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12 de ago de 2017

Memórias de Marilice: ASSIM FOI MEU PAI

Demétrio estava acomodado em uma cadeira Gerdau, adaptada às suas condições físicas, e tomava sol. Diferente da cadeira do papai, que havia na mesma saleta onde tantas vezes lhe alcançaram os chinelos e o cobertor. Era um dia muito frio, as pernas estavam enroladas numa manta de lã, calçava meias grossas e um chinelo com pelos de ovelha.  A seu lado, a mulher remendava roupas.
A campainha tocou.
– Lurdes, disse ela, atenda à porta, por favor.
Prontamente, a moça secou as mãos no avental e seguiu pelo corredor. Olhou através do vidro da porta, abriu a pequena janela e disse bom dia aos desconhecidos, ouviu um deles falar e retornou.
– Dona Alice, querem falar com Seu Demétrio.
Ela arrumou a agulha no tecido, colocou o retrós ao lado sobre a almofada do pequeno sofá e dirigiu-se à porta. Quem seria àquela hora da manhã de sábado?
Pela vidraça da porta viu um casal jovem e uma idosa. Então virou a chave e abriu.
– Bom dia, D. Alice. Precisamos muito falar com Seu Demétrio – pediu a mulher. 
Alice abaixou-se para liberar a cremona que travava a porta no piso, puxou a outra superior e soltou a segunda folha da porta, dando espaço para passarem. Com a mão, sinalizou a sala de estar e disse:
– Entrem. Vou falar com ele.
A ampla sala continha um sofá de quatro lugares cor dourada, duas poltronas vermelhas de veludo desbotado, uma mesinha de mármore rosado com pés dourados, o registro de uma escolha feita há mais de quarenta anos.  Quando os viu acomodados, disse:
– Está muito frio, vou pedir um cafezinho. E retornando à saleta, olhou o marido e disse-lhe: É contigo, Demétrio. Atenda... Deve ser importante.
– Não quero falar com ninguém – disse ele. Há tempo não se sentia confortável para atender estranhos, nem queria que o vissem. Fora sempre cuidadoso com sua aparência e agora se sentia decrépito, sabia que a vida lhe escorria. 
Alice retornou à sala, não antes de pedir que servisse um cafezinho bem quente, lembrando-a de, antes do café, colocar água fervendo nas xícaras. O frio da cidade gelava tudo. E completou: se não, o café chegará frio.
Trazendo um pedido de desculpas do marido, não se sentia muito disposto, Alice abriu a conversa.
– Em que posso ajudá-los?




Novamente, a mulher, agora se identificava como mãe e sogra do casal, tomou a frente.
– Anos atrás, quando trabalhávamos na fábrica, Seu Demétrio nos emprestou dinheiro para que comprássemos a nossa casa. Meu marido já faleceu e pediu-me que eu não ficasse sem acertar. Só agora conseguimos juntar tudo. Queremos acertar.
Alice arregalou os olhos, afirmando que ia falar com ele então.
– Demétrio, a viúva quer te devolver o dinheiro do empréstimo que fizeste há anos ao Machado para que comprassem a casa deles. – disse ao chegar à saleta.
– Quem são? – perguntou ele.
– Líria, a mulher do Seu Machado com o filho e a esposa. Lembras deles?
– Não, nem sei quem são. Não preciso do dinheiro, nunca me fez falta. Diga que não me devem nada e podem ir para casa.
Alice transmitiu o recado aos três que ficaram sem palavras. E os acompanhou até a porta. Então lhes pediu que rezassem pela saúde do marido. 


2017.08.12 - Homenagem a meu pai Zeferino Demétrio Costi, pelo dia dos pais.
Saudades eternas.






2 comentários:

Celi Ribeiro disse...

Retrato fiel de nosso pai. Como não sentir saudades de um homem quieto, simpático, ético e generoso? Outros tantos fatos poderíamos relatar que estão gravados no coração. Muitas vezes, quando tenho que tomar uma decisão me dou conta de estar pensando em como nosso pai Demetrio faria? Para mim, todos os dias são carregados de boas lembranças dele: o sorriso contido, a caminhada diária, a fruta guardada para a filha, o cumprimento a todas as pessoas que encontrava, a espera pelas filhas que chegavam da escola, e assim por diante... Beijos. Celi

Marilice Costi disse...

Obrigada, Celi. Dia dos pais é o dia de ativar as memórias. Doce pai!