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28 de jul. de 2018

Baril no MARGS, a arte viva do desconforto

Impossível visitar a exposição de Baril´70 anos em nosso MARGS sem sair desconfortável e repleta de dúvidas.
De alta qualidade técnica, as imagens penetraram em mim. Devo tê-las ruminado durante o sono na noite que passou.
Confesso que tive dificuldade para entender as suas composições repletas de metáforas. No entanto,  tocaram-me profundamente, Cumpriram-se.

A arte, tempo sim, tempo não, considerada necessária ou de valor social, apenas técnica ou registro de época, sem sentido ou com todo sentido, ou em outro modo de a enquadrar, é, a meu ver tudo isso e mais ainda, ela me cuida.
A arte, de nada serve se não mexer conosco, atuando em nosso interior, em nosso crescimento, na compreensão de nós mesmos e do mundo. Fundamental para que saiamos do sofá frente à tevê ou de nosso celular de visão diminuta como nos mostra um dos quadros de Baril, a arte provoca. E é o que sentimos todo o tempo enquanto procuramos, em suas pinturas, os desvelamentos!
Meu desconforto de ontem, hoje tomou rumo. E mais desconfortos virão.
Sinto-me representada naquele universo que o artista retrata, em suas pinturas em técnica impecável e total domínio expressivo, nos quadros que aguardam nas três salas da Pinacoteca do nosso Museu de Artes.
Um encontro com o desconforto?
Quem não se percebe “desrepresentado” nesse ciclo obscuro em que vivemos no Brasil e no mundo, e que, a meu ver, são tempos de horror e de descrença?

Pois Baril, esse artista consagrado - cujas obras conheço desde os meus releases na Galeria Cambona - traz também loucura e desesperança.

Na minha visita à exposição, encontrei mais de trinta pessoas do Instituto Pertence observando as obras, em ato inovador e transgressor. Imediatamente, comparei com outra de minhas visitas. Foi perto do Natal. Alunos de uma escola municipal metropolitana passaram de costas para os quadros, sob o controle da professora, a estupidez resultante do controle político de exposições em Porto Alegre.
Composição representativa de nossa dificuldade psicossocial, que nos desloca do nosso centro em meio a tantas violências e contradições, me sinto no olho do furacão.
Estou em um período próximo e similar à Queda da Bastilha? ou na Idade Média em um dos quadros de horror de Bosch?

Lembrei do que aprendi há décadas e do qual ninguém mais fala. Em meio a qualquer turbilhão, em qualquer depressão profunda, em qualquer país que afunda, no mundo dos medos, algo se prepara para nascer. Algo se encontra a caminho. A síntese vem se construindo.
Onde ficou nossa capacidade de compreender o mundo através da dialética? Isso é perigoso?

Vivemos a antítese do bem-estar, a antítese da boa política, a antítese do valor à vida.

No entanto, assim como se pode perceber em uma imagem arteterapêutica de uma mãe que atendi, o caminho para a saída já existe, as marcas estão por aí. Não está na hora de vermos esses caminhos e trazer a esperança aos mais novos?

Vamos encontrar o fio de Ariadne e seguir com nosso trabalho, persistentes e com fé.



Agradeço ao MARGS e ao curador da amostra de 70 anos do artista, por nos proporcionar essa exposição, capaz de mexer com nossas entranhas, para a qual é preciso ir liberando nossa mente para que nos auxilie a encontrar uma saída no labirinto que prazerosamente nos perdemos.

24 de jun. de 2018

Da falta de abraço

esbaforidos desejos em tempo de viver
a antimortandade em escondido compreender
sentido na vontade de correr pras malas
e não conter as asas de vôo e de prazer

lavado olhar escorre em ressecado tempo
mistérios de interiores em mapas astrais
agrega aroma em conto enluarado
nas arcas sementeiras de edelvais

ao encontrar e atiçar receios
sutil é a forma de esculpir as artes
tormenta revolvendo o próprio espelho
e lábios memoriais que se repartem

há valsas de acordar cidades invisíveis
e a vez de um tempo a descontar ausências
acordes fervilhando em peles vivas
compõem em mãos centelhas de desenhos

nos temporais em vozes emendadas
no andar da noite em vendaval lamento
é abrir-fechar de portas lapidadas
comum esforço em longo experimento

em ondas de amor tinto estão os barcos
que alinham rotas em portais de espera
em tanto entardecer poesia pura
aonde os lagos que carregam velas?

*
Marilice Costi - set 2008

27 de fev. de 2018

A vida traz novos planos - Marilice Costi

Ultimamente, a gente não se dá o direito de ser feliz ouvindo música com disco de vinil num meio de tarde. Nem "perder tempo" olhando as flores em um jardim. Estar na vida contemporânea é uma coisa desvairada. Ter consciência dói. 

Eu ja quis ser uma louca sentada na calçada fora do mundo do meu lar! Era a década de 70 e essa imagem me perseguiu até que mudei meu olhar e passei a querer lhe dar a mão.  

Marilice Costi - 2019

27 de jan. de 2018

A Fábula do Cuidador - Edelvais e o professor de voo




Abaixo, você tem um capítulo do livro da imagem. 
Boa Leitura!




Edelvais estava ansiosa. Caminhos novos. Pensou no Tratado Interplanetário dos Cuidados de flor. No direito a carinhos.

A fala do Príncipe permanecia em sua memória:
– Você é uma sonhadora. Ora, tirar raízes e querer voar? Comigo não! Sou quem faz acontecer, não viu meus feitos de norte a sul? Você, com suas estrelas furadinhas, não sabe do inútil? Você rouba meu tempo de fazer castelos. Ah, se as chamas dos flamejantes lambrequins apontando para o céu e impedindo lágrimas fossem reais! Aquele olhar molhado que você viu certo dia de partir era mea culpa por ter a alma misturada em perfumes de flor. Alergias! E depois, o que faria eu com você pela Via Láctea? Não posso cumprir desígnios que não são meus com um tipo de flor cujo aroma me dá náuseas!

A flor buscava a afinidade perdida, a ternura que só existe quando há compaixão. Ele dera boa noite e saíra batendo lata. Com pernas feitas para subir rochedos, fortes para colher edelvais, tinha-as machucadas por causa da armadura. Mas centrado em desejos de enricar, não sentia aquela dor. Sem mais delongas, o Príncipe desapareceu no buraco negro.

Talvez fosse importante aquilo. Distâncias de coração. Tinham compartilhado memórias antigas e assustaram-se com tanto interior comum. Daí que era melhor mesmo ter aquela lataria protetora de flores.

Onde encontrar a luz para ajudá-lo a romper engates de armadura? Ele desejaria se livrar daquela carga errante? O Óbvio fazia falta, o ser de cura sutil. As ervas medicinais!

O tom de voz raivoso e em espumante tempo, aquela flor carregou ainda depois da partida dele. O coração parecia estilhaçados cristais, mas ela conteve o choro. Não podia perder a água necessária para seguir caminhos.
O que tinham em comum? Ele era de abandonar, tinha lhe avisado. Ela acreditava no amor e continuava no ato de cuidar-se. Desistiria? Utopias de viver. Sem elas, não sabia viver. Era de voos. Mas queria colo.

Príncipes doentes de amor não seriam todos naquela galáxia. Desconcertada, ela desejou a redoma. Mas não tinha mais raízes para voltar.

Fernão a esperava no penhasco próximo da porta principal do Reino das Metáforas. Ao vê-lo, a edelvais sentiu a corola como um bambolê em movimento e flutuou no ar. Subiu meio metro. Lembrou-se dos lambrequins e ... leia mais no livro impresso. Solicite aqui.  


*
Você leu um trecho do livro A fábula do Cuidador, publicado em  2016, SANA ARTE.

Solicite pelo nosso contato ou pelo site das publicações no Sana Arte.
www.sanaarte.com.br/publicacoes



Sintomas da alma


tanta empatia
em um coração cansado
de imagens, tão excesso

são mais profundidades
cada vez em menor tempo
são cada vez mais olhares

dessa vez maior é o medo?

a idade quase no além
possui visões a mais
nas pernas a menos


nas tentativas de controle das horas
do pensamento cada vez mais saber
há valor?

se o antigo desejo de mulher maravilha
era de mãe
e prossegue, criança eterna
a persegue no cotidiano
qual brinquedo de corda


no desejo de cuidar tantos

o permanente esforço para mudar aldeias

no
movimento final das águas
sobrarão sementes
na terra espalhadas.


Marilice Costi
- 2018 - Porto Alegre

12 de ago. de 2017

REDES E DIMENSÕES OCULTAS - um olhar sobre Edward Hall e Johh Law

MARILICE COSTI*



Qual a metáfora adequada para definir lugar? Edward Hall[1] definiu na segunda metade no séc. passado, que os territórios poderiam ser íntimos, pessoais, sociais, públicos estabelecendo distâncias para os classificar. John Law afirma que “agentes, textos, dispositivos, arquiteturas são todos gerados nas redes do social, são partes delas, e são essenciais a elas.”[2].
Não é mais nas distâncias que nos reconhecemos espacialmente. Quais distâncias agora a medir? A velocidade nas comunicações - que a informática e os objetos possibilitam hoje descaracterizaram territórios? Mudou o lugar, a noção de posse, o território que passa a ser virtual, um texto no ar, um e-mail, uma página na Internet?  

São as comunicações e as redes se formando, possibilitando que se possa chegar em muitos lugares ao mesmo tempo, dentro e fora do território do outro, agora um equipamento, um objeto a conter informações multiplicadoras a cada minuto. São redes humanas, espaciais, virtuais, físicas, químicas a possibilitar o movimento. Através de e-mails, de webcams rompemos a distância entre o coletivo e o privado? Ou através da Internet nos tornamos mais coletivos e estabelecemos redes, ampliamos passagens e reduzimos caminhos? Que topografia é esta virtual que chega sem pedir licença nem bater na porta, que envolve a vida de forma solitária e ao mesmo tempo é companhia, que amplia o valor da escrita e da imagem?

*Arteterapeuta Especialista e oficineira, Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura, escritora, CEO de CUIDAQUI.com - 2017 - Startup Jovem de IMPACTO SOCIAL SEBRAE/RS.





[1] HALL, Edward. A dimensão oculta. Rio: Francisco Alves, 1977.

[2] Notas sobre a teoria do ator-rede: ordenamento, estratégia, e heterogeneidade. Disponível em < http://www.necso.ufrj.br/Trads/Notas%20sobre%20a%20teoria%20Ator-Rede.htm > Consulta em 26mar2008.

Memórias de Marilice: ASSIM FOI MEU PAI

Demétrio estava acomodado em uma cadeira Gerdau adaptada às suas condições físicas e tomava sol. Era diferente da cadeira reclinável, que anteriormente existia na mesma saleta perto da mesa das refeições, onde tantas vezes descansara após o trabalho.
Era um dia muito frio como aqueles em que pedia um cobertor para cobrir-se na sesta. Suas pernas estavam enroladas numa manta de lã, calçava meias grossas e um chinelo forrado de lã de ovelha.  Ao lado, sua mulher há mais de 50 anos remendava roupas.
A campainha tocou e ela moveu-se para soltar a roupa com a agulha fincada no tecido perto do alinhavo, mas desistiu.
– Lurdes, disse ela, atenda à porta, por favor.
Prontamente, a moça secou as mãos no avental e seguiu pelo corredor. Olhou através do vidro da porta, abriu a pequena janela e disse bom dia aos desconhecidos. Um deles lhe respondeu e então retornou à saleta.
– Dona Alice, querem falar com Seu Demétrio.
Ela então acomodou a agulha no tecido, colocou o retrós ao lado sobre a almofada no assento do pequeno sofá e dirigiu-se à porta. Quem seria àquela hora da manhã de sábado?
Pela vidraça da porta viu um casal jovem e uma idosa. Então virou a chave e abriu.
– Bom dia, D. Alice. Precisamos muito falar com Seu Demétrio – disse a mulher. 
Alice abaixou-se para liberar a cremona que travava a porta no piso, puxou a outra superior e soltou a segunda folha da porta, dando espaço para passarem. Com a mão, sinalizou a sala de estar e disse:
– Entrem. Vou falar com ele.
A ampla sala continha um sofá de quatro lugares cor dourada, duas poltronas vermelhas de veludo desbotado, uma mesinha para o abajur, de mármore rosado com pés dourados, o registro de uma escolha feita há mais de quarenta anos.  Quando os viu acomodados, disse:
– Está muito frio, vou pedir um cafezinho. E retornando à saleta, olhou o marido e disse-lhe: É contigo, Demétrio. Atenda... Deve ser importante.
– Não quero falar com ninguém – disse ele. Há tempo não se sentia confortável para atender estranhos, nem queria que o vissem. Fora sempre cuidadoso com sua aparência e agora se sentia decrépito, sabia que a vida lhe escorria. 
Alice retornou à sala, não antes de pedir que servisse um cafezinho bem quente, lembrando-a de, antes do café, colocar água fervendo nas xícaras. O frio da cidade gelava tudo. E completou: se não, o café chegará frio.
Trazendo um pedido de desculpas do marido, não se sentia muito disposto, Alice abriu a conversa.
– Em que posso ajudá-los?




Novamente, a mulher, agora se identificava como mãe e sogra do casal, tomou a frente.
– Anos atrás, quando trabalhávamos na fábrica, Seu Demétrio nos emprestou dinheiro para que comprássemos a nossa casa. Meu marido já faleceu e pediu-me que eu não ficasse sem acertar. Só agora conseguimos juntar tudo. Queremos acertar.
Alice arregalou os olhos, afirmando que ia falar com ele então.
– Demétrio, a viúva do Machado quer devolver o dinheiro do empréstimo que fizeram contigo para comprarem a casa deles. – disse ao chegar à saleta.
– Quem são? – enfatizou Demétrio, que não a ouvira bem.
– Líria..., a mulher do Seu Machado, está aí com o filho e a esposa.
– Não sei quem são, Alice. Diga-lhes que não me devem nada e que podem ir para casa.
Alice retornou à sala de visitas e transmitiu o recado aos três. Eles se entreolharam surpresos e ficaram sem palavras. 
Então, levantaram-se, agradecendo, e seguiram Alice até a porta da rua. Foi quando ela lhe pediu que rezassem pela saúde do marido. 


2017.08.12 - Homenagem a meu pai Zeferino Demétrio Costi, pelo dia dos pais.
Saudades eternas.






21 de mai. de 2017

21 de out. de 2016

Livro: GATILHO NAS PALAVRAS - Marilice Costi - 2012

 


Paroles, palabras, palavras... 
Gatilhos nas palavras... atilhos no afeto. Palavras ao vento, no coração, letras que se conectam ou desconectam à distância, vivas ou mortas?
O tempo, o real, o imaginário. O lugar. Vida e morte. Morte e vida! O amor.



Opinião de Leitores:


Querida Marilice
Ao ler teu livro "Gatilho nas palavras", minha atenção foi imediatamente catapultada para dentro de um jaquard de tricô em cores fortes como vinho tinto, o verde das folhas escuras, terra, céu e água.
A leitura me consumiu em quatro horas de encantamento penetrando na coragem espantosa de uma escritora que parece fazer strip-tease emocional com o ritmo e a densidade de uma dançarina do ventre.
Invejável o teu talento para despir o ser humano e mostrar como é possível se desapegar graciosamente das malas e das marcas que um relacionamento sempre deixa.

Adorei as comparações, as metáforas, a descrição nua e crua de sentimentos de tantas mulheres.


Fiquei comovida com a empatia que o teu texto me proporcionou.
Amei!




Patrícia Torres, RP
Porto Alegre/RS 

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Marilice,
Tive que escrever pra ti assim que li as dez primeiras páginas do teu livro Gatilho nas Palavras. Está ótimo! Ao nível das poesias do Ressurgimento.
Nossa! Eu sabia que já eras escritora, mas cresceste muito. Parabéns!
Deves concorrer a todos os prêmios possíveis!

Terezinha Becker,
psicóloga e ceramista

Porto Alegre/RS

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 Querida!
Recebi os 5 volumes  do "Gatilho nas palavras" que encomendei.
Vou dar alguns presentes e fazer propaganda.
Li teu livro e reli alguns capítulos. Achei poesia pura e fiquei emocionada.
Eu estou gostando muito.
Desejo que vendas muito.
Felicitações!

Neusa Jung Fer
reira,
pedagoga aposentada
Passo Fundo/RS

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(G)atilho nas palavras
No livro (G)atilho nas palavras, de Marilice Costi, o personagem masculino usa Darwin para justificar sua galinhagem: homens têm grande quantidade de esperma para espalhar seu sêmen e povoar o mundo, mulheres possuem poucos óvulos e vida sexual curta. Esse tipo de homem esquece que Darwin também concluiu que as espécies evoluem, modificando seu comportamento para se ajustarem às novas condições ambientais, ou sócio-ambientais, no caso humano. Ele parou no tempo. O mundo já está super-povoado. As mulheres estão independentes, praticam sexo por puro prazer, a procriação passou a ser ato de vontade. Além de contarem com reposição hormonal e anticoncepcional, atualmente nem precisam da presença do macho para engravidar, embora dependam de seu sub-produto. Por seu lado, a personagem feminina, recém-separada de um marido fraco, apesar de empresária e financeiramente bem posicionada, está carente e fixada em formar um novo par. Focalizado nos processos de comunicação entre as partes, o livro retrata o momento de pessoas de meia-idade perdidas entre duas gerações, mantendo algumas atitudes conservadoras enquanto transitam na modernidade, desorientadas por duas revoluções ocorridas no século passado, o feminismo e a informática. Estes movimentos resultaram decisivos para os relacionamentos interpessoais, pois influíram nas instituições, no trabalho, na cultura e na política, bagunçando os valores e os papéis tradicionais, o que transparece no enredo da novela. Vivemos uma época de transformações rápidas, onde, usando a metáfora da autora, o atilho estica para depois se soltar num gatilho, e, segundo Darwin, só os que se adequarem, os mais fortes, sobreviverão.

R.Novaes-Bueno, jornalista
Porto Alegre/RS, 17.01.12

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Recebi teu livro. Li. Reli boa parte, já fiz um comentário no Facebook e publiquei uma foto da capa este fim de semana. 
O livro está muito bom! Aliás, já te disse, sem babação, que a maneira tua de escrever é algo único. Maravilhoso. O livro é diferente. Impossível largar depois que se começa.
Acho que ainda teremos muito boas notícias desse romance.
Tive um ataque de rir quando você descreve e faz considerações a respeito da cerveja  devassa. Ninguém faria uma análise mais verdadeira.
Curti muito e ainda estou curtindo.
Um grande abraço e parabéns mais uma vez.

Dilamar Santos, artista plástico
Florianópolis/SC
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Trecho do livro. Deguste!

A mesa de jantar está uma confusão organizada. A latinha vazia de tônica diet, a capa do disco, a lapiseira, a caneta, o óculos , os papéis para o dia seguinte, a xícara com restos de café, o molde para desenhos geométricos, o relógio de pulso virado para baixo e mais papéis, muitos papéis, entre eles, a folha de jornal com dicas de cursos e um livro do Vygotsky, para onde Lea se direciona ultimamente.
Os sons a abraçam e ela não se sente mais tão só. Qual a diferença agora? O gaveteiro e o guarda-roupa esvaziados? O retorno à vida. Volta a escutar o som do ventilador quando os acordes cessam e a agulha passa a ir e voltar no mesmo sulco. O defeito. Assim como funcionam as coisas velhas. Lea vai até o tocadisco e move o braço da agulha para o descanso. Alguns insetos batem-se nas paredes seduzidos pela luz da lâmpada dicroica que projeta desenhos no teto como um caleidoscópio. Abelhas? Uma sinapse num tempo que passou. Uma abelha. A abelha. Aquela abelha rainha... rsrsrs, expressou no rosto o que escrevia na internet. Rafael! Era como ele se chamava. Onde andaria aquele gringo dos pampas? Quanto tempo! A tira do Quino é um xerox amarelado. Ali, o cartunista mostra o trabalho incessante daqueles insetos... estaria em algum lugar. Trabalham para nosostros. As abelhas... De graça. Lea acha graça. São boas as recordações daquele rapaz que a fizera rir tanto! Não as de chorar quando se retirou de sua vida. Águas passadas. Outro clichê. No ônibus de volta ao Rio Grande do Sul, ela se esvaiu por oito horas. Rafael estaria vivo? Casado? Vá, Lea! Força! – lembra Milton Nascimento em Maria, Maria. Teste sentimentos. Há quanto tempo só!
Desiste do velho amor e vai ao novo, recomeça, enfrenta a incerteza comum aos separados.
E sai de dentro dela: Outro? Ouve a própria voz ressoar entre os poucos móveis da sala. A palavra cúmplice porque verdadeira perpetua-se na sala fazendo companhia ao buquê com um olhar vesgo para Lea. O som daquela palavra a esmo ficou por ali junto dessas flores a exalarem cheiro de velório. A metáfora! Onde Lea mergulhou para poder compreender o motivo de não ter tido flores no tempo de antes. O tempo de Jonas.
Lea a ter que exorcizar. Precisa compreender aquele amor nas palavras. Nos fios, nos atilhos, nos atalhos, a ter que compreender o gatilho. Então muitas linhas a se desenovelarem e a bus- carem direção passaram a compor letras emendadas, as pal
avras passaram a encontrar leito nas alvas folhas de papel que, uma a uma, foram sendo empilhadas ao lado do vaso de cristal, onde as flores, ainda embrulhadas em celofane, tinham sido acolhidas.

(...) 
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Sana Arte - Editora
http://www.sanaarte.com.br/publicacoes

 

28 de mai. de 2016

CONVITE
04/06/2013 - 18h30 - Teatro Dante Barone - Assembleia Legislativa do Estado do RS
Recebi este convite e o faço a vocês! O evento é público.

Tenho orgulho de estar nesta Coletânea de Poetas Gaúchos do Rio Grande do Sul. E muita alegria por compartilhar o mesmo livro com muitos amigos e amigas poetas. Vai ser uma festa. Venha comemorar conosco este trabalho coordenado por Dilan Camargo. Sou grata aos organizadores, ao editor Carlos Appel, da editora Movimento que me ensinou a cuidar do poema. Aos meus leitores! Sem eles, certamente eu não chegaria até aqui. Mas uma pessoa foi realmente especial, pois foi quem leu os originais pela primeira vez e me disse: tens que publicar. Daí eu questionei, como? São poemas eróticos (estávamos na década de 80!) e minha família é muito religiosa. Não quero magoá-la. E ele me convenceu: Ora, leia o Cântico dos Cânticos na Bíblia. Quer mais erotismo do que o que tem lá?
Foi assim que a coragem surgiu, Jose Edil De Lima Alves. Ainda tenho guardadas suas anotações naquela data.

Obrigada a todos!
A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama.
Carl Jung

8 de mai. de 2016

Memórias de Marilice: AS BOLSAS DE MINHA MÃE

Alice Sana Costi recém terminara o curso de Corte e Costura quando casou com meu pai. Fez o próprio enxoval, exposto no dia da formatura. Exibia a foto com orgulho pelo tanto que tinha trabalhado e pelas coisas lindas que tinha inventado.
Era também professora primária, mas papai pediu que parasse de lecionar, pois ela seria muito necessária na administração da casa e na vida familiar futura. 


As costuras
Nossas roupas e as coisas com tecidos da casa eram feitas por Mamãe. Ela comprava todo necessário. As lojas ficavam longe da nossa casa e ela precisava de uma lista de itens porque não poderia voltar depois para trocar ou buscar algo que faltasse. Muitas vezes, estive junto no balcão da loja, o comércio de tecidos dos judeus no centro da cidade e a observava.
Quando ela escolhia o material, ela imaginava o que faria e havia prazer em seu olhar ao escolher a cor para combinar com os olhos da filha ou com o tipo mais alta ou mais baixa, mais magra ou mais gordinha. Percal para os lençóis, linho para roupas, lã, algodão, seda, cetim e o poliéster, que com o tempo se percebeu que era fácil para passar, mas que pegava uma asa... ninguém aguentava o fedor. E como era difícil retirar aquele encruado.
Em nossa casa nada era colocado fora. Não havia consumismo. Havia sustentabilidade sem que nunca tivéssemos dito esta palavra. Economizava-se em tudo. 
Alice poderia comprar vários metros e, vez ou outra, talvez a peça toda para regatear no preço. Às vezes, mudavam os planos. O tecido não era adequado para a pessoa ou para a utilidade que buscava. E o que era para ter sido lençol do casal, papai não quis. E assim o tecido ia para a prateleira das roupas a reformar. Logo a tesoura passaria por ali transformando lençol em chambres para as meninas e para ela.  
As roupas ficavam perfeitas durante muito tempo, pois eram cuidadas no lavar, não havia máquinas, raramente ficavam manchadas. Para criar novas peças havia um processo: desmanchar com cuidados todas as costuras, lavar e passar para assim utilizar ao máximo. E com as sobras, ela costurava calções para os netos e, finalmente, roupas para as bonecas das meninas. E assim, entre cortes novos e roupas desfeitas, ela seguia as suas artes. 
Eu acompanhava seu trabalho muitas vezes após os temas escolares e ficava ao seu redor pedindo que inventasse coisas para eu fazer, minha hiperatividade não permitia paradeiro. Em algumas tardes, ela ia descansar e me fazia dormir contando histórias. Outras, ela pedia que eu enrolasse os carretéis com linhas de muitas cores, organizasse as gavetas da máquina de costura.


Lembro-me de sua régua de costura, dos moldes em papel de pão, dos gizes e da tesoura de picotar, que ficou comigo após sua morte. Eu aprendi a selecionar cada coisa devido à sua importância e uso: agulhas, botões com seus tipos e tamanhos, linhas especiais, elásticos e a tesoura, que sempre deveria estar no mesmo lugar. Meus pais detestavam precisar dela e não encontrar rapidamente. Cada coisa precisava estar sempre em seu lugar! 
Os godês eram pra matar! A marcação das barras dos vestidos era uma tortura, pois eu tinha que interromper o que eu fazia para passar tempos intermináveis descalça sobre a mesa da sala a rodar lentamente. Ela media e media para marcar com muitos alfinetes em carreirinha a dar direção da dobra para a barra ser marcada, cortada proporcionalmente e receber o ponto certo de costura.

Trabalhos de Alice (manta) e casaco com apoio da costureira Délia.
Tudo tinha que ser perfeito. Se não estivesse dentro do seu nível de exigência, ela desmanchava e refazia. Diziam que a sua costura interna, a dos arremates, devia ser tão bem feita quanto a externa. Tanto que cuidava da qualidade dos seus pontos: mesmo tamanho, mesmo desenho, mesmo final com o nó correto para não descosturar. O arremate. E tudo sempre bem alinhavado para não errar a costura final.
Com três filhas meninas, mulher de empresário, precisavam todos estar sempre impecáveis. E na moda! Ainda mais na missa das dez de domingo.
Quando viajava a Porto Alegre, passava vistas às vitrines da Casa Louro e comprava burdas, que traziam a moda europeia de cortes firmes e marcados do estilo alemão ou outras revistas que comprava na Galeria Chaves, na revistaria ao descer a escadaria seguindo em direção à estação dos bondes na Praça XV, a do Chalé.

Ela organizava o quartinho da costura com certa frequência e sempre encontrava pilhas de roupas para reformar e os retalhos de tecidos grossos, sobras de roupas de inverno ou de pernas de calças jeans. Jeans era fácil, pois conseguia fazer shorts para os netos usarem na praia.

A sustentabilidade
As filhas casaram e os netos cresceram. As sobras passaram a lhe incomodar. Certo dia, uma nova invenção: sacolas para ir à feira. A utilidade era fundamental em suas artes. Naqueles tempos, não eram fornecidas as sacolas que passariam a ser um problema grave ambiental. Tudo era colocado em caixas ou embrulhado em papel Kraft. Sacolas de tecido seriam úteis para muitas coisas e também para buscar pão.
Mas com o tempo, as sacolas sobravam. Além disso, havia recortes de tecidos muito bons e que não poderiam ser usados dessa forma. Um dia, eu estava em sua casa e ela colocou os tais retalhos dos quais queria se livrar sobre o grosso oleado de proteção da mesa de refeições.

– Vou ter inventar alguma coisa com isto. Me incomoda encher os armários com coisas sem uso – e olhou para mim, sorridente e apreensiva... Era seu momento de prospecção... algo ocorreria. Começava riscando em qualquer papel e logo passava a mão na trena, fazia os moldes e começava a assobiar observando se o seio direito estava com os alfinetes que viria a precisar. 
Mamãe tirara o seio aos 37 anos e usava uma prótese de silicone que enchia o soutien, parece uma teta de verdade, ela dizia sorrindo. Papai mandara buscar na Alemanha substituindo um enchimento com meias de nylon furadas que ela fazia. A prótese para o soutien era sua almofada para por os alfinetes.
Então, Fiat lux!
 – Se eu fizer bolsas, tu usarias? – e olhou para mim aguardando resposta.
Eu parei para pensar um pouco...
– Depende, mãe, se não for muito esquisita para minha idade... – eu não gostava de coisas com “cara de adultos”... Naquele tempo, não se dizia a palavra idoso com a importância que se diz hoje.
Alice passou a se divertir compondo pedaços que combinavam entre si, degradês, muitos modos. E criou também diversas alças algumas de macramê. Ficaram lindas. Era moda usar tecidos, roupas de jeans, coisas diferentes.
As bolsas fizeram sucesso na família e com os amigos. E ela passou a presentear as pessoas. Eram realmente únicas!
Nós, as filhas, ficamos com as mais singelas, pois as melhores ficavam separadas para dar.


Seguimos nossas vidas sem nos darmos conta de tantos ensinamentos de Alice apenas no fazer aquelas bolsas.
Lembro especialmente hoje, no dia das mães. Não eram bolsas quaisquer. Eram as “bolsas da minha mãe”, uma mulher avançada em seu tempo, que tinha tudo para ser estilista de modas, uma empreendedora e nunca deixou de ser professora. Ensinava bordados, crochê, tricô, alinhavos, arremates a qualquer pessoa que quisesse aprender. Todas as pessoas que passaram pela nossa casa confirmarão isso. Bastava quererem aprender, que ela se dedicava.
Esses seus valores foram distribuídos entre seus descendentes.
Eu? Fiz apenas um vestido na década de 80, que não tenho coragem de me desfazer. Foi um trabalhão. Nem acredito que passei tantas horas fazendo tanta coisa à mão. Usei só uma vez em uma festa.



Só agora, sendo arteterapeuta, o vestido passou a ter novo sentido. Com capuz, com gregas com dourado, ele foi feito a bruxa das artes e dos cuidados... “Porque las brujas hay! Hay!” As bruxas da vida. As bruxas do cuidado. E isso tudo eu devo à minha mãe.