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30 de dez de 2013

O HOMEM QUE DESEJA SER PEDRA

 
Conheço um homem que quer ser pedra
Não aquela do sapato de alguém
Nem a que se tropeça e acerta o passo
Nem aquela que se mata passarinho
Nem aquela que se esculpe
Nem aquela que pavimenta
Quer ser pedra de museu
Dura, embalsamada, na vitrine
Marcada por um valor histórico
Com uma legenda embaixo
Com datas, memórias, registro de valor
Pedra
Pedra que construiu casa da palavra
Pedra que construiu império
Pedra que não foi pedra
Pedra que fica eterna
Meteorito
Pensa que ser pedra é não sentir
É desconstruir construindo
É ganhar blindagem dos sentidos
É adquirir resistência
Pedra, diz ele, onde ele se esconde
É inerte no sentir, firme, isola os corpos
Pedra aonde ele se aninha,
É forte, é obra, é engenharia
Este homem é sempre em construção
Não nega raízes e pedra, diz ele, faz isolamento
Pedra, ele afirma, é não ter impermanência
É trancar o espírito num inerte bloco
Pedra, pedra e pedra para fugir do pó.

Para ela, pedra é diamante, os carbonos
Multifacetada projeta-se em luzes, cores intermitentes
De brilho e possibilidades aos milhares
Joia, prisma, Newton, luz-cor
 
Transmutar-se através dela
 É dele o que ela espera
Que a pedra se rompa estraçalhando dores
E dela surja um arco-íris
E assim um dia ela poderá dizer:
Conheci um homem que quis ser pedra
E por ser tão especial
O amor não permitiu.
 
Marilice Costi – Porto Alegre, dez 2013 

27 de dez de 2013

Pequeno Mundo


Chega a noite e o frio e a saudade e a distância e a impotência e o desejo e a espera e a saudade e o abraço e a saudade e o beijo e a saudade e a tua pele e a saudade e a presença e a saudade e o tempo e a saudade e a velocidade e a saudade e a música e a saudade e o olhar e a saudade e as tuas mãos e a saudade e o diálogo e a saudade e a memória e a saudade e o café da manhã e a saudade e a mesa arrumada e a espera e que roupa vou vestir e a saudade e a aurora e a saudade e você e a saudade e um poema e a saudade e a esperança e a saudade e a vida e a saudade e a areia e a saudade e o cabelo a crescer e a saudade e a tua insônia e a saudade e muito trabalho e a saudade e viajar através da luz e a saudade e um sentir tão lindo e a saudade e a partilha e a saudade e o frio e a espera do nascer de um novo dia. As marés. Os compassos. Os versos. As rimas escondidas. As metáforas. A compreensão. A energia. A tua luz. O meu medo. A tua limpidez. A minha insegurança. A nossa linguagem. A raridade. O encontro. A descoberta. O susto. A paz. A companhia. A presença. A distância. A sinfonia. A liberdade. O silêncio. A saúde. A ansiedade. O respeito. A harmonia. A fé. O futuro. O desconhecido. A ternura. O preparo. Os lençóis. O abraço. O acolhimento. As incertezas. A vida. O poema tem fim? O fecho. De ouro. A única coisa certa? Os erros. O perdão. A aceitação. Os desejos de acerto. O fio. As linhas. As conexões. A orquestra. O maestro. A partitura. A maestrina. A tessitura. O alinhamento. O ressurgimento. O enquadramento. A porta aberta. A chegada. A sofreguidão. O beijo. O beijo. O beijo. Um mar. O amar.
Marilice Costi - 2012

12 de nov de 2013

FILIGRANA

é fina teia ou cabo de aço
o que permeia encontros?
 
liberdade que amarra violetas a cometas
em densa e clara criação fluída
é vida que se agarra ao linguajar
de doces línguas e os advérbios
são verbos no ato de encontrar
 
enquanto o tempo escreve novas linhas
nas faces que se expõem a compor teto
há lugar em porões a iluminar
 
se há mágoas e sombras a substantivar
a alma em constelação etérea a contemplar
são sobrepostas camadas de afeto
 
e as delicadezas de algoz ou de amante
sustentam o sótão com seus zenitais
 
 
in: AMOR DE ATILHO -  Marilice Costi

 

13 de out de 2013

Memórias de Marilice: CHUCAS, MINHA POMBA

C hucas era a minha pomba! Minha mãe ficava furiosa quando ela bebia na minha boca.  "Vais pegar doença, Mari!"  Eu nem me importava com seus conselhos. Eu lhe dava minha saliva como água e pronto! Ela já sabia e buscava meus lábios quando estava perto de mim... Sabia pedir.
Minhas irmãs sabem bem desta história, pois estavam junto comigo na caminhonete que nos levava  para a praia de Atlântida. Eu a escondera em uma caixinha de papelão perto de meus pés. Meus pais só descobriram bem adiante de casa, quando ela acordou e começou a gritar. Estranhou e tinha fome. Era ainda um filhote, cheio de canudinhos pendurados na pele, aguardando o momento de romper e plumar.
Chucas ficou sendo nossa. E passeou no balneário e fez cocô aqui e acolá, no soalho, na sacada e na areia. Eu me divertia, pois eu ainda era um arremesso de moça e não possuía turma de amigos. Eu apenas colava e descolava dos primos da capital. Chucas cresceu naqueles dois meses de férias e retornou conosco sem saber dos seus.
As aulas no Colégio Notre Dame começaram. Saíamos muito cedo para poder chegar à escola às sete e meia. Ao voltar, eu corria para a área que dava para o quintal. Antes de ela ser reformada para se transformar em um estar com fogãozinho à lenha de uso no inverno, havia ali uma mesa onde eu fazia minhas lições. Eu largava a pasta, abria a basculante e gritava: Chucas! Seu nome era devido ao topete na cabeça. Ela vinha, debatia-se um pouco no vidro e eu a ajudava entrar. Ficava o tempo todo comigo e acomodava-se encolhendo as perninhas e chegava a cochilar.
Um dia, levei-a escondida para a escola e foi um estardalhaço. As aulas ficaram comprometidas com os seus voos.
Foi por causa dela que eu pude me aproximar das minhas mais de vinte pombas e circular entre elas, que comiam próximo a meus pés. Era o máximo que eu conseguia. Vir comigo, só a minha Chucas.
No jardim de nossa casa havia um laguinho curvo adivinhando o futuro de nossa arquitetura em Brasília. Ali eu cuidava de minhas rãs. O marceneiro da fábrica fazia casinhas com restos de madeira, com portinha e tudo para elas!  Meu pai reclamava: Não os tire do serviço, Mari! Havia também dois balanços, um cactus, rosas, cravos, onze horas e outra flor cujas pétalas laranjadas eram do formato de unhas. Brincávamos de ser mocinha, colocando-as sobre as unhas. Esmalte para menina-moça? Nem pensar, nem papai nem mamãe permitia. No máximo eu poderia ler Polyana moça,  um livro chato e arrastado que ensinava sobre a menstruação e gravidez. O que eu queria mesmo era ler ELE & ELA, Capricho, coisas de moça.
 
 
Havia no jardim o lugar para um pinheiro, que foi plantado por minha mãe quando eu já estava me casando (bem jovem) e que seria decepado como tudo naquele lugar depois que a casa fosse vendida. A cercaviva escondia os muros no interior e não do exterior como são hoje. Faziam limite entre a passagem de carros e a área onde as crianças corriam, sempre um cuidado para proteger de acidentes. Tinham muito medo que se machucassem. A bougainville, vulgar três-marias, cresceu e estava sempre florida perto do Natal, quando Alice a enfeitava com lâmpadas coloridas, marcando o acesso principal.

Havia a Dona Lídia, nossa vizinha, que fazia pão e sempre dava um bem grande para nossa família, alcançando-o por cima do muro. Recordo também do formato, da cor dourada, e da casca lisa e brilhante. Coberto por uma pequena toalha branca alvíssima, numa época que não se usava hipoclorito. Era de um capricho só! O aroma de pão italiano se espalhava pelo caminho dando água na boca.  O forno dela era de adobe, o que dava um sabor a mais. O tempo em que vizinhos trocavam delicadezas. Do outro lado do terreno, havia uma pensão e cães perdigueiros usados para caça. Ali eu não me arriscava ir.  Ali tinha também o cipreste de onde a minha mãe tirava varetas para dar em nossas pernas quando queria nos punir. O estranho é que lembro dela correndo atrás de nós, mas não da dor ou marcas nas pernas. Lembro mesmo é de chineladas que ganhei sem ter culpa nenhuma. Lembro da cor amarelada, eram do meu pai, de couro natural e que sempre estavam no banheiro esperando que ele chegasse do trabalho. Era eu que lhe alcançava, ajudava-o tirar as meias e levava os sapatos para a área. Papai sempre recomendava que eu lavasse as mãos logo a seguir.
 
Chucas era  um pombo e desejou namorar e eu? Continuei a caminho da adolescência. Ela não tinha medo dos animais como deveria, facilmente os gatos a rodeavam. Meu pai me alertava... mas eu não tinha o que fazer. E por ficar com as demais aves, em bando, eu não me preocupava tanto. Era agora ave adulta e andava atrás de um par. Foi tão lindo ver a sua dança da conquista... Eu já conhecia o movimento dos pombos, mas ver "minha Chucas" tinha um algo a mais. Era o pressentimento de que ela se despediria logo de mim. Ou que eu me despediria dela.

Nossos caminhos se bifurcaram mas teriam que mudar de rota.

Eu observava como um pombo perseguia a pomba, arrulhava forte e ela, a fêmea, dava voltas e voltas no meio das outras aves tentando escapar, voava e ele ia atrás, descia ao solo e ele vinha novamente e a cercava até que ela não tinha mais alternativa - acho que era quando eles se olhavam nos olhos! - então ele saltava sobre ela e pronto! Ela se abaixava e ele se acomodava abrindo as asas para se equilibrar. "Precoce". Era tão rápido que me dava a sensação de que o macho sempre machucava a fêmea com as suas garras e com o bico pinicando na cabeça dela.

Chucas e a sua pomba, acasalou! Era uma qualquer que não me pertencia e que não era tão bonita como ele. Eles então  fizeram ninho no pombal vizinho. Suas vindas passaram a rarear muito mais. Pombos fazem ninhos recolhendo gravetinhos e folhinhas pelo chão e depois, quando os ovinhos descascam, cuidam muito de seus filhotes.  E eu crescia e cada vez tinha mais coisas a fazer. Estudava piano, inglês, italiano e ainda tinha a escola. Suas vindas passaram a rarear tanto que passei até a esquecer-me dela e não mais a chamava na vinda da escola. Eu passava a me interessar por bichos bem mais complicados que ela. E a viver uma repressão horrível de minha mãe.
E o tempo passou mais um tanto.
Meus pais nunca sabiam como me contar a morte, pois a perda de qualquer bicho minúsculo ou peludo me desesperava. Eu era capaz de passar o dia inteiro chorando sem parar. Então, eles pensavam muito como me dizer essas coisas de final da vida. Numa tardinha, papai - que me ajudava a cuidar dela e a alimentá-la com grãos de trigo - chegou cabisbaixo. Cheio de dedos, suspirando, ele perguntou se eu tinha visto "a Chucas". Segurando com uma das mãos o casaco atirado atrás do ombro direito, como fazia sempre ao voltar do trabalho, soltou-o sobre a cadeira e disse: "Os gatos devem tê-la comido. Achei apenas as penas." Sabe-se lá o que ele sabia! O que um pai é capaz de dizer para não fazer os filhos sofrerem!

Fiquei triste, mas não lembro de ter chorado como chorei anteriormente com a morte de outros animais. Acho que os surpreendi - Mari está ficando uma mocinha deve ter dito minha mãe, aliviados porque não precisavam mais se preocupar com meus desesperos. Chucas me abandonara bem antes, quando havia decidido ir viver com outra em outro território.
 
E agora eu passaria a me interessar muito mais por animais racionais. Se é que se pode dizer que as paixões adolescentes o são.

12.10.2013
Marilice Costi

AGUARDEM A CONTINUAÇÃO DESTA HISTÓRIA
em Meu livro de memórias.
 

12 de out de 2013

Grieg: Peer Gynt / Järvi · Berliner Philharmoniker (+playlist)


MEUS PEQUENOS

Meus eternos pequenos grandes crianças pessoas especiais pedaços enormes de minha vida incrustrados em minhas montanhas participantes de meus sapatos e de minhas vielas que alargam minhas avenidas e me fazem voar compartilhar sair de dentro de mim desde sempre para ser o que são e sou cuidadora de iluminados seres e da vida tão pequena em todos e tão imensa dentro de nós crianças de minha alegria lembranças de acolhimento abraços vivências de amor e ódio passado sempre e conversas sérias e danças limites e rigidez e afofamento e colo e saudade eterna de mãe que vai e fica em nós em tempos de nossa moradia na Terra Gaia mãe de tudo e de todos que acolhe árvores copadas secas frutíferas desfolhadas decepadas brotos saltitantes no concreto da vida que se estica que se encolhe e que se tolhe tantas vezes em tantos perto e distante aqui e acolá no universo de nossos dias luzes e trevas e ruído e silêncio e cores e a ausência e parada e movimento e leveza e carga e sede e água e fome e alimento e solidão e companhia e pequenez e grandeza e afirmação e negação e esquecimento e registro e perdas e ganhos e chegadas e saídas. As de hoje e as eternas.

22 de ago de 2013

DICAS PARA QUEM QUER ESCREVER!

Para o escritor, escrever é vital. Por isso ele se dedica ao ofício, porque para ele é necessário. Ele precisa escrever. 

Confira outras dicas aqui
 

11 de ago de 2013

PARA MEU PAI

 pater-semente-lugar

acolhe ninhos e perdidas pipas
forte raiz que espalha os pés na terra
maduro tronco para o alto, rígido
isola a seca e a fome que enterra

longos os ramos, mesmo quebradiços
braços, desenhos contra o azul do céu
massas folheares ao sabor do vento
quentes abraços com sabor de mel

quando divago no final da tarde
ele é quem vejo em mim no meu cantar:
as mãos cansadas e o regaço imenso.

o seu desejo é que o consenso guarde
a paz, a mirra e a luz: intenso advento
unindo a força ao construir lugar


Poema escrito em 1990 para meu pai 
Todos os direitos reservados para Marilice Costi



Homenagem ao meu pai

CASO PROIBIDO

Era um caso de amor profundo, uma questão de raízes, um tipo de sentimento infinito até. Trinta e três anos de paixão! Ele, a trezentos quilômetros de distância, seu esteio, exemplo, segurança. Ela, frágil, mas corajosa, débil e às vezes inconsequente pela vontade de viver e saltar barreiras que a idade impunha. Matilde o carregava em seu coração num desejo de posse avassalador. Ela amava o seu caminhar, o gesto dele pôr os braços para trás, o assopro quando perdia a paciência e ria-se dos impropérios que Lauro esbravejava em sua língua de origem. Ela desconhecia em parte os significados. Mas seus signos eram claros: queria tudo em ordem, a mesa servida no horário exato, a comida com tempero suave, o silêncio na hora da refeição, o cafezinho depois junto ao cigarro filado. No final do dia, somavam mais de um maço. O médico proibira, ele não comprava mais.
Quando Matilde estava passando um tempo com ele, ao escutar o apito da fábrica, ia buscá-lo. Cansado do trabalho, ele demonstrava alívio. Era um momento de êxtase para ela: o caminhar lento de quem lidara o dia inteiro, o modo de atirar o casaco sobre o ombro direito, as muitas chaves da fábrica no molho preso ao cinto, o ouvir o próprio ruído ecoando do soalho nos barrotes, o verificar portas e janelas, os conselhos dados ao vigilante na guarita e, antes de cruzar o portão de ferro, o “não se esqueça de alimentar e dar de beber aos cães”.

Eles continuavam pela calçada coberta de terra seca daqueles dias de verão que margeava a avenida de paralelepípedos que se perdia atrás da Brigada Militar. E viam o pôr-do-sol. Ele a olhava com cara marota de menino adolescente e sorrindo dava-lhe um sonoro beijo espichando os lábios para alcançar sua face. Chegavam em casa aos latidos do Duque. Havia o costume de limpar os pés na grama, antes de ultrapassar a soleira. O chimarrão os esperava após o banho, quando ele mostrava seu recato. Nunca se vestia na frente ela. Apenas quando ia ao sanitário, não fechava a porta. Ela ouvia o som de um jato e ficava imaginando como poderia acertar no escuro. O lugar nunca cheirava mal. Era muito cuidadoso, sempre lavava as mãos ao chegar. Depois da janta, ela aguardava o momento que seus olhos diziam: pode vir. Sentava no seu colo, então, lia o jornal em voz alta. Ele escutava e marcava as notícias para ela recortar depois. Era o que Matilde fazia enquanto durava a sesta. Lauro sempre descansava após as refeições, como descansa agora, naquela cadeira do papai, para sempre.
Conto publicado no livro: COSTI, Marilice. Tempos Frágeis. Porto Alegre: Movimento, 2009.

28 de jul de 2013

GRÁVIDA DE ESPERAS - Marilice Costi



Caro Editor
O que farei com a quantidade de textos que me vestem? Que me compõem por dentro? Que me fazem humana? Como esse que já fez aniversários... e estava entre os perdidos até hoje neste dia quase 10x6.
Abraços, MC
08/06/2013
O que importa nesta avalanche de vontades, de peles a tentar se colar, de dobras virando origamis, de alegrias mágicas e desejos interestelares, de ouvido e voz e ar, de pulmão e coração, o afago sangue adentro? Este querer/ser/ficar em território do outro, colo e acolhimento, um fincar mastro e  hastear bandeira?
Importa é a voz que chega a quilômetros milhares quase anos luz, trespassando calor em ondas, em frequências de comunicação de corpo e alma que se buscam, em dobras que se desdobram, resiliência e plantio. Há espera de criar raízes, em desconstrução que se constrói, no cuidado do levantar tijolo por tijolo, lado a lado, apoio e engaste, planície e floresta, um rio onde o barco atraca no cais, sem medo a não ser a ausência de maré. Águas sempre-vivas. 
Quero como quem deseja 25 metros de um bambu adormecido há séculos, cachoeiras que fluam entre jacintos, margaridas do campo e onze horas. Quero como quem deseja alcançar o pico da cordilheira dos Andes ou as cavernas de estalactites, como a música de Dvorák, Bartók, Strauss, Ravel, Villa Lobos, Chopin e Bach. Um pensar composto no balanço e movimento de ondas a ocupar territórios vindos em paz e em par.
Quero compartilhar do ar, do olhar, do costurar o afeto na pele com cinzel e linha tecelã e agulhas de bordar, a desmodular sentimentos padrões e a clarear obscuros momentos. Quero amar neste frio de junho que avança metade do ano de vida adentro.
Quero me grudar. Me dar e amparar, ser muro de contenção, ser telhado em construção, ser espaço público e privado, ser da vida, luz e sombreamento, dinamismo e amarração.
Nós, exatamente e apenas um nós em profusão.

(escrito em 2008) Direitos Autorais Reservados MARILICE COSTI - 08/06/2013

27 de jul de 2013

Gatilho nas Palavras - ficção - Marilice Costi - p. 22




(... )
Iria ele cuidar de si a partir de agora? Escolheria a camisa sem mancha e com botões, teria sempre cuecas limpas na gaveta? Manteria as latas de chocolate e leite condensado e os pregos nas prateleiras no meio das roupas de passear? A premente necessidade de ter à mão o líquido doce através de um furo feito com a ponta de uma faca e martelo. A carência do seio?
O carrilhão tocou na sala. Lea acordou. Agora não com o ronco dele. E sentiu alívio. Na sua memória veio seu pai, para quem agora ela pediria proteção seguidamente. Não havia mais como aguentar a vida sem o útero a crescer, a lembrança do sangue perdido ao fazer o desejo de Jonas. Por que cedera? Olha as fotos de Natal e imaginou mais um ser ali. Qual sexo teria tido? Aquela mancha para sempre entre os dois. E nada jamais desfaria aquela cicatriz.
A noite se alongou. Rolou na cama até sucumbir finalmente ao sono. Seis da manhã, despertou com o corpo cansado. Pesadelo? Correu para o bloco de anotações. Esquisito lembrar-se daquele gringo no sonho. Onde andaria aquele homem das letras desenhadas?

(trecho pág. 22) Gatilho nas Palavras -de Marilice Costi - São Paulo, Scortecci Editora, 2012. ficção.


Saiba aqui a opinião de leitores: Uma publicação de SANA ARTE

8 de jun de 2013

CONCURSO DE POESIA LILA RIPOLL – 2005

                         Marilice Costi



não tenho medo da morte

sou ebulição

uma arma atômica

explosão



sem água nem alimento

movo o corpo ao sabor do vento

quero dançar mas não conforme a música


com vísceras contaminadas

minha carne rasga onde escorre leite

meu cérebro vacila



mas meus braços

ainda embalam

o son(h)o da paz
 
 

 

25 de mai de 2013

COMPREENDENDO

O tempo não espera por ninguém. Ontem é história. O amanhã é um mistério, o hoje é uma dádiva, por isso é chamado de presente. (Adalberto Godoy)

24 de mai de 2013

Memórias de Marilice: INSISTÊNCIA DÁ NISSO...

Todos têm uma história sobre por que "desisti de ler". Não tenho dinheiro, ler demais não faz bem, não tenho paciência, não tenho tempo, não enxergo bem e muitas falas mais. Tenho a minha.

Ao voltar da escola e almoçar, eu ia ao meu quarto e deitava na cama para ler. Meu pai se aborrecia por me ver com livros que ele não entendia (Dialética da libertação, o que é isso? filosofia? Sartre? Os deuses eram astronautas?). Eu tinha 14 anos. E ele dizia, não me preocupe, minha filha. Você lê demais, Mari. Não é bom ler tanto!
Preocupado com o meu futuro, muito mais ainda com o meu pensar, papai tentava me controlar.. Estávamos na ditadura. Mas não faltava dinheiro para livros, enciclopédias, dicionários, revistas (exceto as Cruzeiro e Manchete que, se apareciam, tinham as páginas das mulheres pouco vestidas arrancadas. O nosso imaginário totalmente controlados pela minha mãe, As revistas Castigo? Ele & Ela? Nem pensar!

Havia gente que dizia: Aquele? Enlouqueceu de tanto ler! - era a fala corrente ao vermos passar um homem delirante pela rua em Passo Fundo. Aquele homem delirava em sua esquizofrenia!
Era sempre a mesma conversa pela cidade.

Vais enfraquecer os olhos, Mari.  Muitos cuidados comigo. O controle.

E hoje, a Mari! É bom não ser dentro da casinha, apesar de muitos sobressaltos do caminho. Quem lê pensa. E a postura tem que ser cuidada... Gosto de andar sem lenço e sem documentos. Nas letras especialmente. Com os livros a me olharem, enquanto aguardam que eu penetre no mundo insondável das palavras, sou tão mais feliz!

Marilice Costi (24/05/2013)





12 de mai de 2013

PARA MINHA MÃE
 
Minha amada Alice, a verdadeira senhora de meus domínios internos,
 mar revolto de minha adolescência, calmaria na minha maturidade,
luz e sabedoria no momento de eu ir para a próxima idade.
Amor de esperança e abraço de acolhimento.
Um amor de agradecimento que não cabe em mim.
 
 
Porto Alegre, 12/05/2013 
Marilice Costi


11 de mai de 2013

Desmemórias de MC - DAS COISAS DE DENTRO

Estou cada vez mais de coração mole. Deve ser a bisovice. Ando saudosa de coisas que nem tive. Ando saudosa de coisas que nunca terei. Ando assim, amolecida de adocicadas desmemórias, perdidas num tempo sem tempo de viver.
Buscar o lugar, o espaço em agendas lotadas, o horário certo: sabedoria que aflige o desejo de encher a boca de mel.
Em Porto Alegre - 11/05/2013 - Marilice Costi

18 de fev de 2013

14 de fev de 2013

ODE À "REBIMBELA DA PARAFUSETA"



imagens terapêuticas
de falsos casos
de dúbia linguagem
de interpretações profundas
e soluções infecundas
contrapõem a luz
que à criação conduz
 
"furunga que te furunga"
taí a conclusão
que me cansa a bunda


In COSTI, Marilice. Clichês Domésticos. Porto Alegre: Movimento, 1993. p. 23.

DESCOBRIMENTO

sei agora
porque temo a morte
 
nos momentos de infelicidade
teu corpo
antes, meio de transporte celestial
me enterra
 
 
In COSTI, Marilice. Clichês Domésticos. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1993, p. 42.