texto abaixo do cabeçalho


26 de jul de 2008

SEGREDOS TECIDAS PELES

Marilice Costi

Camada de tinta, superfície das alvenarias, acabamentos pétreos, cerâmicos ou de madeira, detalhes nos rendilhados a emoldurar beirados. Tecido renda, grega, prenda.
O tecido urdido, tramado, trançado, tingido, lavado, alisado, amassado, dobrado, guardado, exposto, escondido, contém cheiros de peles gravados, comprometidos interiores alinhados em funções vitrine ou caverna.
Tecido pele, trama, drama, grama, pijama. Tecido cama e tecido dama, tecido clama prazer e extertor.
Impermeabilização? Tecido sem sentidos. Tecido cortado, rasgado, marcado a fogo, tatuado, costurado, colado em frágil painel. Tecido imagem, gobelein, roupagem, carruagem a conter corpos tecidos demais anormais.
O tecido cobre o que sustenta peso. Indefesa camada nobre, que encobre o imberbe amor que repele alma e que provoca dor. O tecido que muito protege é o mesmo que expõe ferida.
O tecido que amarra, que provoca tara, que escancara amor. O tecido menarca, que no gado fez marca, escrava.
O tecido recebe qualquer carga: a cor monarca, de papa, de cardeais. A cor da fome que tecido tem?
Tecer palavras em tecidos idos e vindos, tempos de registros em livros, cartas, manuscritos, virtuais escritos, passados gritos, tecidos cerebrais. Tecido esconderijo de suores, de clamores, de amálgamas, de umbigos, de enxovais, de pratas polidas, de cristais, de vinhos e de amores.
O tecido está em todos os ais. Está em mantilhas nos mortais. Tecido também mortalha. Cobre o santo e o canalha.
O tecido faz a forma e a deforma. Constrói e desconstrói. Faz vir e ver, faz ir e se perder. Faz renascer. Acompanha o crescer. Enfeita o renascer.
Tecidos necessários, proteção do vir-a-ser, também o são na morte, fim do tecer o próprio tecido tecida vida.

*

19 de jul de 2008

DOS LUGARES AFINS

Marilice Costi
fachada máscara armadilha bordel labirinto
baús mansões adega solário pátios armários
coberturas escondem masmorras?
todo mundo no fundo um porão

corredores escuros sobrado porta janela
pode alçapões para o céu

livre tramela aos amigos
no térreo calor há espera
cálices a guardar vinho
no carinho posta a mesa

mas só casa com outra casa
gerânios com lambrequins
se ge(r)minarem um sótão

daí, que pode o delírio

13 de jul de 2008

VIGILANTE

Marilice Costi

o olho da águia
(se) assusta e atrapalha
o posto sentinela
que imprime carga
e pulsa o coração
para desafogar a alma
mas não exprime
aquilo que precisa
a calma

o olho da águia
vê os cumes e não pára
vê a ânsia e reluta
mesmo assim se espraia
não silencia
a voz que amplia
e é portuária

o olho da águia
desce ao lago, procura pérolas
onde estão as ostras lacradas
o bico da águia é gasto
as garras enfraquecidas
tem unhas que se rasgam

o olho da águia
ainda aprende, ainda alisa
as penas compondo asas
e sobe ao infinito
onde a luz do sol é tanta
que ciente de Ícaro
se encolhe e encanta

o olho da águia
só às vezes, dorme.


Publicado na PRESENÇA LITERÁRIA 2007 - Academia Literária Feminina do RS

8 de mar de 2008

às mulheres de mi vida

Marilice Costi
08/03/2008 - 01:00 h
Magros corpos escorridos ou redondos seios de acolhida, ouvidos moucos ou atentos de colo, bocas grandes ou pequenas de afagos, olhos de muitas ou poucas verdades, interestelares fios de afeto e celulares, muitas em uma só, uma só em muitas, são todas e únicas, comuns e singulares, meus pares de hormônios, terapeutas e irmãs, mães, mestras, junto todas numa só, e és tu, a mais próxima, e és ela, a mais distante, aquela que nunca mais, aquela imenso vazio, aquela que foi-se, a outra que danou-se, minhas colegas do dia, minhas filhas, minhas alunas, minhas especiais, todas fenomenais.
E somos todas Gaia, polaridades da mente inquieta e da mente sem ou a precisar de meta, Robertas, Neusas, Renatas, Melinas, Marinas, Carolinas, Karinas, Margaridas, queridas, Eloísas, Alices, Elbenices, matizes, Analices, Analúcias, Lúcias, astúcias, Terezas, Jeanetes, Rosanes, Elisabetes, Lisianes,Taises, Clarices, peraltices, Gessis, Fátimas, Janes, Lilianas, Irenes, Gabrielas, Francieles, Mirians, Izabéis, Marias, Beatrizes, Celis, Dulces, Denises, Ednéias, colméias, Margas, Margaretes, Ingrids, Lenas, Helenas, Marias, Gladis, Carlas, Lianas, Domingas, Neivas, Cristinas, Ângelas, Sônias, Sissis, Taimaras, Silvanas, Lilianas, Joanas, Lias, Maras, Glacires, Lurdes, Renatas, regatas, Martas, Suzéis, pincéis, Mônicas, Aldinas, serpentinas, Suzetes, Deisis, croquetes, Silvias, Selenes, Suzanas, cabanas, Graças, Joanas, as manas, Clarices, Angélicas, Julietas, violetas, Beatrizes, Delis, Glacis, Yasmins, Janices, festins, Valescas, Vivianes, Juçaras, Veras, Elviras, quimeras, Simones, Adrianas, Janainas, Agdas, Bárbaras, Berenices, Telmas, Joelmas, Rejanes, Marianes, Luizas, Giseles, Vitórias, Micheles, Rosanas, Dominiques, Marilus, Clarindas, as dindas, Giselas, Carmelas, Cláudias, Anas, Marianas, Neumas e Léos, chapéus, Odetes, Normas, Natálias, crisálidas, Marisas, Sandras, Francilenes, Marlenes, Tenizas, Hildas, Eloás, Nenas, Morganas, Reginas, Raquéis, Rosas, chorosas, Zilás, Zairés, cafés.
Multicores, todas em uma, vir-a-ser viés de lunas, as Antonias, Amélias, Aldas, todas meus amálgamas.

Todas rimas com meninas: com ventre, serpente, vertente, carente, doente, potente, coerente, poente, dormente. Trens, chás, trilhos, que carregam meninos. Doutoras, parteiras, benzedeiras, cantoras.
E todas sois sóis e estrelas, cadentes e valentes, pó, argila, chuva e terra; firmes no firmamento, estrelas Dalva, estrelas da manhã, Yansã ou verdes orvalhos ou garças gaivotas ou pombas águias.
Estas mulheres de minha vida são água e fogo, terra e vento. Luz e lamento. Tormento e encanto. São o quanto sou de amianto, de manto, de acalanto.

Meta-morfeu-apoteosis-fênix

Cuidadoras de mi vida

mundaréu nimim.