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29 de out de 2010

QUE DEMOCRACIA QUEREMOS?

Dos textos que li, este toca entranhas. Traz nossa base histórica - onde a memória falha - faz pensar o micro e macro ao entremeiar as nossas miudezas, os nossos amores, os nossos medos e a nossa necessidade de criar e de viver como individuo no coletivo. Brilhante Ana Lucia Vilela! Sua escrita dá norte para pensarmos que democracia queremos e por que temos tanto medo dela. Importa é a coragem de arriscar para tentar ser feliz. (clique no título desta postagem e acesse o texto de Ana).

16 de out de 2010

No Museu da Língua Portguesa

IX Congresso Brasileiro de Arteterapia - São Paulo - out 2010

Só se pode viver parte do outro
e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio
se a gente tem amor.
Qualquer amor é um pouquinho de saúde,
um descanso da loucura.
João Guimarães Rosa

São Paulo, e a necessidade de estar comigo mesma, foi um tempo de ficar  o maior tempo com muitas pessoas. Na rua, no congresso, no hotel, nos bares. Tudo o que eu não necessitava era estar com muitas pessoas, tamanha a necessidade de me tornar um ovo. Assim como quem não quer nada e aparecer no mundo só o depois,  sem história de antes. Tão bom os recomeços de qualquer coisa: a vida, o amor, o tornar-se mulher, o usar o primeiro soutien, o publicar o primeiro livro, o primeiro beijo, o primeiro orgasmo. 
Estar vivo é um grande milagre, o permanecer nesse universo com noção de finitude e cumprimento do "para que viemos".  Mesmo meio a dores corporais ou mentais.
A arte é o que permite enlouquecer e ter saúde.
A arteterapia é um lugar que deveria ser comum a todas as pessoas. A criação, assim como nascimento, é o que existe de mais precioso. Até a criação de um vínculo, a permanência da amizade, a validez de um beijo roubado, criado assim a esmo, roubado até como um gerâneo oferecido assim como quem oferece um futuro numa noite qualquer.
Viver é para quem tem dom de comprometimento consigo e com o outro.
É quando somos Mario de Barros, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, grandiosos pequenos pedaços de frases, palavras reescritas, vidas reconectadas, novos encontros.
A nossa língua na boca, na boca, na boca. A nossa língua no papel, no papel, no papel. A nossa língua no alimento, no alimento, no alimento.
Boca, papel, estranhamento. A alma na palavra, a palavra na alma. Os suportes e os amigos, o acolhimento.
No meio de muitos na capital paulista; no meio de muitos em mim, sou Porto Alegre. Dias quentes, outros frios, espaço de meu sustento e dos amigos onde me alimento, sou porto feliz.

A arte é para ser de todos. Para ti, pra mim, para conosco, pra convosco. Tal era a comunhão dos dias de domingo, deveria ser sagrada em qualquer dia. A arte. A terapia. O autoconhecer-se vivo e com sentido. Os sentidos. Sem ressentimentos, mesmo com tantos abandonos.
Viver é uma possibilidade de festa ali, ao lado dos outros. E mesmo assim sozinha. Ou sozinha repleta de tantos acompanhamentos. As almas.
Porque a alma na palavra é muito e a palavra de nossa boca no ouvido do outro é lenimento.

Marilice Costi - noite de sábado-saudade