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2 de set de 2011

DOS DESEJOS

Quero aquele olhar além da espiada!
Ser digital muito além do polegar
de mão silenciosa a aguardar fuzilamento?
Gritar com a concha das mãos!


Brincadeira com hora certa de acabar?
Voar de calças curtas? Cuidar
para não chorar coqueluche de arquibancada.
Para não arrancar o sorriso da face.

Não cabe despedir-se da infância! Tão bom que é?
E não há respostas a perguntas não feitas.
Porque tudo pode ser poção mágica.
Fôlego contido.

Não jogar a pré-saudade fora.
Ela pode ser cozida em fogo lento?


A vida brinca com a vida
como se não conhecesse a morte.


Transformação impondo migração?
A luz está onde a linguagem se estrutura.

Marilice Costi - julho 2011

* Este poema foi criado após a leitura do livro de poesia: A linha do cerol. As metáforas estão lá. Autor: João Scortecci.

BATE-BOLA - Marilice Costi

Poetas preferidos?
Elisa Lucinda, Afonso Romano Sant´Anna, Leminski, Mario de Barros, Adélia Prado,
Fernando Pessoa, Lucilda.
Escritores Brasileiros?
Josué Guimarães, Flávio Gikovate, Marina Colasanti, Sérgio Faracco, Fernando Neubarth.
Escritores estrangeiros?
Saramago, Ítalo Calvino, Dan Brown, Isabel Allende, Garcia Marques.
O Livro?

Ensaio sobre a cegueira.
Livros inesquecíveis?

A Casa dos Espíritos, O visconde partido ao meio, Cidades Invisíveis, Cem anos de solidão.
Pessoas importantes na sua vida?
Meus Pais. Alda Rodriguez Leite. Muitos professores.
Quem amei/amo. Meus amigos. Meus filhos.
Cores?
Azul ultramar, azul petróleo, azul mar, ocre, branco.
Signo?

 Gêmeos. Nasci em 10 de junho às 10 horas da manhã. Nevava. Passo Fundo.
Animais?
Gato, papagaio, calopsita, Leão.
Algum bicho que você não gosta?

Aranhas. Escorpiões. Cobras.
Comidas?

Polenta com galinha (Alice), Risoto (Clarinda), Churrasco (filhos), Peixe (irmãs), Filet mignon(Thys), doces (Suzel), la cousine (Maria de Lourdes), salada (Ângela), Queijo, Macarrão, Molho branco, Chocolate, Saladas criativas, Frutas, Sorvete.
Esportes?
Musculação, caminhada, vôlei.
Bebidas?
Vinho. Chás.
   Países?
Brasil, Itália, França, Grécia.
Cidades?

Porto Alegre, Roma, Paris, Buenos Aires, Barcelona, aldeias italianas e, sempre, Florença.
Um lugar que tenha mexido com você?
As casas dos imigrantes italianos no interior do Rio Grande do Sul.
Do que você gosta?
Escrever, ler, pintar, fazer amor, arteterapia, romper paradigmas, artes, gente, computador, internet, redes sociais, pitoresco, acordar, comer para viver, fotografia, sapato macio, música clássica, italiana e MPB, filme italiano, chuva em telhado de zinco, chocolate, lua cheia, arco-íris e sol após a chuva, perfume próprio, praia, ensinar/aprender, cheiro de mato, miado de saudade, ouvir o mar, desodorante s/cheiro, dançar, silêncio, luz suave.
Abraço sempre. Chegadas.
O que você admira nas pessoas?
A delicadeza, o respeito, a pontualidade, o cavalheirismo, a luta pela vida, a coragem. 
Uma paixão?
  
 O amor concreto.
Do que você não gosta?
  
Queixas, gente descuidada, aperto de mão que machuca ouo frouxo, bêbado, grude, comida gordurosa, mau humor, perfume adocicado, falta de autoestima, desrespeito, ser preterida por quem amo, irritação, ironia, gente sem caráter, preconceito, de ver publicado o que deveria ter posto no lixo, som alto, agressividade, encontrar erros de português em meus textos.
O seu maior defeito?

O pensamento rápido. A impulsividade. Trabalhar demais.
Cantores?
Maria Rita, Fito Paez, Andrea Bocelli, Barbra Streisand, Elis Regina, Mireille Matieu, Beatles, Tom Jobin, Zizi Possi, Sara Breitmann.
Atores?

Selton Mello, Paulo Autran, Jack Nicholson, Sean Connery, Abujarama.
Atrizes?
Cher, Meryl Streep, Fernanda Torres, Lília Cabral, Fernanda Montenegro, Sofia Loren.
 
Homens bonitos?
Sean Connery, Roberto D´Ávila, Warren Beaty, Robert Reedford, o que eu amar.
Filmes
Cinema Paradiso, A origem, Chá com Mussolini, A árvore dos tamancos, A Sociedade dos  Poetas Mortos, Esperando Forestier, Paris está em chamas.
Avião, Carro, Navio, ou Trem?
Trem e avião. Não gosto de dirigir.
Maior mico?
Escorregar em casca de banana em frente ao meu prédio. Pensar uma coisa e dizer outra. 
Ser chique para quem é fútil. Dizer o nome errado à pessoa certa.
Pessoas que marcaram a sua vida?
Carlos Appel, Martha Medeiros, Antonio Holtfeldt, Sandra Fagundes, Osvaldo Pontalti.
Alegria?
Cheiro de café e mesa pronta, a chegada, sopa e vinho tinto no inverno, a primavera em POA, um olhar de tesão, texto revisado, a revista vinda da gráfica, e-mail de cuidadores, colo de mãe, abraço amigo, beijo inesperado, vaga no estacionamento público, ver arte com filhos.  Terminar de pagar prestações.
Filho com saudade. Esperar quem amo.
Tristeza?
Morte do meu pai. Falência da fábrica. Ter sido demitida em 2004. Máquina pública. Meus filhos na incubadora. Violência. Falta de solidariedade. Gritos. Cobrança afetiva. 

Morte de amigos. A corrupção.
Jornais?
Coojornal. Pasquim.
Revistas?

O CUIDADOR - Orgulho de Ser.
Escola de Samba?

Mangueira.
Partido Político?
Sou eclética mas tenho meu preferido. Voto na ética. Acredito no poder das pessoas e não nas pessoas com poder. Tenho orgulho por ter votado em uma mulher para Presidente.
Momentos difíceis?
Quando descobri a doença mental. Impotência e hospital psiquiátrico. A falta de acolhimento aos deficientes e seus cuidadores. Meus bebês na incubadora. Distâncias.
Religião?
Sou batizada e crismada pela igreja católica. Espiritualista. Respeito religiões. Acredito em energias. Apometria. Fé.
Medo da Morte?
Não. Medo da dor, da dependência, do abandono, da solidão, de perder todos os amigos antes de me ir. De perder filho.
Um balanço de sua vida?
Infância e estudos no Notre Dame em Passo Fundo/RS (até 1969), a maioridade (sic) aos 16 anos, a repressão política, a universidade desagregadora (sic) e o estresse no trabalho público (até 1995), a autodemissão. O mestrado na UFRGS (2000).
Outra Marilice após a especialização em Arteterapia!
A realização profissional com a revista O CUIDADOR.
Uma festa?
Natal, sempre!
 
Você acredita em Deus?

Acredito em forças superiores e nas energias das pessoas, dos animais,
das plantas, do universo. Sincronismo, sinergias, auras, conexões.
Um sonho?
Viajar sem preocupações. Viajar de navio.
 Pagar as contas com a escrita e a arte. Ler a pilha de livros ao lado da cama.
O CUIDADOR a voar pela América Latina.
O mundo justo!
Bate-bola - dica do blog de João Scortecci em 2010.

29 de ago de 2011

INFERNO ASTRAL

Gilberto Gouma

Não me consola saber-me assim. Uma felicidade em potencial que não se consolida. Meus ais se pronunciam com maior alvoroço do que os sorrisos que me congratulam. Há quem me considere ingrato para com tão promissor destino. Julgam que na cartada, levei ases e coringas em profusão. Mas me sinto um macaco numa jaula e as bananas estão do lado de fora. Parece-me que estou emaranhado em idéias que não me pertencem, acordado num pesadelo de doce futuro – amarga sujeição. Sem pedir-me licença, condenaram-me a viver desejos alheios. Lambuzaram-me com leite e mel, quando eu preferiria vinho e pimenta. Nasci com estética de príncipe e uma alma mendicante e só me atraem os plebeus. Meu avesso quer vir à tona e cobrar o que lhe foi usurpado. 

23 de ago de 2011

I - COMUNHÃO DE SENTIPENSADORES

Celebración de las bodas de la razón y el corazón
Para qué escribe uno, si no es para juntar sus pedazos? Desde que entramos en la escuela o la iglesia, la educación nos descuartiza: nos enseña a divorciar el alma del cuerpo y la razón del corazón. Sabios doctores de Ética y Moral han de ser los pescadores de la costa colombiana, que inventaron la palabra sentipensante para definir al lenguaje que dice la verdad.


Celebração de bodas da razão com o coração

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade.

EDUARDO GALEANO (O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM,1997)

20 de ago de 2011

OS LIVROS SÃO PERIGOSOS! - John Milton, 1644

Não nego que seja do maior interesse, tanto para a igreja como para a república, vigiar com muita atenção a conduta dos livros tal como a dos homens; e em seguida, retê-los, aprisioná-los e puni-los com o maior rigor, como a malfeitores. Porque os livros não são coisas absolutamente mortas; têm em si um princípio de vida tão ativo quanto a alma de que são provenientes; e até mesmo conservam, como em um frasco, a força e a essência mais puras da mente viva donde saíram. Sei que são tão cheios de vida e tão vigorosamente fecundos quanto os dentes do dragão da fábula: se forem semeados aqui e acolá, talvez saiam deles homens armados. Por outro lado, entretanto, a menos que isso seja feito com prudência, destruir um bom livro é quase matar um homem; e quem quer que mate um homem, mata uma criatura dotada de razão, ou seja, a imagem de Deus; mas quem quer que destrua um bom livro, mata a própria razão, mata a imagem de Deus, como quem dá um golpe num olho. A vida de muitos homens é uma carga para a terra; mas um bom livro é o sangue precioso do espírito superior, embalsamado e cuidadosamente conservado para uma vida além da vida. Para dizer a verdade, não há século capaz de restaurar uma vida cujo desaparecimento não constitui, talvez, grande perda; e, na sucessão das idades, é raro ter sido reparada a perda duma verdade rejeitada, cuja ausência é prejudicial a nações inteiras. Deveríamos, pois, mostrar maior prudência em nossas críticas em relação aos trabalhos vivos dos homens públicos; em nossa maneira de dissipar esse suco vital da experiência humana, que é conservado e armazenado nos livros, porque vemos que se pode cometer assim uma espécie de homicídio, expor ao martírio e, em se tratando da totalidade de exemplares impressos, chegar a uma espécie de massacre, cujo efeito não é destruir uma vida elementar, mas que fere essa quintessência etérea, o sopro da própria razão, e que aniquila, mais do que uma existência, uma imortalidade.

Trecho retirado de um discurso feito em 1644 por John Milton, autor de Paraíso Perdido, para a Suprema Corte Inglesa. O texto é considerado um dos fundamentos da liberdade de expressão no ocidente .
Vide: Areopagitica, um discurso pela liberdade de imprensa.
 
Colaboração: Dênia Palmira

10 de ago de 2011

Há semanas escrevi isto:

Caráter. Respeito. Credibilidade. Amorosidade. Ser! A grande questão?
Simples a vida. Complicado é suportar o desumano.

7 de jul de 2011

O QUE CARREGAMOS DE SINGULAR?

Perfeição não existe. O que existe quando chegamos à maturidade? Ver nossos pais como seres humanos, aceitá-los com seus erros e acertos como todos nós. O que existiu na minha família foi muita luta, desde o início. Nada fácil. Muita economia. Tudo feito em casa. Roupas, sabão, chimias, sucos. Galinheiro, horta, pomar. Houve um tempo em que só havia água de poço, manivela, balde e corda... A água vinha respingando nos tijolos... Quantas vezes olhei para dentro, aquele fundão. Cuidado menina, sai de perto! Você pode cair dentro. Tempos depois papai instalou uma bomba. Graças a Deus! Mas quando faltava luz... era de novo a manivela. Em nossa casa ,choveu dentro durante muitos anos, molhava todos os livros, piano... Parava de chover na rua, dentro varríamos a água. Eu nem tanto, porque havia empregadas para atender tanta gente... Mas mamãe lastimava as paredes pintadas com cores que ela criava, as cortinas que tinha feito, os livros que grudavam as folhas e ela colocava no sol, punha talco... Papai tinha que reformar todo o telhado e protelava... Primeiro a fábrica... depois a casa... coisas de empreendedor. Tudo longe: escola, farmácia, igreja, amigos, hospital... Dependíamos de alguém que nos levasse na casa dos amigos. Raramente ou nunca vinham me visitar se não os fossem buscar... Cada um com suas coisas, que marcaram nossas vidas e relações para sempre. A casa cheia de filhos, de netos, de representantes, de padres, de freiras, de bispo, de parentes. Achavam que éramos ricos, mas controlava-se tudo, água, energia, nunca o alimento. Tanta gente para alimentar. Mas não havia consumismo, era só o necessário. Não faltou nada. Havia cuidado na família e cuidado na comunidade. Quanta riqueza!
Atualmente, ninguém está satisfeito com o que tem. O consumo daquela época era sustentável... mas havia contaminação no solo e no ar... O curtume largava cromo, mas quem sabia que isso era prejudicial na década de cinquenta? Ali foram curtidos os primeiros couros cor de cardeal, verde limão, roxo, amarelo... coisas inventadas pela minha mãe. Que nunca teve salário pelo trabalho social que desempenhou na empresa. Era ela quem mobilizada as pessoas para festas de São João, dia do trabalhador, Natal, Páscoa... As festas na Igreja, sempre com apoio de papai. Quanta salsinha era doada para as festas das freiras, dos padres, do grupo escolar municipal. Um amigo há poucos anos me disse: quanto mais damos, mais ganhamos. Dê!
O mundo mudou. A informática, os planos econômicos, as mudanças sociais. Poucos descendentes de italianos souberam construir e continuar seus negócios acreditando nas filhas. Elas não deviam rir muito porque pareceriam loucas, não deveriam falar muito porque não seriam confiáveis. Daí, melhor escrever, pois o abecedário escorre pela mente... cascata, enxurrada...
As relações, todas, mudaram. Sociais, de trabalho, as familiares. Muita gente nasceu. Naqueles tempos, conseguia-se ajudar os pobres verdadeiramente. Hoje, carregamos a impotência e a culpa pela incapacidade de mudar o mundo. Acreditávamos que éramos capazes. As utopias. O amor livre e independente de convenções sociais e de heranças. Evoluimos em muitas coisas. Mas cansamos de ver a violência, não queremos mais ver, cansamos de esperar mudanças, ainda nos surpreendemos com quem elegemos pelas mentiras que nos passam antes das eleições, somos sobrecarregados de informações, excesso de comunicação. Falta o vazio, o espaço de sentir, o espaço de viver o hoje que escorre entre nossos dedos, mas marca inevitavelmente nosso rosto com rugas que não são mais de expressão. Perdemos muito em humanidade. O medo de chegar perto do outro. O medo de perder a vida, o medo de perder os documentos, a falta de privacidade. Já não molhamos os olhos com a desgraça dos outros, desligamos a televisão, porque não temos mais espaço dentro de nós para acollher tanta dor que jogam em nosso colo. Por isto tudo, o valor da vida, que é única, inquestionavelmente, solitária? Pertencendo a cada um de nós. Somos sós e somos o outro, somos nós e somos o todo. Somos singularidade e somos apenas um número na multidão. Somos. Estamos vivos, por isso posso registrar em um blog o que penso seja a minha verdade. Mas pode não ser. Posso estar contaminada com o entorno. Somos o que vivemos e o entorno nem sempre é sadio. A sociedade adoeceu, mas de dentro dela, nascerá o novo. Que saudade dos meus tempos de dialética! 

2 de mar de 2011

MINHA TERRA NAS ENTRANHAS

Desenrodilhados?
não andamos mais
nas mesmas águas

Fios sobrepõem opostos
complexo desmodulado
tecido de afeto ao destecer dores

Não sou mais capaz de viver
movimento que desconstrói
tempo sem metas
porta que não abre-se em frestas
leveza que não acende o caminho
corpos que não incendeiam
e nem se aninham

Luzeiro, facho, candela
estrela sem lúmen
não vivo sem

Um laço de esperança
em linhas a sair do enquadre
na base que me sustenta
a palavra e o papel



Buenos Aires, 16/11/2007
Congresso Sul-Americano de Arteterapia

9 de jan de 2011

RICOLETA A PQP

Há mais certeza no trilhar novos caminhos
no ouvir que exorta o singular do ser?
Lamber carinhos em aromas mergulhados
transforma rejeição no ato de empreender.

A nitroglicerina em fios de telefone,
polaridades em resmungos sem tesão
encanto que acabou, clichê desalinhado,
desnudam um amor, a sentinela em vão.

Você articulava em pronta sedução
no abrir e fechar portas, múltipla explosão!
O estar distante fácil não compôs carinhos
mas mortos escondidos em certeiro chão.

Insanas em você as palavras profanadas
e doces as agruras que sem tino emanou
ao fraturar cristais de vida consagrados
entrecortadas sílabas, um mote vomitou.

Ao esconder meu pranto é num vão
o que vai-se em profusão. Então você
inquieto ser - contínuo e interno pendular
encerra o jogo num tablado e tem razão.

Homem distante num moinho andante,
de pavio  feito pra queimar os dedos
em notas tais que mais parecem ser torpedos
em frágeis passos de andarilho, medo amante.

Você a rejuntar e ao dar acabamento
a um tipo cadafalso, frigorífico de trincas.
Desbravador de amor rompido no alongar do voo
compactou no ventre um ser que não habita.

Você foi rendilhado em colorida fita
descortinado ser que perdeu tanto poder

com dor e raiva, falo falha fula pílula
no colo de quem acolheu as sobras no sorver.

Incapaz de amar e de cumprir natais
ao refazer a vida um descuidar demais
de quem despiu-se escancarando o próprio couro
jogando fora, desvaloriza o que era ouro.

Impaciências em você talvez reverterão
em sabedorias, se não forem munição;
se autoestima não partir de grande esforço
ao preparar o próprio pão, virá desgosto.

Você, um corpo machucado no viver,
compõe entalhes e relevos no criar
é gota a gota a respingar na vertical
na escadaria sem degrau nem patamar.

Você foi louca compreensão ao ser amado.
Um laço ao decompor ardor em raro ninho
rasgou o afeto e ao rastejar não tem sapatos
e ao sangrar será bordô, coalhado, impuro vinho.

Há féretro que aporta de um navio advento?
Guerra sem armas fermentou o tudo? é nada.
No cais ao desfraldar a caravela ao vento
cumpriu um ciclo a mais de abandonado alento.

Bandeira brasileira em corpo embalsamado
tem cores do Rio Grande em meio a lambrequins
envoltos nesse pano, cupins de antepassados
enterraram a dor de um doce amor em mim.

- Ah, metida abelha em noturnos vendavais
tentando remover coturnos e metais!
Bendiga o rumo ao recompor-se em tempos tais
desapareça – é águia – pra que dizer dos ais?

Marilice Costi - 2010