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27 de fev de 2018

A vida traz novos planos - Marilice Costi

Ultimamente, a gente não se dá o direito de ser feliz ouvindo música com disco de vinil num meio de tarde. Nem "perder tempo" olhando as flores em um jardim. Estar na vida contemporânea é uma coisa desvairada. Ter consciência dói. 

Eu ja quis ser uma louca sentada na calçada fora do mundo do meu lar! Era a década de 70 e essa imagem me perseguiu até que mudei meu olhar e passei a querer lhe dar a mão.  

Marilice Costi - 2019

27 de jan de 2018

A FÁBULA DO CUIDADOR - Edelvais e o professor de voo




Abaixo, você tem um capítulo do livro da imagem. 
Boa Leitura!




Edelvais estava ansiosa. Caminhos novos. Pensou no Tratado Interplanetário dos Cuidados de flor. No direito a carinhos.

A fala do Príncipe permanecia em sua memória:
– Você é uma sonhadora. Ora, tirar raízes e querer voar? Comigo não! Sou quem faz acontecer, não viu meus feitos de norte a sul? Você, com suas estrelas furadinhas, não sabe do inútil? Você rouba meu tempo de fazer castelos. Ah, se as chamas dos flamejantes lambrequins apontando para o céu e impedindo lágrimas fossem reais! Aquele olhar molhado que você viu certo dia de partir era mea culpa por ter a alma misturada em perfumes de flor. Alergias! E depois, o que faria eu com você pela Via Láctea? Não posso cumprir desígnios que não são meus com um tipo de flor cujo aroma me dá náuseas!

A flor buscava a afinidade perdida, a ternura que só existe quando há compaixão. Ele dera boa noite e saíra batendo lata. Com pernas feitas para subir rochedos, fortes para colher edelvais, tinha-as machucadas por causa da armadura. Mas centrado em desejos de enricar, não sentia aquela dor. Sem mais delongas, o Príncipe desapareceu no buraco negro.

Talvez fosse importante aquilo. Distâncias de coração. Tinham compartilhado memórias antigas e assustaram-se com tanto interior comum. Daí que era melhor mesmo ter aquela lataria protetora de flores.

Onde encontrar a luz para ajudá-lo a romper engates de armadura? Ele desejaria se livrar daquela carga errante? O Óbvio fazia falta, o ser de cura sutil. As ervas medicinais!

O tom de voz raivoso e em espumante tempo, aquela flor carregou ainda depois da partida dele. O coração parecia estilhaçados cristais, mas ela conteve o choro. Não podia perder a água necessária para seguir caminhos.
O que tinham em comum? Ele era de abandonar, tinha lhe avisado. Ela acreditava no amor e continuava no ato de cuidar-se. Desistiria? Utopias de viver. Sem elas, não sabia viver. Era de voos. Mas queria colo.

Príncipes doentes de amor não seriam todos naquela galáxia. Desconcertada, ela desejou a redoma. Mas não tinha mais raízes para voltar.

Fernão a esperava no penhasco próximo da porta principal do Reino das Metáforas. Ao vê-lo, a edelvais sentiu a corola como um bambolê em movimento e flutuou no ar. Subiu meio metro. Lembrou-se dos lambrequins e tombou. Por que pensar nas estrelas que já exerciam o autocuidado? Ainda estava presa àquelas raízes? Respirou fundo três vezes, contectou-se com o próprio voo interior e parou amedrontada. Não posso, estou louca, disse a si mesma. Ora uma flor a querer voar se não é ave. Mas sua corola continuava a lhe dar coceira e rapidamente deslocava-se de um lado para outro. Treinava a mente para ascender. O pensamento vazio de amor. O Príncipe seguia a conquistar castelos e a voltar para a esfuziante princesa que sentia culpa de deixar.

Do lado de cá do fosso ao redor de seu castelo, Edelvais e Fernão percebiam o quão pequenos eram e como se alegravam um com o outro ao trocarem sabedorias de ave e de flor. Edelvais percebeu uma abertura entre as nuvens e seguiu naquela direção. Fernão gritou não, agora ainda não! Mas ela não ouviu.
Era o buraco negro. Mesmo acreditando que do escuro é que se vislumbra luz, ao se aproximar a Edelvais foi sugada enquanto ouvia gritos de uma menina ao longe. Quem mais teria caído? Alice?
Perdera-se de Fernão? Mas a gaivota seguiu a flor, que de um lado para outro, debatia-se em queda livre, e achou aquilo muito estranho, mas no Reino das Metáforas, tudo era possível. Estava anoitecendo e, no final do buraco negro, havia uma porta colorida. Juntos seguiram para o lugar onde as coisas tinham o poder de ressignificar. Novos lugares de treinos. Um castelo novo em tons azuis e, em seu entorno, áreas para planar próximo de um desfiladeiro cheio de pedras pontiagudas.
Edelvais se sentia segura com Fernão. Vontade de ficar sob a sua asa , acolhidinha, encolhidinha. Machucada, tinha que esperar, esperar para voar. E tempo para descolar daquele sentimento de desejar aquele príncipe que seduzira seu ser de flor.

Fernão voava sem esforço e ela pensava como ele podia alcançar aquele desempenho... Aprenderia a ser de companhia? De bando? Ouviu um bater de latas, distraiu-se e rolou penhasco abaixo machucando pétalas, caule e corola. Sentiu-se como que penetrando em outro buraco negro. Ainda continuava a se coçar. Poderia sonhar com bater asas, flutuar? Acima, via um céu de tormentas e um corpo movendo-se em sua direção. Era Fernão, que rapidamente firmou o bico na sua haste, bem próxima à corola e a suspendeu no ar.

O espaço de cuidados do Alto Astral. Um local de curar dor de flores. Ascendeu pelo mesmo buraco carregando a edelvais. O Reino das Metáforas teria que esperar.


*
Você leu um trecho do livro A fábula do Cuidador, publicado em  2016, SANA ARTE.


Saiba mais aqui onde poderá adquirir se desejar. Ou solicite pelo nosso contato.
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SINTOMAS DA ALMA


tanta empatia
em um coração cansado
de imagens, tão excesso

são mais profundidades
cada vez em menor tempo
são cada vez mais olhares

dessa vez maior é o medo?

a idade quase no além
possui visões a mais
nas pernas a menos


nas tentativas de controle das horas
do pensamento cada vez mais saber
há valor?

se o antigo desejo de mulher maravilha
era de mãe
e prossegue, criança eterna
a persegue no cotidiano
qual brinquedo de corda


no desejo de cuidar tantos

o permanente esforço para mudar aldeias

no
movimento final das águas
sobrarão sementes
na terra espalhadas.


Marilice Costi
- 2018 - Porto Alegre

12 de ago de 2017

REDES E DIMENSÕES OCULTAS - um olhar sobre Edward Hall e Johh Law

MARILICE COSTI*



Qual a metáfora adequada para definir lugar? Edward Hall[1] definiu na segunda metade no séc. passado, que os territórios poderiam ser íntimos, pessoais, sociais, públicos estabelecendo distâncias para os classificar. John Law afirma que “agentes, textos, dispositivos, arquiteturas são todos gerados nas redes do social, são partes delas, e são essenciais a elas.”[2].
Não é mais nas distâncias que nos reconhecemos espacialmente. Quais distâncias agora a medir? A velocidade nas comunicações - que a informática e os objetos possibilitam hoje descaracterizaram territórios? Mudou o lugar, a noção de posse, o território que passa a ser virtual, um texto no ar, um e-mail, uma página na Internet?  

São as comunicações e as redes se formando, possibilitando que se possa chegar em muitos lugares ao mesmo tempo, dentro e fora do território do outro, agora um equipamento, um objeto a conter informações multiplicadoras a cada minuto. São redes humanas, espaciais, virtuais, físicas, químicas a possibilitar o movimento. Através de e-mails, de webcams rompemos a distância entre o coletivo e o privado? Ou através da Internet nos tornamos mais coletivos e estabelecemos redes, ampliamos passagens e reduzimos caminhos? Que topografia é esta virtual que chega sem pedir licença nem bater na porta, que envolve a vida de forma solitária e ao mesmo tempo é companhia, que amplia o valor da escrita e da imagem?

*Arteterapeuta Especialista e oficineira, Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura, escritora, CEO de CUIDAQUI.com - 2017 - Startup Jovem de IMPACTO SOCIAL SEBRAE/RS.





[1] HALL, Edward. A dimensão oculta. Rio: Francisco Alves, 1977.

[2] Notas sobre a teoria do ator-rede: ordenamento, estratégia, e heterogeneidade. Disponível em < http://www.necso.ufrj.br/Trads/Notas%20sobre%20a%20teoria%20Ator-Rede.htm > Consulta em 26mar2008.

Memórias de Marilice: ASSIM FOI MEU PAI

Demétrio estava acomodado em uma cadeira Gerdau, adaptada às suas condições físicas, e tomava sol. Diferente da cadeira do papai, que havia na mesma saleta onde tantas vezes lhe alcançaram os chinelos e o cobertor. Era um dia muito frio, as pernas estavam enroladas numa manta de lã, calçava meias grossas e um chinelo com pelos de ovelha.  A seu lado, a mulher remendava roupas.
A campainha tocou.
– Lurdes, disse ela, atenda à porta, por favor.
Prontamente, a moça secou as mãos no avental e seguiu pelo corredor. Olhou através do vidro da porta, abriu a pequena janela e disse bom dia aos desconhecidos, ouviu um deles falar e retornou.
– Dona Alice, querem falar com Seu Demétrio.
Ela arrumou a agulha no tecido, colocou o retrós ao lado sobre a almofada do pequeno sofá e dirigiu-se à porta. Quem seria àquela hora da manhã de sábado?
Pela vidraça da porta viu um casal jovem e uma idosa. Então virou a chave e abriu.
– Bom dia, D. Alice. Precisamos muito falar com Seu Demétrio – pediu a mulher. 
Alice abaixou-se para liberar a cremona que travava a porta no piso, puxou a outra superior e soltou a segunda folha da porta, dando espaço para passarem. Com a mão, sinalizou a sala de estar e disse:
– Entrem. Vou falar com ele.
A ampla sala continha um sofá de quatro lugares cor dourada, duas poltronas vermelhas de veludo desbotado, uma mesinha de mármore rosado com pés dourados, o registro de uma escolha feita há mais de quarenta anos.  Quando os viu acomodados, disse:
– Está muito frio, vou pedir um cafezinho. E retornando à saleta, olhou o marido e disse-lhe: É contigo, Demétrio. Atenda... Deve ser importante.
– Não quero falar com ninguém – disse ele. Há tempo não se sentia confortável para atender estranhos, nem queria que o vissem. Fora sempre cuidadoso com sua aparência e agora se sentia decrépito, sabia que a vida lhe escorria. 
Alice retornou à sala, não antes de pedir que servisse um cafezinho bem quente, lembrando-a de, antes do café, colocar água fervendo nas xícaras. O frio da cidade gelava tudo. E completou: se não, o café chegará frio.
Trazendo um pedido de desculpas do marido, não se sentia muito disposto, Alice abriu a conversa.
– Em que posso ajudá-los?




Novamente, a mulher, agora se identificava como mãe e sogra do casal, tomou a frente.
– Anos atrás, quando trabalhávamos na fábrica, Seu Demétrio nos emprestou dinheiro para que comprássemos a nossa casa. Meu marido já faleceu e pediu-me que eu não ficasse sem acertar. Só agora conseguimos juntar tudo. Queremos acertar.
Alice arregalou os olhos, afirmando que ia falar com ele então.
– Demétrio, a viúva quer te devolver o dinheiro do empréstimo que fizeste há anos ao Machado para que comprassem a casa deles. – disse ao chegar à saleta.
– Quem são? – perguntou ele.
– Líria, a mulher do Seu Machado com o filho e a esposa. Lembras deles?
– Não, nem sei quem são. Não preciso do dinheiro, nunca me fez falta. Diga que não me devem nada e podem ir para casa.
Alice transmitiu o recado aos três que ficaram sem palavras. E os acompanhou até a porta. Então lhes pediu que rezassem pela saúde do marido. 


2017.08.12 - Homenagem a meu pai Zeferino Demétrio Costi, pelo dia dos pais.
Saudades eternas.






21 de mai de 2017

21 de abr de 2017

Memórias de Marilice - DIA DE TOMAR SOPA

Arquivo da Família Costi

As noites em Passo Fundo nesta época do ano eram frias. Papai voltava do trabalho e já era noite. O vento corria pelas coxilhas prenunciando a próxima estação, a dos dias gelados. Todos já teriam tomado seu banho, vestido pijama e um robe para se aquecer, meias e chinelos.

Eu, a postos, aguardaria que papai me pedisse para lhe alcançar os chinelos. Ele não me tocaria sem antes lavar suas mãos e me dizer que lavasse as minhas. Depois, dava um toque no meu rosto com leveza e ia conferir as portas da casa. Então pediria para que Alice lhe alcançasse os pijamas e iria para o banho. Faria a barba se valesse o investimento na noite.


Quando ele se dirigisse ao rádio para ligar na Guaíba e ouvir as notícias, Mamãe diria:
- Hora de por à mesa! - e conferindo se nada estava faltando, diria baixinho: Teu pai gosta de sopa quando a noite é fria. Veja na cozinha se o pão já está quentinho e avise que já podem servir.


E todos nos encontrávamos naquela mesa, primeiro com a oração, lembrando também dos ausentes, enquanto a sopa pronta a fumegar fazia o caminho. Então, primeiro papai era servido e nós aguardávamos a ordem seguinte na passagem dos pratos conforme a hierarquia, sempre antes de Mamãe.


Tempo de futuros e de mais certezas.




Memórias de Marilice Costi, 21/04/2017

21 de out de 2016

Livro: GATILHO NAS PALAVRAS - Marilice Costi - 2012

 


Paroles, palabras, palavras... 
Gatilhos nas palavras... atilhos no afeto. Palavras ao vento, no coração, letras que se conectam ou desconectam à distância, vivas ou mortas?
O tempo, o real, o imaginário. O lugar. Vida e morte. Morte e vida! O amor.



Opinião de Leitores:


Querida Marilice
Ao ler teu livro "Gatilho nas palavras", minha atenção foi imediatamente catapultada para dentro de um jaquard de tricô em cores fortes como vinho tinto, o verde das folhas escuras, terra, céu e água.
A leitura me consumiu em quatro horas de encantamento penetrando na coragem espantosa de uma escritora que parece fazer strip-tease emocional com o ritmo e a densidade de uma dançarina do ventre.
Invejável o teu talento para despir o ser humano e mostrar como é possível se desapegar graciosamente das malas e das marcas que um relacionamento sempre deixa.

Adorei as comparações, as metáforas, a descrição nua e crua de sentimentos de tantas mulheres.


Fiquei comovida com a empatia que o teu texto me proporcionou.
Amei!




Patrícia Torres, RP
Porto Alegre/RS 

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Marilice,
Tive que escrever pra ti assim que li as dez primeiras páginas do teu livro Gatilho nas Palavras. Está ótimo! Ao nível das poesias do Ressurgimento.
Nossa! Eu sabia que já eras escritora, mas cresceste muito. Parabéns!
Deves concorrer a todos os prêmios possíveis!

Terezinha Becker,
psicóloga e ceramista

Porto Alegre/RS

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 Querida!
Recebi os 5 volumes  do "Gatilho nas palavras" que encomendei.
Vou dar alguns presentes e fazer propaganda.
Li teu livro e reli alguns capítulos. Achei poesia pura e fiquei emocionada.
Eu estou gostando muito.
Desejo que vendas muito.
Felicitações!

Neusa Jung Fer
reira,
pedagoga aposentada
Passo Fundo/RS

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(G)atilho nas palavras
No livro (G)atilho nas palavras, de Marilice Costi, o personagem masculino usa Darwin para justificar sua galinhagem: homens têm grande quantidade de esperma para espalhar seu sêmen e povoar o mundo, mulheres possuem poucos óvulos e vida sexual curta. Esse tipo de homem esquece que Darwin também concluiu que as espécies evoluem, modificando seu comportamento para se ajustarem às novas condições ambientais, ou sócio-ambientais, no caso humano. Ele parou no tempo. O mundo já está super-povoado. As mulheres estão independentes, praticam sexo por puro prazer, a procriação passou a ser ato de vontade. Além de contarem com reposição hormonal e anticoncepcional, atualmente nem precisam da presença do macho para engravidar, embora dependam de seu sub-produto. Por seu lado, a personagem feminina, recém-separada de um marido fraco, apesar de empresária e financeiramente bem posicionada, está carente e fixada em formar um novo par. Focalizado nos processos de comunicação entre as partes, o livro retrata o momento de pessoas de meia-idade perdidas entre duas gerações, mantendo algumas atitudes conservadoras enquanto transitam na modernidade, desorientadas por duas revoluções ocorridas no século passado, o feminismo e a informática. Estes movimentos resultaram decisivos para os relacionamentos interpessoais, pois influíram nas instituições, no trabalho, na cultura e na política, bagunçando os valores e os papéis tradicionais, o que transparece no enredo da novela. Vivemos uma época de transformações rápidas, onde, usando a metáfora da autora, o atilho estica para depois se soltar num gatilho, e, segundo Darwin, só os que se adequarem, os mais fortes, sobreviverão.

R.Novaes-Bueno, jornalista
Porto Alegre/RS, 17.01.12

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Recebi teu livro. Li. Reli boa parte, já fiz um comentário no Facebook e publiquei uma foto da capa este fim de semana. 
O livro está muito bom! Aliás, já te disse, sem babação, que a maneira tua de escrever é algo único. Maravilhoso. O livro é diferente. Impossível largar depois que se começa.
Acho que ainda teremos muito boas notícias desse romance.
Tive um ataque de rir quando você descreve e faz considerações a respeito da cerveja  devassa. Ninguém faria uma análise mais verdadeira.
Curti muito e ainda estou curtindo.
Um grande abraço e parabéns mais uma vez.

Dilamar Santos, artista plástico
Florianópolis/SC
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Trecho do livro. Deguste!

A mesa de jantar está uma confusão organizada. A latinha vazia de tônica diet, a capa do disco, a lapiseira, a caneta, o óculos , os papéis para o dia seguinte, a xícara com restos de café, o molde para desenhos geométricos, o relógio de pulso virado para baixo e mais papéis, muitos papéis, entre eles, a folha de jornal com dicas de cursos e um livro do Vygotsky, para onde Lea se direciona ultimamente.
Os sons a abraçam e ela não se sente mais tão só. Qual a diferença agora? O gaveteiro e o guarda-roupa esvaziados? O retorno à vida. Volta a escutar o som do ventilador quando os acordes cessam e a agulha passa a ir e voltar no mesmo sulco. O defeito. Assim como funcionam as coisas velhas. Lea vai até o tocadisco e move o braço da agulha para o descanso. Alguns insetos batem-se nas paredes seduzidos pela luz da lâmpada dicroica que projeta desenhos no teto como um caleidoscópio. Abelhas? Uma sinapse num tempo que passou. Uma abelha. A abelha. Aquela abelha rainha... rsrsrs, expressou no rosto o que escrevia na internet. Rafael! Era como ele se chamava. Onde andaria aquele gringo dos pampas? Quanto tempo! A tira do Quino é um xerox amarelado. Ali, o cartunista mostra o trabalho incessante daqueles insetos... estaria em algum lugar. Trabalham para nosostros. As abelhas... De graça. Lea acha graça. São boas as recordações daquele rapaz que a fizera rir tanto! Não as de chorar quando se retirou de sua vida. Águas passadas. Outro clichê. No ônibus de volta ao Rio Grande do Sul, ela se esvaiu por oito horas. Rafael estaria vivo? Casado? Vá, Lea! Força! – lembra Milton Nascimento em Maria, Maria. Teste sentimentos. Há quanto tempo só!
Desiste do velho amor e vai ao novo, recomeça, enfrenta a incerteza comum aos separados.
E sai de dentro dela: Outro? Ouve a própria voz ressoar entre os poucos móveis da sala. A palavra cúmplice porque verdadeira perpetua-se na sala fazendo companhia ao buquê com um olhar vesgo para Lea. O som daquela palavra a esmo ficou por ali junto dessas flores a exalarem cheiro de velório. A metáfora! Onde Lea mergulhou para poder compreender o motivo de não ter tido flores no tempo de antes. O tempo de Jonas.
Lea a ter que exorcizar. Precisa compreender aquele amor nas palavras. Nos fios, nos atilhos, nos atalhos, a ter que compreender o gatilho. Então muitas linhas a se desenovelarem e a bus- carem direção passaram a compor letras emendadas, as pal
avras passaram a encontrar leito nas alvas folhas de papel que, uma a uma, foram sendo empilhadas ao lado do vaso de cristal, onde as flores, ainda embrulhadas em celofane, tinham sido acolhidas.

(...) 
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29 de mai de 2016

Memórias de Marilice: MEU TIO DAVID (in memoriam)

Eu tinha medo de publicar meus primeiros poemas, entre eles, muitos considerados eróticos (era década de 80!), para familiares como ele. O que diriam de mim? E comentei com José Edil de Lima Alves, crítico literário, jurado no Concurso Nacional de Contos Mário Quintana, quando recebi o 1º lugar por um conto. Ao voltarmos do evento lá no Alegrete, numa viajem chuvosa de sete horas, também na companhia do poeta homenageado (fumante sem parar dentro de uma Kombi da Prefeitura de lá), José Edil me pediu se eu tinha mais textos e que gostaria de ler o que eu escrevera até então. Então lhe entreguei os poemas, depois de ter uma conversa sobre o trabalho que eu teria para ser escritora (os tais 95% de transpiração). Sua leitura cuidadosa me daria ânimo para publicar um primeiro livro, de poesia. Insegura na hora, comentei que não saberia enfrentar o olhar crítico de minha família. Naquele tempo não se publicava sobre erotismo como hoje. Edil me indicou a leitura da Bíblia, os poemas de Salomão no “Cântico dos Cânticos”. E com isso ganhei coragem. 

O livro “Mulher Ponto Inicial”  foi publicado pela Editora Movimento e recebi cartas de muitas pessoas, o que me causou surpresa, mas o surpreendente foi comparecerem 90 pessoas no lançamento, entre elas, tio David, que era tanto católico quanto futuro petista. Lia muito, pensava muito, argumentava com classe. Ele teve doze filhos com a parceira de vida, a querida tia Domingas. Companheiros, eles foram os primeiros a chegar na Casa de Portugal, local do lançamento.





Esse tio, irmão de minha avó materna, foi uma pessoa marcante em minha vida, meu cuidador. Era homeopata e olhava para as pessoas sempre sorrindo e, desta forma, penetrava em mim profundamente. Perguntava como eu me sentia, como ia a minha vida, o que andava fazendo, se andava irritada, deprimida, quais os meus alimentos preferidos e indesejados, os meus desejos e sentimentos. Então olhava aquele livrão de lá para cá e de cá para lá. E de repente, fechava aquele monstro pesado com o barulho dos livros dicionários e saia do consultório. Voltava pouco depois com suas poções mágicas. Pacotinhos muito pequenos com pozinhos brancos, que ele mesmo preparava: o meu medicamento homeopático.

Tio David comprou um exemplar do Mulher Ponto Inicial, escolheu um lugar para se acomodar entre os livros e ficou folheando o livro. Depois comprou mais dez. Fiquei feliz, mas muito curiosa. O que pensara sobre meus poemas? Ele conhecia a Bíblia onde lemos sobre os seios como taças para acolher o vinho... Passou o tempo todo sorrindo (o seu normal) e me observando. E nunca comentou meus poemas, apenas se fez presente em todos os demais lançamentos de meus livros (Clichês domésticos, Como controlar os lobos?) sempre adquirindo mais de um exemplar. 

Seu sorriso marcou a minha vida, talvez por isso eu me identifique tanto com ele, porque gosto muito de sorrir. Hoje ele estaria muito triste, indignado com a nossa política, mas teria algo a mais para me dizer, como por exemplo: estamos num outro ciclo, seria bom implodir o Congresso Nacional... no entanto... diria algo otimista... teria algum alento para mim.


Como era bom quando vinha me visitar! Sempre vestia terno e gravata, usava chapéu. Com os dentes sempre à mostra, ele trazia a alegria da aceitação dos caminhos. Eu, saudosa de meus pais, ficava com o coração amanhecido a pássaros. Tão raras as visitas de parentes atualmente...

Sua risada era marcante nos velórios. Isso mesmo! Risadas baixas e contidas muitas vezes. “Psiu! Estamos com o morto ao lado e ele poderá acordar! Hehehe...” Apesar de ter surdez, como outros irmãos, ele se fazia entender muito bem (e cursara Medicina após os 60 anos para continuar a exercer a Homeopatia). Eu tentava sempre ficar perto, considerava as conversas masculinas sobre filosofia e política, mais interessantes que as das mulheres de forno e fogão. “A morte encerra o período de convivência com aquele que está ali ao lado e nós estamos vivos”, dizia. Sempre valorizando a vida.

Meus lutos não costumam durar muito. Deve ser por aprender sobre a vida de quem fica e porque minha mãe, quando me via chorar desesperadamente pela morte de algum de meus animais de estimação, dava-me outro, não suportava meu desespero. Tive terapeutas que afirmavam que não eu não sabia lidar com as perdas. História! Nada disso! Aprendi a lidar com perdas sim! Aprendi que a vida continua e que é um ciclo. Por isso, falo da morte com tranquilidade e surpreendo com isso. Poderei chorar um dia inteiro de dor, mas sairei daquilo. Acho mais difícil administrar a dor física contínua do que a dor do nunca mais.
Os seus irmãos Mário e Ermínio juntavam-se a ele logo ao chegar ao cemitério. Tio Mário tratava de pessoas utilizando pêndulos e fotografias. E eu achava aquilo hilário. Ele se irritava com as minhas dúvidas quanto à sua seriedade, com as gozações do irmão David... Tio Ermínio ria junto. Entre os três, na religião era o mais conservador. Mas tudo virava em brincadeiras sempre do lado de fora da capela, onde as pessoas abraçavam quem chegava e despediam-se de quem ia ser visto no próximo casamento ou em outro velório.

Ali também foi o lugar da farra dos irmãos. Tínhamos às vezes que conter o riso ao levar um pito de alguém presente. E tio David dizia: "Ele está morto...não escuta..." Eles tinham uma peculiaridade, pois quando não queriam ouvir alguém, mostravam o aparelho auditivo nos ouvidos e diziam, "não estou ouvindo bem".

Todos sabiam que aqueles irmãos eram da pá virada. Óbvio era que aqueles enterros não eram de uma pessoa muito próxima.
O que se percebia ali era mais do que o momento para atualizarem as brincadeiras, pois tinham sempre motivos para rir, podia ser do morto ou de algo que viveram juntos, de muitas coisas mais. Era na verdade a alegria pelo reencontro.

Eu, jovem, no meio dos homens das piadas, ficava no mínimo esquisito. Meu pai eventualmente me chamava, era mais sisudo e em locais como aquele, não admitia rir assim. Eu achava sem graça a conversa das mulheres e preferia ficar longe do morto. Além disso, as piadas quebravam o gelo das longas esperas antes do enterro.

Deve ser por esses motivos que desde então passei a valorizar os velórios, pois é quando as histórias são contadas, onde se conhece a vida das pessoas. Lugar do reencontro de abraços e lembranças, de calor humano tantas vezes necessário em nosso cotidiano. Lugar de saber quem casou, quem teve filhos, como cresceram!... por onde andam, tanto que as famílias grandes se perdem por este mundão. 

Eu já estava com esta ideia em relação aos velórios quando escrevi o conto premiado? Creio que não. O conto "Convite para a Missa de 7º Dia" foi um título que saltou do jornal. 
A história era real? O conto registrou parte de minha vida na capital, minha dor e eterna saudade que eu viria a ter do Dr. Celso Aquino, meu querido neurologista desde os meus três anos. E que tanto me acolheu.

Foi tão bom ganhar seus abraços, o olhar carinhoso e os cuidados, que dedicava à menor da Alice, sua sobrinha e minha mãe. 

Não esquecerei o que mais me foi caro em nossa amizade: o seu sorriso, a sua escuta atenta, o seu acolhimento, hoje misturados à minha eterna saudade. 

Escrito por Marilice Costi em 29/05/2016


28 de mai de 2016

CONVITE
04/06/2013 - 18h30 - Teatro Dante Barone - Assembleia Legislativa do Estado do RS
Recebi este convite e o faço a vocês! O evento é público.

Tenho orgulho de estar nesta Coletânea de Poetas Gaúchos do Rio Grande do Sul. E muita alegria por compartilhar o mesmo livro com muitos amigos e amigas poetas. Vai ser uma festa. Venha comemorar conosco este trabalho coordenado por Dilan Camargo. Sou grata aos organizadores, ao editor Carlos Appel, da editora Movimento que me ensinou a cuidar do poema. Aos meus leitores! Sem eles, certamente eu não chegaria até aqui. Mas uma pessoa foi realmente especial, pois foi quem leu os originais pela primeira vez e me disse: tens que publicar. Daí eu questionei, como? São poemas eróticos (estávamos na década de 80!) e minha família é muito religiosa. Não quero magoá-la. E ele me convenceu: Ora, leia o Cântico dos Cânticos na Bíblia. Quer mais erotismo do que o que tem lá?
Foi assim que a coragem surgiu, Jose Edil De Lima Alves. Ainda tenho guardadas suas anotações naquela data.

Obrigada a todos!
A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama.
Carl Jung

8 de mai de 2016

Memórias de Marilice: AS BOLSAS DE MINHA MÃE

Alice Sana Costi recém terminara o curso de Corte e Costura quando casou com meu pai. Fez o próprio enxoval, exposto no dia da formatura. Exibia a foto com orgulho pelo tanto que tinha trabalhado e pelas coisas lindas que tinha inventado.
Era também professora primária, mas papai pediu que parasse de lecionar, pois ela seria muito necessária na administração da casa e na vida familiar futura. 


As costuras
Nossas roupas e as coisas com tecidos da casa eram feitas por Mamãe. Ela comprava todo necessário. As lojas ficavam longe da nossa casa e ela precisava de uma lista de itens porque não poderia voltar depois para trocar ou buscar algo que faltasse. Muitas vezes, estive junto no balcão da loja, o comércio de tecidos dos judeus no centro da cidade e a observava.
Quando ela escolhia o material, ela imaginava o que faria e havia prazer em seu olhar ao escolher a cor para combinar com os olhos da filha ou com o tipo mais alta ou mais baixa, mais magra ou mais gordinha. Percal para os lençóis, linho para roupas, lã, algodão, seda, cetim e o poliéster, que com o tempo se percebeu que era fácil para passar, mas que pegava uma asa... ninguém aguentava o fedor. E como era difícil retirar aquele encruado.
Em nossa casa nada era colocado fora. Não havia consumismo. Havia sustentabilidade sem que nunca tivéssemos dito esta palavra. Economizava-se em tudo. 
Alice poderia comprar vários metros e, vez ou outra, talvez a peça toda para regatear no preço. Às vezes, mudavam os planos. O tecido não era adequado para a pessoa ou para a utilidade que buscava. E o que era para ter sido lençol do casal, papai não quis. E assim o tecido ia para a prateleira das roupas a reformar. Logo a tesoura passaria por ali transformando lençol em chambres para as meninas e para ela.  
As roupas ficavam perfeitas durante muito tempo, pois eram cuidadas no lavar, não havia máquinas, raramente ficavam manchadas. Para criar novas peças havia um processo: desmanchar com cuidados todas as costuras, lavar e passar para assim utilizar ao máximo. E com as sobras, ela costurava calções para os netos e, finalmente, roupas para as bonecas das meninas. E assim, entre cortes novos e roupas desfeitas, ela seguia as suas artes. 
Eu acompanhava seu trabalho muitas vezes após os temas escolares e ficava ao seu redor pedindo que inventasse coisas para eu fazer, minha hiperatividade não permitia paradeiro. Em algumas tardes, ela ia descansar e me fazia dormir contando histórias. Outras, ela pedia que eu enrolasse os carretéis com linhas de muitas cores, organizasse as gavetas da máquina de costura.


Lembro-me de sua régua de costura, dos moldes em papel de pão, dos gizes e da tesoura de picotar, que ficou comigo após sua morte. Eu aprendi a selecionar cada coisa devido à sua importância e uso: agulhas, botões com seus tipos e tamanhos, linhas especiais, elásticos e a tesoura, que sempre deveria estar no mesmo lugar. Meus pais detestavam precisar dela e não encontrar rapidamente. Cada coisa precisava estar sempre em seu lugar! 
Os godês eram pra matar! A marcação das barras dos vestidos era uma tortura, pois eu tinha que interromper o que eu fazia para passar tempos intermináveis descalça sobre a mesa da sala a rodar lentamente. Ela media e media para marcar com muitos alfinetes em carreirinha a dar direção da dobra para a barra ser marcada, cortada proporcionalmente e receber o ponto certo de costura.

Trabalhos de Alice (manta) e casaco com apoio da costureira Délia.
Tudo tinha que ser perfeito. Se não estivesse dentro do seu nível de exigência, ela desmanchava e refazia. Diziam que a sua costura interna, a dos arremates, devia ser tão bem feita quanto a externa. Tanto que cuidava da qualidade dos seus pontos: mesmo tamanho, mesmo desenho, mesmo final com o nó correto para não descosturar. O arremate. E tudo sempre bem alinhavado para não errar a costura final.
Com três filhas meninas, mulher de empresário, precisavam todos estar sempre impecáveis. E na moda! Ainda mais na missa das dez de domingo.
Quando viajava a Porto Alegre, passava vistas às vitrines da Casa Louro e comprava burdas, que traziam a moda europeia de cortes firmes e marcados do estilo alemão ou outras revistas que comprava na Galeria Chaves, na revistaria ao descer a escadaria seguindo em direção à estação dos bondes na Praça XV, a do Chalé.

Ela organizava o quartinho da costura com certa frequência e sempre encontrava pilhas de roupas para reformar e os retalhos de tecidos grossos, sobras de roupas de inverno ou de pernas de calças jeans. Jeans era fácil, pois conseguia fazer shorts para os netos usarem na praia.

A sustentabilidade
As filhas casaram e os netos cresceram. As sobras passaram a lhe incomodar. Certo dia, uma nova invenção: sacolas para ir à feira. A utilidade era fundamental em suas artes. Naqueles tempos, não eram fornecidas as sacolas que passariam a ser um problema grave ambiental. Tudo era colocado em caixas ou embrulhado em papel Kraft. Sacolas de tecido seriam úteis para muitas coisas e também para buscar pão.
Mas com o tempo, as sacolas sobravam. Além disso, havia recortes de tecidos muito bons e que não poderiam ser usados dessa forma. Um dia, eu estava em sua casa e ela colocou os tais retalhos dos quais queria se livrar sobre o grosso oleado de proteção da mesa de refeições.

– Vou ter inventar alguma coisa com isto. Me incomoda encher os armários com coisas sem uso – e olhou para mim, sorridente e apreensiva... Era seu momento de prospecção... algo ocorreria. Começava riscando em qualquer papel e logo passava a mão na trena, fazia os moldes e começava a assobiar observando se o seio direito estava com os alfinetes que viria a precisar. 
Mamãe tirara o seio aos 37 anos e usava uma prótese de silicone que enchia o soutien, parece uma teta de verdade, ela dizia sorrindo. Papai mandara buscar na Alemanha substituindo um enchimento com meias de nylon furadas que ela fazia. A prótese para o soutien era sua almofada para por os alfinetes.
Então, Fiat lux!
 – Se eu fizer bolsas, tu usarias? – e olhou para mim aguardando resposta.
Eu parei para pensar um pouco...
– Depende, mãe, se não for muito esquisita para minha idade... – eu não gostava de coisas com “cara de adultos”... Naquele tempo, não se dizia a palavra idoso com a importância que se diz hoje.
Alice passou a se divertir compondo pedaços que combinavam entre si, degradês, muitos modos. E criou também diversas alças algumas de macramê. Ficaram lindas. Era moda usar tecidos, roupas de jeans, coisas diferentes.
As bolsas fizeram sucesso na família e com os amigos. E ela passou a presentear as pessoas. Eram realmente únicas!
Nós, as filhas, ficamos com as mais singelas, pois as melhores ficavam separadas para dar.


Seguimos nossas vidas sem nos darmos conta de tantos ensinamentos de Alice apenas no fazer aquelas bolsas.
Lembro especialmente hoje, no dia das mães. Não eram bolsas quaisquer. Eram as “bolsas da minha mãe”, uma mulher avançada em seu tempo, que tinha tudo para ser estilista de modas, uma empreendedora e nunca deixou de ser professora. Ensinava bordados, crochê, tricô, alinhavos, arremates a qualquer pessoa que quisesse aprender. Todas as pessoas que passaram pela nossa casa confirmarão isso. Bastava quererem aprender, que ela se dedicava.
Esses seus valores foram distribuídos entre seus descendentes.
Eu? Fiz apenas um vestido na década de 80, que não tenho coragem de me desfazer. Foi um trabalhão. Nem acredito que passei tantas horas fazendo tanta coisa à mão. Usei só uma vez em uma festa.



Só agora, sendo arteterapeuta, o vestido passou a ter novo sentido. Com capuz, com gregas com dourado, ele foi feito a bruxa das artes e dos cuidados... “Porque las brujas hay! Hay!” As bruxas da vida. As bruxas do cuidado. E isso tudo eu devo à minha mãe.