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2 de fev. de 2014

Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista escritora Marilice Costi – Porto Alegre/RS

MARILICE COSTI é Especialista em Arteterapia, Mestre em Arquitetura, é também escritora, arquiteta e urbanista, docente, oficineira, consultora e pesquisadora. Artista plástica, editora-chefe e capista da revista O CUIDADOR, trabalhou sempre com estímulo a processos criativos. Desde 1995, utiliza técnicas de desbloqueio da escrita nas oficinas de poesia, prosa ou texto técnico, com o suporte de recursos artísticos. Autora de diversos artigos publicados em Congressos e dos seguintes livros: Gatilho nas palavras (romance); Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais; A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares; Poesia: Clichês domésticos, Mulher ponto inicial, Ressurgimento (Prêmio Açorianos - Poesia 2006), Tempos Frágeis (contos - 2009).
 
“Mas é um gatilho, eles atiram as palavras e elas, as palavras, matam.
Elas podem conter trinitroglicerina. Por isso, cuidado com elas!”
(in: Gatilho nas palavras)
 
SMC - Escritora Marilice Costi, é um prazer contarmos com a sua participação no projeto Divulga Escritor, conte-nos como surgiu seu gosto por trabalhos literários?

Marilice Costi - Escrevo desde menina. Iniciei com poesias. Tive excelentes professores de Português e Literatura. Li muito. Quando na Faculdade de Arquitetura, um professor me estimulou a enviar um de meus textos para um Concurso de Contos e tirei o primeiro lugar. Daí em diante foi continuar, fiz oficinas de escrita criativa... e segui.

 
SMC - Fale-nos sobre o seu romance “Gatilho nas palavras”? Como foi a escolha do Titulo? Em que perfil você se inspira para a construção dos personagens desta obra?

Marilice Costi - A escolha saiu naturalmente. Duas pessoas na internet tentando se comunicar e amar. Ela mais que ele. A dificuldade no relacionamento foi porque havia uma patologia, algo que é difícil de perceber à distância, mas que ao escrever percebi melhor. Esse texto pode auxiliar as pessoas, porque o seduzir e o afastar são típicos de doença mental, de homens que não se entregam para uma relação amorosa. Na internet também existem relacionamentos complicados. Além disso, ao escrever um texto, nós nos projetamos nele com nossos sentimentos e sensações. A mulher no livro também se enrola, querendo que o amor dê certo. Ele é uma pessoa que acredita em Darwin, argumenta tudo, desejando a poligamia. São muitas coisas que tornam a relação num gatilho, eles atiram palavras pela internet e elas, as palavras, podem matar. Elas podem conter trinitroglicerina. Por isso, cuidado com elas!

 
SMC - Marilice, conte-nos sobre o seu livro “Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais”, que tema você aborda?

Marilice Costi - O tema é a família que segue ao redor de um filho com deficiência mental/intelectual. Relata de modo literário como é difícil cuidar e como a família está desamparada. Questiona o sistema de saúde público e o sistema privado, o cuidado inadequado aos familiares e a vulnerabilidade dessas pessoas deficientes, quando utilizadas também para tráfico de drogas. Estou escrevendo a continuação desse livro e outro para cuidar de mães, as que são mais abandonadas (pelos maridos, pelos filhos, pelos amigos... pelos vizinhos, pela sociedade). Escrevi o livro como num jato, em três horas, após trocar o voo do meu avião numa viagem que fiz ao Rio de Janeiro.
 

SMC - De forma geral que mensagem você quer transmitir através de seus textos literários?

Marilice Costi - A humanidade está presente em todos os meus livros. Procuro escrever com o coração e sou sempre motivada por situações que me tocaram, sejam as minhas, como é o caso de Como controlar os lobos? , sejam as de outras pessoas com os demais livros – o de contos e o romance. A vida é complexa e as relações afetivas são importantes em qualquer momento, sejam elas de amor, de amizade ou de sofrimento. A vida é composta das duas, por isso sempre saio de um momento depressivo para o outro, a alegria, como é o caso de “Mulher Ponto Inicial” e “Ressurgimento”. Ganhei o Prêmio Açorianos 2006. Essa poesia foi largada em dois momentos apenas, foram dois dias, um poema cada dia, por necessidade minha. Tratei da dor da perda e do renascer, das trevas e da aurora num fluxo único, depois foi apenas trabalhar em trechos, que podem ser lidos individualmente, mas eles são um todo, uma continuidade. Tem a ver com minha história com uma calopsita, que morreu cheia de feridas, e que foi minha companheira de mesa de trabalho durante meses no meu mestrado.

 
SMC - Onde podemos comprar os seus livros?

Marilice Costi - Através do site www.ocuidador.com.br eles podem ser encontrados. Basta solicitar ali, onde também estão releases e opinião de leitores.
 
 
SMC -Quais os seus principais objetivos como escritora?
 
Marilice Costi - Escrevo porque é vital em mim, escrever é necessário e trabalho muito para deixar um livro pronto. Não estou preocupada com o mercado, estou preocupada em registrar minha aldeia. Gatilho nas palavras levou dois anos com muita revisão. Não mudaria uma vírgula.
Tempos Frágeis, contos, relata histórias desde a década de 70. Mostro ali a vulnerabilidade humana em períodos bem diferentes, com suspense ou tensão, o que é fundamental num conto. São temas e dores humanas que me tocaram profundamente.
 

SMC - Você, hoje ministra cursos, oficinas e palestras, que temas você aborda em seu trabalho?

Marilice Costi - Abordo e estimulo a criatividade especialmente. Considero a criatividade e a escrita coisas da alma e temos que ter delicadeza no trato com quem se expressa com a escrita. Tanto o escritor como o aluno, que é quem começa, são pessoas especiais e singulares. Não dá para tratá-los igualmente, é preciso que se descubram em suas diferenças. Aqui é que está a riqueza humana. Já cuidei com Arteterapia de muitas pessoas devido a bloqueios ocasionados em situações de aprendizagem em oficinas. Eu mesma sofri muito com algumas delas. Mas passei por cima e aprendi como não fazer. Considero a escrita algo que vem das profundezas da alma, tem a ver com nossa mãe, o início de nossa comunicação, a nossa linguagem lá no olhar e na voz. Respeito e cuidado com o texto do outro é fundamental! Além disso, a Literatura registra o espírito da sociedade. É preciso valorizar esse caminho permanente que ela tem e o quanto é importante na vida das pessoas.

 
SMC - Quem desejar contratá-la como deve fazer?
 
Marilice Costi – Por e-mail ou por telefone. Os contatos estão em nossos sites.

 
SMC - Conte-nos sobre seu trabalho com a Revista O CUIDADOR, quais os principais objetivos, quem pode participar?

 Marilice Costi - A revista O Cuidador é meu projeto de vida, um modo de cuidar coletivo, de levar a sabedoria do cuidado a todos os cantos, de registrar o valor do cuidador e informar cuidadores, que somos todos nós, e dar-lhe suporte para que possam cuidar de alguém.  Qualquer pessoa pode participar do projeto desde que seu texto esteja no foco do cuidado e autocuidado. Não importa a graduação, aliás, sempre procuramos dar “voz a quem não tem voz”.  Temos um conselho editorial que é muito sensível à expressividade das pessoas. A revista é de construção de vida, de registro da sabedoria do cuidado na coletividade. Já são 5anos e então fizemos uma edição comemorativa, quando me dei conta que foram mais de 200 pessoas que colaboraram com amor e deram o seu melhor. Mais informações podem ser encontradas em nosso site – O Projeto, assim como informações para adquiri-la parcelada ou à vista.

 
SMC - Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?

Marilice Costi - O Mercado é muito complexo e oscila muito. O leitor é bombardeado por grandes editoras e também por muita coisa que não possui trabalho literário. Perdeu muito de sua capacidade crítica devido às escolas. O leitor raramente aposta em novo escritor. Busca sempre os nomes tradicionais no mercado. O bom é que existem projetos importantes como os que levam o autor em sala de aula. É preciso estimular a leitura, construir mais bibliotecas e aproximar o escritor dos leitores nas escolas. São ações fundamentais, que são de ação pública, de decisão política. O Governo em todas as instâncias tem um papel importante.

 
SMC - Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor a escritora Marilice Costi. Que mensagem você deixa para nossos leitores?

Marilice Costi - Que escrevam sempre que puderem para registrar sentimentos e percepções. Escrever clareia os pensamentos, desenvolve o raciocínio lógico, causa alívio. E que leiam bons livros. Nossa saúde mental está muito dependente nesse movimento da leitura e da escrita. A humanidade está nessa possibilidade: a de nos reconhecermos na literatura do outro e na nossa.

 
Site e blog para contato com a escritora.
www.sanaarte.com.br
www.ocuidador.com.br
www.marilicecosti.blogspot.com
Porto Alegre/RS – e-mail: editora@ocuidador.com.br

Participe do projeto Divulga Escritor
https://www.facebook.com/DivulgaEscritor

 

14 de jan. de 2014

ESCRITA PERCEPTIVA: LUGAR DE ENCONTRAR - últimos dias de inscrição

Oficina de Escrita Terapêutica com Marilice Costi
 



De 25 de janeiro a 22 de março de 2014


 Como coisas simples são capazes de nos fazer descobrir coisas nossas!
 Descubra a importância da palavra em nosso contexto de vida.
Como desenvolver a empatia através da escrita e aprender a valorizar a poesia em si e nos outros.
Descubra a comunicação que inicia com a mãe e se desenvolve do seio materno até a escrita.
A escrita terapêutica. A importância da Literatura: poesia, crônica, conto.
A contação de histórias e como ela desenvolve nosso raciocínio e a criatividade.

PÚBLICO ALVO
Arteterapeutas, terapeutas, assistentes sociais, pedagogas, psicopedagogas, profissionais que buscam autoconhecimento através da escrita, estudantes de áreas afins.


 
PROGRAMA


ü  Autoconhecimento através da escrita.
 
ü  Desbloqueio da escrita e criatividade.


ü  A literatura (poesia, crônica e conto), recursos artísticos e sua relação com a escrita terapêutica.


ü  Leitura e construção textual.


ü  Técnicas arteterapêuticas com a escrita.


ü  Os cuidados arteterapêuticos com o processo criativo da escrita.


 
CRONOGRAMA


MÊS
DIAS
HORÁRIOS / TURNOS
Janeiro
25
Das 9h30s às 12hs (manhã)
Das 14hs às 16h30 (tarde)
Fevereiro
01, 08 (ou 7), 15 
Março
08, 15 e 22
Havendo possibilidade do grupo,
o sábado (manhã e tarde) poderá ser trocado para  sexta à noite e sábado pela manhã.
 
 
FACILITADORA
Marilice Costi

Especialista em Arteterapia, Mestre em Arquitetura, escritora, docente, oficineira, consultora e pesquisadora, especialista em saúde na SES. É Artista plástica, responsável pelo acompanhamento dos depoimentos na revista O CUIDADOR, onde é a editora-chefe, coordenadora editorial e capista.
Trabalhou sempre com estímulo a processos criativos. Desde 1995, utiliza técnicas de desbloqueio da escrita nas oficinas de poesia, prosa ou texto técnico, com o suporte de recursos artísticos.

Autora de diversos artigos publicados em Congressos e dos seguintes livros: Gatilho nas palavras (romance) – SCORTECCI, 2012; Tempos Frágeis (contos) - MOVIMENTO, 2009. Como controlar os lobos? proteção para nossos filhos com problemas mentais(depoimento/psicologia) – AGE, 2002; A influência da luz e da cor em corredores e salas de espera hospitalares (arquitetura) – EDIPUCRS, 2000; Poesia: Mulher ponto inicial (1985) e Clichês domésticos (1994), Ressurgimento (Prêmio Açorianos - Poesia 2006).
É membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul (ALFRS) e da Associação de Arteterapia do Rio Grande do Sul (AATERGS) – inscr. nº 072/2008.
Organiza e edita livros, faz projetos gráficos e copydesk.  Ministra cursos e palestras com foco no cuidado, quebra de paradigmas, percepção, arteterapia, singularidade, literatura e desbloqueio do processo criativo.


 LOCAL DAS AULAS


Rua Santana, 666 / CJ 504 - Bairro Farroupilha –Porto Alegre/RS.
Fácil acesso de ônibus (próximo à Ipiranga) e lotação (Santana).
Local com ar-condicionado.    
Possibilidade de estacionamento em garagem paga ou estacionamento na rua próximo ao prédio.


 
 CERTIFICAÇÃO


Os alunos com frequência acima de 75% receberão o certificado do Curso. Este também poderá ser utilizado para comprovação acadêmica de horas complementares (para estudantes).


 
 INVESTIMENTO:


Matrícula de R$ 300,00 (em cheque ou dinheiro) + 2 parcelas de R$ 330,00 no cartão de crédito.
À vista: 6% desconto.
 
 

INSCRIÇÕES:
SANA ARTE
Tel.: (51) 3028.7667 - somente à tarde.
E-mail: apoio@ocuidador.com.br

Memórias de Marilice: HISTÓRIAS DE MINHA MÃE


Mãe, o que vou fazer agora? Era muito comum lhe pedir após fazer meus temas escolares. Minha mãe sempre queria que eu dormisse após o almoço, porque, além de ser a hora do silêncio para a sesta de 30 minutos de meu pai, eu, hiperativa, lhe exigia muito e a cansava. Ela sempre criava algo ou me dava alguma tarefa que a auxiliava em seu trabalho de cuidar do lar. No entanto, dormir após o almoço era ter suas histórias e tê-la só para mim, pois seu colo era dividido sempre entre muitos netos e eu. A maioria das histórias, eu não ouvia o final, pois pegava no sono. Elas eram repletas de animais. O casamento dos ratinhos é o que mais lembro. O ratinho Lalau se apaixonou por Marieta e depois de namorarem, casou-se com ela, a mais inteligente e educada de todas as ratinhas do bairro. No dia do casamento, ele vestiu casaca e possuía uma flor na lapela. Marieta estava com um vestido branco de babadinhos, laços de fita, buquês de rosas biscuit (as que tínhamos em nosso jardim) e sapatinhos delicados forrados de cetim. A grinalda e o buquê exalavam perfumes e todos se encantaram quando ela passou pelo corredor da igreja na direção do altar, onde o futuro "maridinho" a esperava. Mamãe descrevia o padre, a roupa, o sacramento e cada um dos convidados com seus presentes. Após a cerimônia, havia festa com todos os animais da floresta, que teriam vindo especialmente para o casório. E ela encantava descrevendo cada um, pois naquele dia ninguém brigava com ninguém. Todos cantaram e dançaram até o amanhecer, quando os noivos então embarcaram em um navio a vapor para a lua de mel no Rio de Janeiro. E eu, aqui, talvez já tivesse adormecido.

Tenho certeza que meu prazer pela contação de histórias e pelos contos de fadas vêm dessas tardes, quando ela, sempre dividida entre tantas pessoas e coisas, era só minha naquela enorme cama acolhedora, onde ela me cedia o seu lugar, nunca o do papai. Eram os momentos em que ninguém me tirava do seu colo.

22 de ago. de 2013

DICAS PARA QUEM QUER ESCREVER!

Para o escritor, escrever é vital. Por isso ele se dedica ao ofício, porque para ele é necessário. Ele precisa escrever. 

Confira outras dicas aqui
 

11 de ago. de 2013

Homenagem ao meu pai

CASO PROIBIDO

Era um caso de amor profundo, uma questão de raízes, um tipo de sentimento infinito até. Trinta e três anos de paixão! Ele, a trezentos quilômetros de distância, seu esteio, exemplo, segurança. Ela, frágil, mas corajosa, débil e às vezes inconsequente pela vontade de viver e saltar barreiras que a idade impunha. Matilde o carregava em seu coração num desejo de posse avassalador. Ela amava o seu caminhar, o gesto dele pôr os braços para trás, o assopro quando perdia a paciência e ria-se dos impropérios que Lauro esbravejava em sua língua de origem. Ela desconhecia em parte os significados. Mas seus signos eram claros: queria tudo em ordem, a mesa servida no horário exato, a comida com tempero suave, o silêncio na hora da refeição, o cafezinho depois junto ao cigarro filado. No final do dia, somavam mais de um maço. O médico proibira, ele não comprava mais.
Quando Matilde estava passando um tempo com ele, ao escutar o apito da fábrica, ia buscá-lo. Cansado do trabalho, ele demonstrava alívio. Era um momento de êxtase para ela: o caminhar lento de quem lidara o dia inteiro, o modo de atirar o casaco sobre o ombro direito, as muitas chaves da fábrica no molho preso ao cinto, o ouvir o próprio ruído ecoando do soalho nos barrotes, o verificar portas e janelas, os conselhos dados ao vigilante na guarita e, antes de cruzar o portão de ferro, o “não se esqueça de alimentar e dar de beber aos cães”.

Eles continuavam pela calçada coberta de terra seca daqueles dias de verão que margeava a avenida de paralelepípedos que se perdia atrás da Brigada Militar. E viam o pôr-do-sol. Ele a olhava com cara marota de menino adolescente e sorrindo dava-lhe um sonoro beijo espichando os lábios para alcançar sua face. Chegavam em casa aos latidos do Duque. Havia o costume de limpar os pés na grama, antes de ultrapassar a soleira. O chimarrão os esperava após o banho, quando ele mostrava seu recato. Nunca se vestia na frente ela. Apenas quando ia ao sanitário, não fechava a porta. Ela ouvia o som de um jato e ficava imaginando como poderia acertar no escuro. O lugar nunca cheirava mal. Era muito cuidadoso, sempre lavava as mãos ao chegar. Depois da janta, ela aguardava o momento que seus olhos diziam: pode vir. Sentava no seu colo, então, lia o jornal em voz alta. Ele escutava e marcava as notícias para ela recortar depois. Era o que Matilde fazia enquanto durava a sesta. Lauro sempre descansava após as refeições, como descansa agora, naquela cadeira do papai, para sempre.
Conto publicado no livro: COSTI, Marilice. Tempos Frágeis. Porto Alegre: Movimento, 2009.

28 de jul. de 2013

GRÁVIDA DE ESPERAS - Marilice Costi



Caro Editor
O que farei com a quantidade de textos que me vestem? Que me compõem por dentro? Que me fazem humana? Como esse que já fez aniversários... e estava entre os perdidos até hoje neste dia quase 10x6.
Abraços, MC
08/06/2013
O que importa nesta avalanche de vontades, de peles a tentar se colar, de dobras virando origamis, de alegrias mágicas e desejos interestelares, de ouvido e voz e ar, de pulmão e coração, o afago sangue adentro? Este querer/ser/ficar em território do outro, colo e acolhimento, um fincar mastro e  hastear bandeira?
Importa é a voz que chega a quilômetros milhares quase anos luz, trespassando calor em ondas, em frequências de comunicação de corpo e alma que se buscam, em dobras que se desdobram, resiliência e plantio. Há espera de criar raízes, em desconstrução que se constrói, no cuidado do levantar tijolo por tijolo, lado a lado, apoio e engaste, planície e floresta, um rio onde o barco atraca no cais, sem medo a não ser a ausência de maré. Águas sempre-vivas. 
Quero como quem deseja 25 metros de um bambu adormecido há séculos, cachoeiras que fluam entre jacintos, margaridas do campo e onze horas. Quero como quem deseja alcançar o pico da cordilheira dos Andes ou as cavernas de estalactites, como a música de Dvorák, Bartók, Strauss, Ravel, Villa Lobos, Chopin e Bach. Um pensar composto no balanço e movimento de ondas a ocupar territórios vindos em paz e em par.
Quero compartilhar do ar, do olhar, do costurar o afeto na pele com cinzel e linha tecelã e agulhas de bordar, a desmodular sentimentos padrões e a clarear obscuros momentos. Quero amar neste frio de junho que avança metade do ano de vida adentro.
Quero me grudar. Me dar e amparar, ser muro de contenção, ser telhado em construção, ser espaço público e privado, ser da vida, luz e sombreamento, dinamismo e amarração.
Nós, exatamente e apenas um nós em profusão.

(escrito em 2008) Direitos Autorais Reservados MARILICE COSTI - 08/06/2013

27 de jul. de 2013

Gatilho nas Palavras - ficção - Marilice Costi - p. 22




(... )
Iria ele cuidar de si a partir de agora? Escolheria a camisa sem mancha e com botões, teria sempre cuecas limpas na gaveta? Manteria as latas de chocolate e leite condensado e os pregos nas prateleiras no meio das roupas de passear? A premente necessidade de ter à mão o líquido doce através de um furo feito com a ponta de uma faca e martelo. A carência do seio?
O carrilhão tocou na sala. Lea acordou. Agora não com o ronco dele. E sentiu alívio. Na sua memória veio seu pai, para quem agora ela pediria proteção seguidamente. Não havia mais como aguentar a vida sem o útero a crescer, a lembrança do sangue perdido ao fazer o desejo de Jonas. Por que cedera? Olha as fotos de Natal e imaginou mais um ser ali. Qual sexo teria tido? Aquela mancha para sempre entre os dois. E nada jamais desfaria aquela cicatriz.
A noite se alongou. Rolou na cama até sucumbir finalmente ao sono. Seis da manhã, despertou com o corpo cansado. Pesadelo? Correu para o bloco de anotações. Esquisito lembrar-se daquele gringo no sonho. Onde andaria aquele homem das letras desenhadas?

(trecho pág. 22) Gatilho nas Palavras -de Marilice Costi - São Paulo, Scortecci Editora, 2012. ficção.


Saiba aqui a opinião de leitores: Uma publicação de SANA ARTE

25 de mai. de 2013

COMPREENDENDO

O tempo não espera por ninguém. Ontem é história. O amanhã é um mistério, o hoje é uma dádiva, por isso é chamado de presente. (Adalberto Godoy)

24 de mai. de 2013

Memórias de Marilice: INSISTÊNCIA DÁ NISSO...

Todos têm uma história sobre por que "desisti de ler". Não tenho dinheiro, ler demais não faz bem, não tenho paciência, não tenho tempo, não enxergo bem e muitas falas mais. Tenho a minha.

Ao voltar da escola e almoçar, eu ia ao meu quarto e deitava na cama para ler. Meu pai se aborrecia por me ver com livros que ele não entendia (Dialética da libertação, o que é isso? filosofia? Sartre? Os deuses eram astronautas?). Eu tinha 14 anos. E ele dizia, não me preocupe, minha filha. Você lê demais, Mari. Não é bom ler tanto!
Preocupado com o meu futuro, muito mais ainda com o meu pensar, papai tentava me controlar.. Estávamos na ditadura. Mas não faltava dinheiro para livros, enciclopédias, dicionários, revistas (exceto as Cruzeiro e Manchete que, se apareciam, tinham as páginas das mulheres pouco vestidas arrancadas. O nosso imaginário totalmente controlados pela minha mãe, As revistas Castigo? Ele & Ela? Nem pensar!

Havia gente que dizia: Aquele? Enlouqueceu de tanto ler! - era a fala corrente ao vermos passar um homem delirante pela rua em Passo Fundo. Aquele homem delirava em sua esquizofrenia!
Era sempre a mesma conversa pela cidade.

Vais enfraquecer os olhos, Mari.  Muitos cuidados comigo. O controle.

E hoje, a Mari! É bom não ser dentro da casinha, apesar de muitos sobressaltos do caminho. Quem lê pensa. E a postura tem que ser cuidada... Gosto de andar sem lenço e sem documentos. Nas letras especialmente. Com os livros a me olharem, enquanto aguardam que eu penetre no mundo insondável das palavras, sou tão mais feliz!

Marilice Costi (24/05/2013)





12 de mai. de 2013

Memórias com Minha Mãe

PARA MINHA MÃE
Minha amada Alice, a verdadeira senhora de meus domínios internos,
 mar revolto de minha adolescência, calmaria na minha maturidade,
luz e sabedoria no momento de eu ir para a próxima idade.
Amor de esperança e abraço de acolhimento.
Um amor de agradecimento que não cabe em mim.
Porto Alegre, 12/05/2013 
Marilice Costi


14 de fev. de 2013

DESCOBRIMENTO

sei agora
porque temo a morte
 
nos momentos de infelicidade
teu corpo
antes, meio de transporte celestial
me enterra
 
 
In COSTI, Marilice. Clichês Domésticos. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1993, p. 42.

1 de set. de 2012

CUIDAR E SER CUIDADA

TVE RS - Ivette Brandalise entrevista MARILICE COSTI 04/08/2012

30 de ago. de 2012

AMANHECER COM SOL

Marilice Costi

 
O olhar seguiu para além dos seios 
e os sonhos chegaram nus.
 
A coragem ignorou o pranto
e os olhos espelharam desejos.

Sem temer o fio da navalha
a vida equilibrou-se em tênue fio.
 
A verdade abandonou complicadas frases
e entendeu plenamente do amanhecer sem dores.

Foi quando o impossível não sustentou sua tese.


 

17 de jun. de 2012

DOS LIVROS

"É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a idéia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração afins."
(Ralph Waldo Emerson, in 'Sociedade e Solidão')

28 de abr. de 2012

Lançamento do livro GATILHO NAS PALAVRAS - de Marilice Costi - dia 15 de maio - 18h30

17.01.12
(G)atilho nas palavras
No livro (G)atilho nas palavras, de Marilice Costi, o personagem masculino usa Darwin para justificar sua galinhagem: homens têm grande quantidade de esperma para espalhar seu sêmen e povoar o mundo, mulheres possuem poucos óvulos e vida sexual curta. Esse tipo de homem esquece que Darwin também concluiu que as espécies evoluem, modificando seu comportamento para se ajustarem às novas condições ambientais, ou sócio-ambientais, no caso humano. Ele parou no tempo. O mundo já está super-povoado. As mulheres estão independentes, praticam sexo por puro prazer, a procriação passou a ser ato de vontade. Além de contarem com reposição hormonal e anticoncepcional, atualmente nem precisam da presença do macho para engravidar, embora dependam de seu sub-produto. Por seu lado, a personagem feminina, recém-separada de um marido fraco, apesar de empresária e financeiramente bem posicionada, está carente e fixada em formar um novo par. Focalizado nos processos de comunicação entre as partes, o livro retrata o momento de pessoas de meia-idade perdidas entre duas gerações, mantendo algumas atitudes conservadoras enquanto transitam na modernidade, desorientadas por duas revoluções ocorridas no século passado, o feminismo e a informática. Estes movimentos resultaram decisivos para os relacionamentos interpessoais, pois influíram nas instituições, no trabalho, na cultura e na política, bagunçando os valores e os papéis tradicionais, o que transparece no enredo da novela. Vivemos uma época de transformações rápidas, onde, usando a metáfora da autora, o atilho estica para depois se soltar num gatilho, e, segundo Darwin, só os que se adequarem, os mais fortes, sobreviverão.
R.Novaes-Bueno

24 de fev. de 2012

Para as mulheres




08 DE MARÇO

Dia de lembrar que só temos o direito a muitas
escolhas porque muitas mulheres morreram queimadas em uma fábrica americana!
Que não precisem morrer pessoas para que se consiga uma humanidade mais bem cuidada!

VAI MULHER!

reconhece tua dor
recupera tua força
reencontra teu medo
reescuta teu grito
respeita teu pranto
reestuda teu canto
recusa tua farsa
respira teu corpo
revive teu posto
resssuscita teu vulto
recusa a angústia
revela teu silêncio
e descobre a cabeça.

 In: COSTI, Marilice Costi. Mulher ponto inicial. Porto Alegre: Movimento, 1985. p. 26.

DIALÉTICA FORMAL

tento unir
consoantes e vogais
formas incompletas
cobrem páginas
de interrogações mortais

é quando estou no escuro
que procuro a luz, meu alfabeto e a paz.


In: COSTI, Marilice Costi. Mulher ponto inicial. Porto Alegre: Movimento, 1985. p. 25.

22 de fev. de 2012

CIRCO E CERCO


olhinhos espiam meu circo em chamas
e eu, louca, palhaça, desvairada
atiro meu corpo na lama.

apenas posso rir

meu cerco é de bêbados e mortos
onde vou dar à luz
para poder chorar.

In COSTI, Marilice. Mulher ponto inicial. Movimento: Porto Alegre, 1985. p.14. (esgotado)