os três, na religião era o mais conservador. Mas tudo virava em brincadeiras sempre do lado de fora da capela, onde as pessoas abraçavam quem chegava e despediam-se de quem ia ser visto no próximo casamento ou em outro velório.

Ali também foi o lugar da farra dos irmãos. Tínhamos às vezes que conter o riso ao levar um pito de alguém presente. E tio David dizia: "Ele está morto...não escuta..." Eles tinham uma peculiaridade, pois quando não queriam ouvir alguém, mostravam o aparelho auditivo nos ouvidos e diziam, "não estou ouvindo bem".

Todos sabiam que aqueles irmãos eram da pá virada. Óbvio era que aqueles enterros não eram de uma pessoa muito próxima.
O que se percebia ali era mais do que o momento para atualizarem as brincadeiras, pois tinham sempre motivos para rir, podia ser do morto ou de algo que viveram juntos, de muitas coisas mais. Era na verdade a alegria pelo reencontro.

Eu, jovem, no meio dos homens das piadas, ficava no mínimo esquisito. Meu pai eventualmente me chamava, era mais sisudo e em locais como aquele, não admitia rir assim. Eu achava sem graça a conversa das mulheres e preferia ficar longe do morto. Além disso, as piadas quebravam o gelo das longas esperas antes do enterro.

Deve ser por esses motivos que desde então passei a valorizar os velórios, pois é quando as histórias são contadas, onde se conhece a vida das pessoas. Lugar do reencontro de abraços e lembranças, de calor humano tantas vezes necessário em nosso cotidiano. Lugar de saber quem casou, quem teve filhos, como cresceram!... por onde andam, tanto que as famílias grandes se perdem por este mundão. 

Eu já estava com esta ideia em relação aos velórios quando escrevi o conto premiado? Creio que não. O conto "Convite para a Missa de 7º Dia" foi um título que saltou do jornal. 
A história era real? O conto registrou parte de minha vida na capital, minha dor e eterna saudade que eu viria a ter do Dr. Celso Aquino, meu querido neurologista desde os meus três anos. E que tanto me acolheu.

Foi tão bom ganhar seus abraços, o olhar carinhoso e os cuidados, que dedicava à menor da Alice, sua sobrinha e minha mãe. 

Não esquecerei o que mais me foi caro em nossa amizade: o seu sorriso, a sua escuta atenta, o seu acolhimento, hoje misturados à minha eterna saudade. 

Escrito por Marilice Costi em 29/05/2016


Nenhum comentário: