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29 de out de 2010

QUE DEMOCRACIA QUEREMOS?

Dos textos que li, este toca entranhas. Traz nossa base histórica - onde a memória falha - faz pensar o micro e macro ao entremeiar as nossas miudezas, os nossos amores, os nossos medos e a nossa necessidade de criar e de viver como individuo no coletivo. Brilhante Ana Lucia Vilela! Sua escrita dá norte para pensarmos que democracia queremos e por que temos tanto medo dela. Importa é a coragem de arriscar para tentar ser feliz. (clique no título desta postagem e acesse o texto de Ana).

26 de out de 2010

ELEIÇÕES EM 2010: DESRESPEITO LASTIMÁVEL NO BRASIL

Caro amigo:


Que tempo bom de liberdade! A juventude de hoje não tem a compreensão da luta que houve no Brasil. E isso serve para comunicar o desrespeito? é uma pena. Democracia para a baixaria. Um desvalor. Nunca vi em nossa história, propagandas em nível tão baixo, distorção de imagens e de palavras, coisas colocadas na boca das pessoas, projeção de sentimentos para dar às pessoas a desesperança.
Culpa de quem? Da liberdade de imprensa? Do marketing de ponta?
Que exemplo estamos dando às gerações que vêm inquietas com tantos problemas, tanto excesso de informação?
Quanta facilidade em distorcer o dito pelo não dito, tanta complexidade para encontrar soluções e tão pouca afetividade e convivências sadias, presenciais. Fundamentais!

Lamentável, quando poderia estar havendo o maior embate sobre o valor e o desvalor nas questões sociais, econômicas, culturais, educacionais e tantas coisas importantes: sustentabilidade e energia.

Parei de passar adiante tralhas que recebo. Não tem sentido desconstruir relações de afeto porque as pessoas divergem em seus olhares. Não tenho vontade e nem espaço de vida para por à prova minha resiliência frente ao desrespeito. Quem gosta de ironia é quem agride. Amigos verdadeiros me conheçam. Os da onça passam ao largo.

Incomoda-me mesmo o quanto os candidatos e seu marqueteiros e seus partidos subestimam a capacidade humana de distinguir manipulação e os motivos pelos quais estamos num mar de lama exposto há décadas e um mar de lama inventado há meses.


Estabelecer polaridades no ser humano? Refiro-me à dicotomia esquizóide que presenciamos como nunca,  como se estivéssemos para escolher entre o incompetente e o competente, como se, especialmente depois de Jung, pudéssemos colocar alguém como totalmente "mau" ou totalmente "do bem";  como se, depois do livro do Saramago, o trecho brilhante - no qual Deus e o Diabo discutem o poder - não é uma lição do que vemos de novo, infelizmente.

Faço minhas as palavras do amigo de Dilamar Santos. Mas é com muita tristeza por ver  a perversidade que percebo nas entrelinhas da propaganda política - o tempo e a energia gastos para um desserviço ao país. Podíamos passar sem tudo isso.


Aonde a verdade? Cada um que avalie através do excesso. Todo excesso é ruim: comida demais, bebida demais, propagandas demais.
Sou daquelas que se nega a por fora o voto, tanto que as mulheres lutaram para terem o direito de escolha!


Porque tudo, mas tudo, está na educação. O único tesouro que ninguém é capaz de nos roubar. Isto aprendi com meu pai. Nenhuma fortuna sobrevive se não formos ricos em nosso interior, em nossa humanidade. O maior investimento é o que fazemos em nós mesmos. Depois, podemos cuidar dos outros. E cuidando dos outros, cuidamos também de nós. Abaixo, o recorte do email que recebi.


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A essas alturas o maior problema não é “quem será eleito?” e sim “como está, e como vai ficar o nível de nossa educação, que está dando tantas mostras de baixaria!” Cadê o respeito tão necessário à vida social e, mais amplamente falando, respeito ao meio? Depois que escrevi sobre “...questão de ordem” e pedi calma, vários correspondentes meus melhoraram em seus contatos comigo: baixaram a bola. Espero que te toques, que faças um exame de consciência pensando em nosso Brasil, na humanidade mesmo.

Democracia só é possível havendo respeito entre os cidadãos; não hipocrisia, que é algo que, sonho, ainda extirparemos da maioria de nosso povo.
Miguel Angelo
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Caro Miguel,
Imagino como estaria nesse momento o Darci Ribeiro... Brizola... e tantos educadores...
Quem poderia, há trinta anos atrás dizer tanta coisa do outro! O abuso, o desrespeito, a falta de limites. A ausência de controle por parte de candidatos, por parte dos legisladores. Ora, permitir que a mulher do Roriz estivesse no páreo. E tantas coisas mais. O Tiririca! Bem que os deputados merecem se coçar ali e ter que aturar... o que temos que aturar aqui fora!


Sou pelo voto de quem antes de tudo, respeita o meu direito de pensar. Valoriza o ser humano singular.


Marilice Costi

16 de out de 2010

No Museu da Língua Portguesa

IX Congresso Brasileiro de Arteterapia - São Paulo - out 2010

Só se pode viver parte do outro
e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio
se a gente tem amor.
Qualquer amor é um pouquinho de saúde,
um descanso da loucura.
João Guimarães Rosa

São Paulo, e a necessidade de estar comigo mesma, foi um tempo de ficar  o maior tempo com muitas pessoas. Na rua, no congresso, no hotel, nos bares. Tudo o que eu não necessitava era estar com muitas pessoas, tamanha a necessidade de me tornar um ovo. Assim como quem não quer nada e aparecer no mundo só o depois,  sem história de antes. Tão bom os recomeços de qualquer coisa: a vida, o amor, o tornar-se mulher, o usar o primeiro soutien, o publicar o primeiro livro, o primeiro beijo, o primeiro orgasmo. 
Estar vivo é um grande milagre, o permanecer nesse universo com noção de finitude e cumprimento do "para que viemos".  Mesmo meio a dores corporais ou mentais.
A arte é o que permite enlouquecer e ter saúde.
A arteterapia é um lugar que deveria ser comum a todas as pessoas. A criação, assim como nascimento, é o que existe de mais precioso. Até a criação de um vínculo, a permanência da amizade, a validez de um beijo roubado, criado assim a esmo, roubado até como um gerâneo oferecido assim como quem oferece um futuro numa noite qualquer.
Viver é para quem tem dom de comprometimento consigo e com o outro.
É quando somos Mario de Barros, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, grandiosos pequenos pedaços de frases, palavras reescritas, vidas reconectadas, novos encontros.
A nossa língua na boca, na boca, na boca. A nossa língua no papel, no papel, no papel. A nossa língua no alimento, no alimento, no alimento.
Boca, papel, estranhamento. A alma na palavra, a palavra na alma. Os suportes e os amigos, o acolhimento.
No meio de muitos na capital paulista; no meio de muitos em mim, sou Porto Alegre. Dias quentes, outros frios, espaço de meu sustento e dos amigos onde me alimento, sou porto feliz.

A arte é para ser de todos. Para ti, pra mim, para conosco, pra convosco. Tal era a comunhão dos dias de domingo, deveria ser sagrada em qualquer dia. A arte. A terapia. O autoconhecer-se vivo e com sentido. Os sentidos. Sem ressentimentos, mesmo com tantos abandonos.
Viver é uma possibilidade de festa ali, ao lado dos outros. E mesmo assim sozinha. Ou sozinha repleta de tantos acompanhamentos. As almas.
Porque a alma na palavra é muito e a palavra de nossa boca no ouvido do outro é lenimento.

Marilice Costi - noite de sábado-saudade